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À Margem_Eduardo Madureira

O exemplo da Cáritas de Burgos

À Margem_Eduardo MadureiraA história pode ser considerada banal. Triste, mas banal. Está a passar-se em Burgos, onde a Câmara Municipal, governada pelo Partido Popular em coligação com o Vox, anunciou que iria deixar de apoiar a meritória actividade de três Organizações Não Governamentais (ONG), talvez não muito conhecidas entre nós, Accem de Burgos, Atalaya Intercultural e Burgos Acoge. Todas se têm distinguido por um esforçado trabalho de assistência e acolhimento de imigrantes.

O Partido Popular, que detém a presidência do executivo, querendo transferir as culpas, garantiu que não concordava com a desumana decisão, mas que a apoiava por ser uma exigência do parceiro de coligação, o Vox. Se isso não sucedesse, o Orçamento do município não seria aprovado.

Milhares de cidadãos acorreram esta quarta-feira, dia 13, à noite, à Praça Maior de Burgos para se manifestarem contra a resolução, noticiou o Diario de Burgos, que registou o repúdio que o propósito da autarquia suscitara. Deploraram-no, por exemplo, organismos diversos, como sindicatos da Unión General de Trabajadoras y Trabajadores e da Confederación Sindical de Comisiones Obreras e a Confederación de Asociaciones Empresariales. “Clamor em Burgos contra a supressão de ajudas às ONG para imigrantes”, titulou o diário ABC.

Accem, Atalaya Intercultural e Burgos Acoge lançaram, entretanto, um manifesto que observa que o município vive “um clima pacífico em que as pessoas convivem em paz e sem sobressaltos significativos”. O Vox e o Partido Popular não gostam de pessoas migrantes, mas a sua chegada “não gerou dificuldades que mereçam ser destacadas porque a maioria trabalhou na mesma direcção: concórdia, diálogo, realismo, solidariedade, abertura, acolhimento…”.

De resto, as três organizações afirmam que o tráfico de pessoas não se combate com mais perseguição e mais abandono das vítimas. “Combate-se com integração, respeito, acolhimento e ajuda aos países de origem, não com cortes na cooperação internacional”. A existência do problema não pode “servir de álibi para aplicar medidas xenófobas e, muito menos, para culpar por este tipo de práticas as entidades que funcionam num sentido muito claro e muito diferente”.

O manifesto termina dizendo que “para progredir nestes tempos difíceis se requer inteligência, iniciativa, criatividade e capacidade. Não se resolvem os problemas procurando ‘bodes expiatórios’ a quem culpar por todos os nossos males. Isso é fácil, não exige esforço ou trabalho e já se fez em tempos passados, pagando um alto preço por isso. Não o podemos repetir”.

Ao comunicar a supressão da ajuda às três organizações, a autarquia indicou que um apoio iria sobreviver. O que era prestado à Cáritas de Burgos manter-se-ia. Daqui nasce o pormenor que torna a história menos comum e assaz exemplar: a Cáritas recusou qualquer subvenção. Se o executivo municipal do Partido Popular e do Vox não voltar a apoiar o trabalho das três Organizações Não Governamentais, a Cáritas de Burgos não assinará qualquer acordo de colaboração com a Câmara Municipal para prosseguimento do trabalho em que todos estavam envolvidos, um trabalho pelo qual a autarquia não está em condições de se responsabilizar, como indicava a manchete do Diario de Burgos desta quarta-feira, dia 13.

Caritas de Burgos, ação de acolhimento aos migrantes, outubro 2024. Foto FB Caritas Burgos

Grupo de voluntários da Cáritas de Burgos junto a um mural que os próprios pintaram no final de outubro. Foto © Cáritas de Burgos

“O acolhimento, a promoção e a protecção dos migrantes contribuem para uma sociedade mais justa e fraterna”, afirmou a Cáritas num comunicado em que recorda o apelo do Papa Francisco para acolher “igualmente todos as pessoas necessitadas”.

O editorial do diário El País desta quarta-feira enaltecia “a dignidade da Cáritas”, notando que a Organização Não Governamental da Igreja Católica demonstra a “sua dignidade e o seu compromisso”, com um gesto que “vai muito mais além do protesto retórico”, uma vez que “implica uma renúncia económica”.

Os imigrantes serem odiados não é, evidentemente, uma especificidade de Burgos. Haver um partido de extrema-direita que os detesta é igual ao que se passa em outras cidades e países. Um partido de direita associar-se a essa rejeição também não é original, assim como não é invulgar dizer-se que é contrariado que se faz o que se faz. Novidade, de facto, é haver um organismo da Igreja Católica que não vende os seus princípios por um subsídio ou um donativo. Prescindir de milhares de euros é, nos tempos que correm, algo raro. E é também um exemplo. É um bom exemplo haver quem comprove que há valores essenciais cuja defesa deve ser intransigente, nem que isso implique um prejuízo financeiro.

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A presidente da Câmara Municipal de Burgos, do Partido Popular, citada pelo diário El País, disse que a mobilização social a fez “pensar”. Por isso, retrocede. Assim sendo, “os convénios com as três ONG vão manter-se iguais aos de 2024”. O porta-voz do Vox, parceiro do Partido Popular no governo do município, negou que isso levasse a uma ruptura da coligação. Aceitou a mudança de posição, exigindo que não haja ajuda às pessoas “em situação irregular”.

Pensando, pois, melhor, a presidente do município descobriu que “Burgos sempre foi uma cidade acolhedora, tolerante e que ajuda quem necessita”. Sobre as ONG que iam ficar sem apoio, pensando melhor, a autarca está “convencida de que fazem um fantástico trabalho para que Burgos seja mais tolerante, diversa e com melhor convivência”.

A atitude da Cáritas terá, com certeza, ajudado a aprofundar esta reflexão.

 

Texto atualizado no dia 15 de novembro, às 11h30, com as informações relativas à mudança de posição da presidente da Câmara.

 

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