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O Nobel da Paz para o Papa Francisco

| 06/04/2023

O Papa Francisco com o xeque Ahmed el-Tayeb, em fevereiro de 2019, depois da assinatura do documento sobre a fraternidade humana. Foto © Eissa Al Hammadi/Ministry of Presidential Affairs.

O Papa Francisco com o xeque Ahmed el-Tayeb, em fevereiro de 2019, depois da assinatura do documento sobre a fraternidade humana. Foto © Eissa Al Hammadi/Ministry of Presidential Affairs.

 

Agora, apesar de reformado, com os meus 81 anos, continuo a dar consultas telefónicas gratuitas, a escrever artigos para jornais, a participar em debates e vejam lá que até me inscrevi numas aulas de desenho de modelos. Não entendo os que querem a reforma mais cedo. E oiço com grande prazer os colóquios com o meu grande amigo Manuel Sobrinho Simões, dos homens mais brilhantes e simpáticos que conheço, e o professor Júlio Machado Vaz.

Fez há pouco dez anos que o Papa Francisco foi eleito, é útil refletirmos no que representou essa feliz escolha.

Logo ao escolher o nome Francisco, como S. Francisco de Assis, ao vestir com simplicidade rara com sapatos pretos, cruz de madeira ao peito, ao não querer habitar no palácio do Vaticano, mas antes num hotel comum com outras gentes, onde almoça junto de vários trabalhadores, deslocando-se entre os dois edifícios a pé e não em cadeira sustentada por outros homens, começámos a pressentir que a simplicidade e convívio com os pobres seria o cumprimento efetivo das conclusões do Concílio Vaticano II.

Desde essa iniciativa do grande Papa João XXIII, que foi para mim o homem mais notável do século passado, que os papas inovadores – ele, Paulo VI e agora Francisco – e a Igreja abriram as portas a toda a população em lugar de as fechar. A defesa frontal da democracia, da promoção social e do combate à pobreza tem levado os grupos mais defensores das mordomias a alcunharem-nos de comunistas. Mas, meus amigos, o primeiro verdadeiro socialista foi Jesus Cristo e, claro, não comunista.

Ao contrário de muitos diálogos, que mais são monólogos entre a Igreja e as dúvidas de leigos, como é bem demonstrado no filme de Fellini 8 ½, com o “diálogo” entre um bispo e [a personagem de] Marcelo Mastroianni, este Papa fala claro e sem dúvidas.

Ora, Francisco fez já 40 viagens visitando seis dezenas de países em todos os continentes, mesmo alguns que lhe são adversos, na defesa da paz. Esteve envolvido com o Presidente dos Estados Unidos da América, para restabelecimento de relações entre com Cuba, tendo visitado ambos os países na defesa da paz.

É um exemplo do respeito pelo diálogo sério com as várias comunidades, o que deveria obrigar os partidos políticos e as Igrejas locais a recentrarem as suas ideias com esta abertura e seriedade. Era a maneira dos partidos “correrem” com os oportunistas e passarmos a ter democracias mais sérias.

O Papa tem encontrado grande resistência na tentativa de promoção das mulheres e leigos na Igreja. Sente-se que irá permitir os padres a casarem.

Aliás, presente-se que a Igreja não aceita a sexualidade como um valor; o casamento é uma espécie de mal menor, quando nós vemos no Génesis diálogos de Abrão, Josué e Yahvé, muito mais abertos em relação à sexualidade.

Infelizmente, parte dos bispos portugueses, face aos casos de pedofilia, não foi capaz de suspender temporariamente os eventuais padres prevaricadores, protegendo vítimas de frequentes recidivas, com posterior averiguação e absolvição. É um espírito alheio às conclusões do Vaticano II e que irá obviamente afastar crentes, quando o Papa permite expressamente que os bispos suspendam os padres. Será que o Papa não devia suspender alguns bispos?

Entendo que deviam atribuir o Prémio Nobel da Paz ao Papa Francisco.

Devo esclarecer que já fui católico, mas agora sou agnóstico, pela dúvida sobre se Deus existe ou resulta de uma criação dos homens. Espero que essa dúvida me seja esclarecida antes da morte!

 

Francisco Crespo é médico

 

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