Reflicto hoje acerca de uma perícope joanina, a de Jesus perante Pilatos (João 18:28-39). Muito tem sido discutido ultimamente acerca das relações entre estado e religião. Enquanto cristãos, seguidores e discípulos de Jesus, como entendemos nós as nossas relações com a sociedade e o estado? Um estudo, levado a cabo em 2019 pela conceituada Pew Reserch Center, acerca do papel da religião na sociedade, sugere que, embora a maioria dos americanos afirme que a religião está perdendo influência na sociedade, e a desejem fora da política, existe ainda uma ampla tendência para verem a religião como uma força positiva.[1]
A primeira emenda da constituição norte-americana, como é sabido, proíbe o estado de se associar ou dar preferência a uma dada religião, mas os últimos anos têm revelado um progressivo esbatimento da fronteira entre as igrejas e o estado, algo que se afigura como um precedente deveras perigoso. Se bem que na Europa o cenário seja muito diferente, tem-se vindo a assistir a uma progressiva associação entre religião e política, especialmente nos partidos categorizados como de extrema-direita.
Atendendo a essa perigosa promiscuidade entre religião e política que estes frequentemente promovem, justificando assim, por vezes, políticas populistas que marginalizam e perseguem os mais fracos e indefesos, numa atitude manifestamente farisaica, estreita e moralista, é talvez necessário recordar que a atitude dos profetas do Antigo Testamento – e de resto do próprio Jesus – era normalmente oposta; isto é, baseava-se na humildade, na misericórdia e no apelo ao exercício da justiça para com os humildes contra os abusos dos poderosos. Isto levava-os, não raras vezes, a enfrentarem o status quo vigente – não a fazerem parte dele – e os poderosos a quem o status quo beneficiava – não a tornarem-se eles mesmos poderosos –, quer fossem senhores temporais ou religiosos.

“Pilatos jamais permitiria que um simples judeu marginal viesse a colocar em causa a ordem política de uma região já de si tão inflamável e frequentemente perturbada por sucessivas sublevações e revoltas.” Pintura: Jacopo Tintoretto (1519–1594), Cristo diante de Pilatos. Wikimedia Commons
“O meu reino não é deste mundo”, responde Jesus a um Pilatos que o questiona se Ele é de facto o Rei dos Judeus, facto que, por si próprio, a ser verdadeiro, poderia levá-Lo a ser condenado à pena capital. De acordo com o famoso exegeta, Pe. Raymond Brown, a domesticação das autoridades romanas feita pela comunidade Joanina, que retira a Pilatos o ónus de culpa pela condenação e crucificação de Jesus para o colocar sobre os judeus, em nada se alinha com os factos históricos de algumas fontes, como a de Flávio Josefo, que descreve Pilatos como um homem bastante cruel,[2] e Filo de Alexandria, que referia que ele intempestivamente mandava executar pessoas sem qualquer processo legal. Pilatos jamais permitiria, lembrando o título da magistral obra do Pe. John P. Meier, que um simples judeu marginal viesse a colocar em causa a ordem política de uma região já de si tão inflamável e frequentemente perturbada por sucessivas sublevações e revoltas.
Contrariamente à interpretação que as mais das vezes fazemos deste versículo 38 do evangelho de João, a palavra grega kósmos, que se traduz muitas vezes por mundo, não transmite necessariamente o significado de o mundo inteiro ou universo, como o entendemos actualmente. Significa igualmente “organização harmoniosa”, “ordem” ou “governo”. Nesse sentido, o mundo a que Jesus se refere é, antes de mais, ao mundo romano, ou seja, à sua ordem temporal, política, social e jurídica.
Para a esmagadora maioria da população que vivia sob o domínio imperial romano, a vida era extremamente difícil. Somente cerca de 1% da população pertencia ao vértice da pirâmide hierárquica romana, a qual detinha o verdadeiro poder. Não existia aquilo a que chamamos hoje de classe média, muito menos uma democracia em sentido amplo. Exceptuando a “população respeitável”, constituída essencialmente por uma aristocracia de proprietários de terras, e também por uma burguesia de artesãos, comerciantes e mercadores, os restantes cerca de 80 a 90% eram constituídos, por grau de precaridade, por pobres livres, camponeses, trabalhadores urbanos diaristas dependentes de patronos, órfãos, viúvas, doentes e uma enorme massa de escravos de todas as origens.[3] É neste contexto que Jesus nasce e vive, numa nação fortemente subjugada e oprimida pelos romanos, com os seus procuradores e reis vassalos, como o foram Herodes e seus filhos.
Jesus, segundo uma leitura do famoso John Dominic Croissan, ao invés de adoptar a mensagem de João Batista que fazia de Deus um juiz apocalíptico cujo advento era já iminente,[4] sempre preferiu a transformação que vem de dentro do coração, do interior de cada ser humano: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:21). Mas esse Reino não é, contrariamente ao que muitos possam imaginar, um idílio, concretizável somente nos céus. Jesus, falando muitas vezes desse Reino através de parábolas, referia-se a ele como o fermento, o qual tem poder para impactar acções, pensamentos, relacionamentos, famílias, instituições e até governos, até que a vontade do seu Pai possa ser feita na terra como o é nos céus (Mateus 6:10). E como pode ela ser feita? Penso que Jesus, falando tantas vezes acerca do seu Pai, que é bom, deseja que os seus discípulos, a Igreja, transformem este mundo essencialmente através de actos de compaixão, liberdade e justiça. Nisso é cumprida a vontade do Pai.
Por isso, penso que os seguidores de Jesus, tal como o seu mestre, não são chamados a alinhar com determinadas visões políticas ou líderes, nem mesmo com aquelas que, aliadas aos poderes religiosos, queiram implementar, aqui na terra, algum tipo de teocracia. A Igreja, conforme já notado por Bonhoeffer, não obstante o dever de questionar o estado quanto à legitimidade das suas acções, tem sobretudo uma obrigação moral incondicional para com as vítimas de qualquer ordem social, mesmo perante as que não pertençam à comunidade cristã. “Trabalhemos para o bem de todos”.[5]
[1] Pew Reserch Center, Americans Have Positive Views About Religion’s Role in Society, but Want It Out of Politics, November 15, 2019. Available at: https://www.pewresearch.org/religion/2019/11/15/americans-have-positive-views-about-religions-role-in-society-but-want-it-out-of-politics/
[2] Brown, Raymond E. The Death of the Messiah. (Yale University Press, 2018), 753, 833
[3] Jeffers , James S. The Greco-Roman World of the New Testament Era: Exploring the Background of Early Christianity (IVP Academic, 1999),180-96
[4] Crossan, John Dominic. Jesús: Vida de un Campesino Judío (Grupo Grijalbo-Mondadori, Barcelona, 1994),10
[5] Bonhoeffer, Dietrich. Berlin: 1932-1933 (Dietrich Bonhoeffer Works, Vol. 12) (Fortress Press, 2009)
Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona e doutorando em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.










