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Yongey Mingyur Rinpoche, monge budista, autor dos livros "Amar o Mundo" e "A Alegria de Viver". Foto © António Marujo/7MARGENS
Yongey Mingyur Rinpoche fotografado em Leiria, numa recente passagem por Portugal. Foto © António Marujo/7MARGENS

Yongey Mingyur Rinpoche ao 7MARGENS

O monge budista que fugiu do mosteiro e teve de aprender a fazer fogo

| 28/07/2025

Monge budista, Yongey Mingyur Rinpoche resolveu em 2011 sair do mosteiro de Bodhgaya, para aperfeiçoar as suas práticas de meditação. Teve de aprender a fazer fogo com aldeões dos Himalaias, a sobreviver e a encontrar comida. Durante quatro anos e meio, viajou pela Índia e pelo Nepal. Voltou para o mosteiro há dez anos e entretanto tem desenvolvido projectos com cientistas, de modo a que as neurociências ou a psicologia aproveitem a sabedoria milenar da meditação budista.

Nascido no Nepal em 1975, Mingyur Rinpoche estará em Portugal em meados de Agosto, para ensinar “como meditar a qualquer hora, em qualquer lugar e com qualquer actividade”. Autor de dois livros publicados em português (Amar o Mundo, onde conta a sua experiência de fuga, e A Alegria de Viver – ambos na Temas e Debates), Rinpoche fará palestras em Lisboa (dia 14) e em Coimbra (dia 15), onde também será o foco de uma celebração de boas-vindas (dia 16, em Podentes, onde será construído o novo centro de retiros).

Nesta entrevista, concecida ao 7MARGENS numa passagem recente por Portugal, Rimpochhe fala ainda da reencarnação do Dalai Lama, do Tibete e da proximidade do budismo em relação ao monaquismo cristão ou ao sufismo muçulmano.

 

7M – Um dia decidiu fugir do mosteiro onde vivia. Porquê?

YONGEY MINGYUR RINPOCHE – Temos um estilo de prática de meditação particular chamado retiro errante. Quando eu era mais novo, a minha mãe costumava ler-me um livro sobre os antigos grandes mestres, como o que chamamos de Milarepa, que existiu há uns mil anos no Tibete. É como um santo, que fez muitos retiros errantes. A minha mãe costumava lê-lo como uma história para adormecer.

Fiquei com a marca dele na minha mente, é muito inspirador. Depois aprendi meditação. Na prática da meditação, há uma coisa a que chamamos juntar lenha ao fogo: quando se faz fogo, primeiro tem de se fazer da maneira tradicional, com muito cuidado, com um pequeno ramo, sem vento, lentamente; e quando o fogo se torna maior, aí deixar o vento vir. Pode colocar-se várias pedras, troncos grandes, tudo se torna um suporte para o fogo. Podemos meditar em todo o lado, a qualquer hora, sobre qualquer tema. Podemos meditar a partir do sofrimento, da dor, de problemas, tudo se torna apoio à meditação e no final tudo se torna, de certa maneira, apoio à felicidade, apoio para a consciência, o amor, a compaixão e a sabedoria. Por isso, é bom [meditar], especialmente se formos para um lugar desafiante ou difícil.

 

7M – Mas nessa experiência, quando saiu do mosteiro, o que era o mais importante para si?

O mais importante é que eu não tinha nenhum plano ou horário em particular, tornei-me livre, de certa maneira, como pássaros voando no céu, mas com muito vento e muitas nuvens. Ao mesmo tempo, foi muito difícil, mas o que tinha era a minha prática de meditação, que realmente me ajudou. Cada vez que [atingia] um nível diferente sentia alegria, mas fora isso não era tão fácil, porque não tinha muito dinheiro, apenas cerca de mil rupias indianas que terminaram ao fim de um mês.

Yongey Mingyur Rinpoche, monge budista, autor dos livros "Amar o Mundo" e "A Alegria de Viver". Foto © António Marujo/7MARGENS

Yongey Mingyur Rinpoche, monge budista, autor dos livros Amar o Mundo e A Alegria de Viver. Foto © António Marujo/7MARGENS

7M – E viveu como um mendigo durante algum tempo… O que foi o mais importante nessa experiência?

Tive de mendigar por comida, nunca tinha mendigado antes na minha vida, e tive uma espécie de intoxicação alimentar. Quase morri por causa de diarreia, de vómitos. Seis, sete dias, nenhuma comida. O meu corpo ficou paralisado. Não conseguia ver, todos os sentidos se dissolveram, mas fiquei naquilo a que chamamos consciência, a qualidade fundamental da mente, como luz. Um presente despertado, que é a qualidade fundamental da mente, e depois tornar-se mais clara, mais clara, mais clara. Até o pensamento se foi. A sensação física desapareceu, para além do tempo e da matéria.

 

7M – O mosteiro de onde saiu é em Bodhgaya, no centro da Índia. Viajou sempre na Índia ou andou por outros países?

Nepal, Índia, durante o Verão fui às montanhas do Himalaias porque lá está uma temperatura muito boa e consigo encontrar grutas muito boas e as pessoas locais são felizes. Aos meditadores que meditam nas cavernas, dão-lhes muita generosidade, comida… No inverno, está muito frio, desci para a área plana, na Índia.

 

7M – Viajou durante quatro anos e meio. Lembra-se de alguém que mais o tocou? Alguma história pessoal, algum comportamento, algo que alguém lhe disse?

Aprendi muito sobre a vida. Antes disso, era como um príncipe porque sou mestre e toda a gente me tratava muito bem, mas depois saí do meu casulo. Tive de começar tudo sozinho e aprender muito com as pessoas. Uma coisa em particular, diria eu: na montanha, comecei a aprender a fazer fogo. É muito difícil, não sabia antes. Tive de começar da maneira tradicional, porque não havia electricidade, nem gás, nada. Levei alguns dias para fazer fogo. Finalmente este fogo veio e eu tinha de cozinhar. Primeiro, o meu desejo era ferver água quente porque se eu conseguisse ferver água quente, com a cevada, o pó do grão, podia comer. É como papas de aveia, mas eu precisava de água quente.

Tentei ferver a água, demorei duas horas a fervê-la. Quando bebi a água fervida, sabia a fumo. Muito mau… E o fumo veio para os meus olhos… Algumas semanas depois, veio um morador local e eu ainda estava em sobressalto, ainda não tinha cozinhado, ainda era difícil ferver água. E a pessoa disse-me: “Oh, você tem de ter muito boa madeira, madeira seca.” E ajudou-me: uns dias depois trouxe um grande pedaço de madeira seca, fiquei muito feliz.

Yongey Mingyur Rinpoche, monge budista, autor dos livros "Amar o Mundo" e "A Alegria de Viver". Foto © António Marujo/7MARGENS

Mingyur Rinpoche durante a entrevista. Foto © António Marujo/7MARGENS

7M – Aprendeu então a fazer fogo com as pessoas dessa região…

[Sim.] Essa pessoa disse: “Posso ajudá-lo?” “Claro que sim.” E pegou num pauzinho assim [indica um pau pequeno] e soprou para o meu fogo como… [sopra… poof!] E aí a chama veio. Fiquei muito surpreendido. Quase um mês para fazer fogo e não funcionava, mas ele com apenas um pauzinho… Senti como se ele fosse um mágico e o pau era como uma varinha mágica. Ele perguntou-me: “De onde és?” “Sou mais ou menos do Nepal.” E ele perguntou-me: “O que estudaste?” “Estudei meditação quando era jovem e filosofia budista”; e ele disse: “Uau, tu és tão culto, eu sou estúpido. Vivi toda a minha vida aqui nas montanhas, não sei nada.” Mas para mim ele era como um mágico, ensinou-me a fazer fogo, sabia que tipo de madeira é boa, sabia sobre cogumelos comestíveis ou vegetais… Tantas coisas que aprendi com ele…

Por isso, para mim, ele é uma pessoa muito sábia, não é estúpida de todo, mas para ele sou muito sábio, uma pessoa muito simpática. E eu disse-lhe: “Para ti, sou sábio, talvez tenha aprendido mais sobre algumas coisas, meditação ou isto, mas para mim és o mais sábio.” Todos temos qualidades únicas. Então, o que eu aprendi é que todos têm o que chamamos de bondade inata básica. Todos têm habilidades, talento, potencial, sabedoria, amor e compaixão, consciência. Tenho um sentimento muito forte. Aprendi isto na minha meditação, mas tornou-se como uma ideia [concreta]. Mas com aquela pessoa senti mesmo isso, esta bondade básica em toda a gente.

 

7M – No seu livro Alegria de Viver, conta que tem colaborado com alguns cientistas e neurocientistas. É importante para si, como monge budista, fazer este trabalho com eles?

Sim, desde a infância que me interesso pela ciência. Se não fosse um monge budista, tornar-me-ia cientista. No início, interessava-me muito a cosmologia. Conheci um cientista muito famoso chamado Francisco Varela, é do Chile.

 

7M – Sim, fala dele no livro.

Ele aprendeu meditação com o meu pai, mas eu fiz-lhe uma série de perguntas científicas. Terminei o meu retiro de meditação e o estudo de filosofia budista e fui para o Ocidente, em 1998 e, quando discutia com o cientista, era quase como se estivéssemos a falar da mesma coisa, mas com um aspecto diferente, palavras diferentes, um estilo diferente. E eu pensei: “Talvez possamos dialogar juntos, podemos aprender uns com os outros.”

Comecei a colaborar com os cientistas em 2002. Na ciência fazem muitas descobertas, mas não têm prática de meditação. Não sabem como aplicar isto no dia-a-dia. Especialmente a mente do ser, um estado mental focado em experienciar o momento presente sem julgamento ou apego a objectivos ou resultados. A ciência é pensamento, pensamento, pensamento… Trazendo a descoberta, com a mente do ser, pode-se transformar a vida pessoal.

Novas teconologias, computador, pessoas, comunicação

Computador com rostos de pessoas: “Com a neurociência e a psicologia, há muitas coisas que podemos aprender uns com os outros..” Foto © Miguel Veiga.

7M – Qual é exactamente o seu objectivo com esse trabalho com os cientistas? É descobrir a felicidade, descobrir os bons efeitos do espírito no corpo?…

No início, era apenas um passatempo. Lentamente, o que descobri é que podemos fazer muitas coisas pela humanidade. Especialmente hoje em dia, as pessoas têm muito stress e problemas emocionais… Tive ataques de pânico no início e o meu pânico tornou-se o meu amigo e o meu professor. Então, com a neurociência e a psicologia, há muitas coisas que podemos aprender uns com os outros.

No budismo, algumas técnicas de meditação podem ser ensinadas a toda a gente, ninguém tem de se tornar budista. As pessoas têm muitos problemas mentais e estes ensinamentos são realmente úteis. Mas, de alguma forma, embora o que a ciência começou a descobrir esteja lá no nosso ensino, a ligação não está lá. Por isso pensei que a ciência realmente entende como isso se pode integrar na vida. Na meditação há muitos exemplos, muitos estudos que foram feitos há muito tempo, mas já estão fora de validade.

 

7M – Na tradição cristã, o monaquismo sempre foi como uma experiência vanguardista no sentido de sublinhar a importância da meditação. Também no islão, por exemplo a tradição sufi também enfatiza a prática da meditação. Era necessário o budismo vir ao Ocidente para relembrar os ocidentais de que a meditação é importante? Foi o budismo que nos ajudou, no Ocidente, a redescobrir a importância da meditação?

Há tantas técnicas antigas para trabalhar com a mente no budismo, tantos níveis diferentes… No Ocidente há muita influência, através da meditação, até mesmo nas psicoterapias – muitas delas são algo influenciadas pelo início da vida budista do Sri Lanka, da Birmânia, como [é o caso da] análise corporal, a consciência do corpo, uma prática antiga com 2600 anos.

Agora a maioria das terapêuticas usa a análise corporal, a consciência do corpo, o relaxamento dos músculos do corpo, e também a consciência das emoções… O que chamamos as três coisas – visão, meditação e aplicação – na psicologia eles chamam ABC. A significando afecto, emoção, B significando comportamento [do inglês behaviour], C significando cognitivo. No budismo, a visão trabalha com o nível cognitivo. A meditação trabalha com o sentimento emocional, o nível experiencial. O comportamento, o mesmo a que chamamos de obrigação: repetir, trabalhar especialmente com a mente subconsciente.

Tivemos isto durante 2600 anos, mas com termos diferentes. Chamamos-lhe visão, meditação, obrigação e a ciência chama-lhe afecto, padrão cognitivo, habitual ou hábito, a mente subconsciente. Na terapia ainda não está totalmente desenvolvido o efeito emocional. Há terapia comportamental, terapia cognitiva, terapia do comportamento cognitivo, mas como trabalhar com os sentimentos ainda não está totalmente desenvolvido. Mas nós, budistas, temos muitas dessas técnicas, por isso pensei que podia ajudar a humanidade.

Yongey Mingyur Rinpoche, monge budista, autor dos livros "Amar o Mundo" e "A Alegria de Viver". Foto © António Marujo/7MARGENS

Yongey Mingyur Rinpoche: “Os chineses não são inimigos dos tibetanos.” Foto © António Marujo/7MARGENS

7M – Também dialoga também com monges cristãos ou sufis?

Sim, já estive em muitos mosteiros cristãos na Alemanha, na América…

 

7M – E como olha para o monaquismo cristão contemporâneo?

Sinto-me muito feliz por dialogar, especialmente com os cristãos que meditam com foco na fé. E alguns simbolismos como a cruz ou… Alguns meditam sobre a morte. Nós temos a meditação da morte impermanente, temos meditação sobre o objecto, há muita semelhança aí. Especialmente com os sufis, há muitas técnicas que são bastante semelhantes.

 

7M – O budismo, tal como o cristianismo e as outras religiões principais, propõem a paz como um valor supremo, mas hoje olhamos para o mundo e vemos que há sempre extremistas das diferentes religiões, que reivindicam a sua própria religião, mas usam e praticam a violência. Porque acontece isto?

O que me apercebi, no ensino da religião e nas pessoas, é que as pessoas às vezes usam mal a religião, com um propósito egoístico, como um benefício de poder. No budismo, às vezes, as pessoas usam Buda Dharma como ganho pessoal e isso acontece com os cristãos, os muçulmanos, com todas as outras religiões, penso eu. Mas fundamentalmente, todas as religiões, creio eu, são sobre amor, bondade, compaixão, paz, todas promovem isso, a esse nível acho que são iguais.  Mas é muito importante que os seguidores de uma religião realmente se envolvam com o significado da prática religiosa.

 

7M – O seu pai, como o Dalai Lama e muitas outras pessoas, fugiu do Tibete. Sonha em viver num Tibete pacífico e livre ou está muito longe de…

Sigo as ideias do Dalai Lama. O Dalai Lama queria mesmo ter a paz para todos, agora chama-lhe “meio caminho”. Bom para a China, bom para os tibetanos, para que todos possam estar em harmonia juntos. Por isso, quero acreditar nisso e seguir isso.

 

7M – Significa que se a China…

Os chineses não são nossos inimigos.

 

7M – … se a China der alguma autonomia, alguma liberdade ao Tibete, é possível viver juntos?

O Dalai Lama não está a procurar a liberdade do Tibete, agora. Ele fala em viver juntos em harmonia, de forma a que seja bom para todos.

 

7M – É possível que o Dalai Lama reencarne em si?

Normalmente não… Isso acontece na próxima vida: quando o Dalai Lama falece, depois vem o próximo. Não pode passar-se a alguém.

 

Na página da União Budista Portuguesa, podem encontrar-se informações sobre a vinda a Portugal de outro mestre budista: Gyana Vajra Rinpoche (43º Sakya Trizin), um dos mestres mais relevantes do budismo tibetano, estará em Lisboa dias 9 e 10 de Agosto para um ciclo de ensinamentos com o título “Abandonar os 4 Apegos”.

Rinpoche é um título usado para designar indivíduos reconhecidos como a reencarnação de mestres budistas destacados ou, simplesmente, um líder de um mosteiro ou um título de respeito. A palavra é normalmente colocada a seguir ao nome.

 

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