No dia 19 de Novembro de 1620 (faz agora 400 anos) a tripulação do Mayflower subscrevia o famoso Pacto de Mayflower em terras do Novo Mundo.

Assinatura do Pacto do Mayflower em1620. Pintura de Jean Leon Gerome Ferris,1899.
Há milénios que a utopia de um novo mundo está presente no imaginário dos povos. Desde a República de Platão, passando pela Terra Prometida “que mana leite e mel”, dos hebreus, pelas propostas humanistas de Erasmo de Roterdão, pela ilha de Thomas Moore (amigo de Erasmo) consagrada na sua obra Utopia (1516) e até ao Pacto de Mayflower (1620).
De resto, o termo utopia é de origem grega e significa, curiosamente, “lugar nenhum”. Mas o que transparece de todos estes ensaios é o sonho da construção dum tipo de sociedade melhor, mais igualitária, de homens livres, sem opressores e oprimidos, onde não exista razão para a pobreza ou a escravatura e na qual todos os residentes gozem de direito de cidadania, vivam tranquilamente e tenham supridas as suas necessidades de toda a ordem.
No caso de Moore vai-se mais longe, com a ideia de que o trabalho seja obrigatório nas actividades produtivas (agricultura e ofícios), que constituem a estrutura económica da sociedade, e onde os cargos políticos são electivos e a educação universal. Compreende-se a crítica à sociedade europeia do seu tempo, em especial na Inglaterra, perante a pobreza de grande parte da população e os profundos contrastes sociais.
Mais influenciado pelos modelos clássicos, pela dinâmica religiosa ou pela racionalidade, o denominador comum é sempre a recusa da realidade vivida e a elaboração do sonho. Na mesma linha, faz agora 400 anos que a tripulação do navio Mayflower subscrevia o famoso Pacto de Mayflower em terras do Novo Mundo.
Segundo excertos do diário de William Bradford, que viria a ser governador da colónia de Plymouth: “Faz dez dias que vimos terra pela última vez. Hoje é 19 de novembro de 1620 e eu agradeço a Deus por ter cuidado de mim durante a travessia do oceano a bordo do Mayflower. Foram necessários cerca de 66 dias exatos para finalmente nos tornarmos livres. Livres das más influências do mundo. A bordo de nosso navio não estávamos apenas nós, que queremos viver totalmente conforme os preceitos de Deus e da Bíblia, mas também pessoas que buscam na América uma felicidade diferente da que procuramos. Mas nós sabemos: igualdade entre os homens é nossa missão. Por isso, eu, William Bradford, firmei um contrato com os demais homens e o assinei. Nós o baptizámos como Pacto de Mayflower.”
Para estas dezenas de puritanos em ruptura com a Igreja de Inglaterra, a América surgia assim como a utopia do Novo Mundo, em duas dimensões. Por um lado, esperava-se que viesse a ser a resposta ao anseio de liberdade que não encontravam na velha Europa e que permitisse a construção duma sociedade igualitária (“igualdade entre os homens é nossa missão”) que o Império Britânico não perfilhava. O anseio do ser humano por liberdade e justiça está sempre na base da queda dos regimes autoritários e injustos, assim como de todas as formas de ditadura.
Mas tratava-se também duma “purificação espiritual” atendendo ao desejo de quererem viver “livres das más influências do mundo”, de forma a poderem “viver totalmente conforme os preceitos de Deus e da Bíblia”.
Curiosamente, este documento surge devido a um imprevisto. O navio devia atracar no rio Hudson, no território que o governo britânico destinava aos colonos, mas as vicissitudes da viagem levaram-no a Provincetown. Nessa altura os passageiros que não pertenciam ao grupo dos puritanos tentaram alegar que estariam fora do controlo inglês. Para evitar problemas, os peregrinos decidiram então estabelecer um governo e aprovar um contrato social em forma de documento, onde ficassem estabelecidas regras que garantissem a sobrevivência do grupo. O documento original ter-se-á perdido e resta apenas uma transcrição manuscrita por Bradford, que os historiadores consideram fidedigna e que integra o espólio da Biblioteca Pública de Massachusetts.
No fundo, os puritanos do Mayflower foram atrás do sonho de deixar para trás uma sociedade e uma Igreja corruptas e injustas, e construir, em novos horizontes, a utopia duma sociedade nova, pura, igualitária, fraterna e temente a Deus. Nada que os “puritanos” de hoje não continuem ainda a tentar, sem perceber que onde houver seres humanos haverá sempre problemas, injustiça e opressão.
Claro que vale a pena sonhar e fazer alguma coisa para materializar esse sonho, desde que os construtores do sonho não produzam injustiças ainda maiores do que aquelas a que dizem querer fugir. E já agora não se esqueçam que Jesus Cristo nunca preconizou a fuga da realidade do mundo: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (João 17:15), orou ele ao Pai. Mas deixou uma palavra de esperança: “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16:33).
José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.









