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O país da longa noite aziaga

 

Para tentar amenizar o profundo incómodo provocado pelo resultado eleitoral da extrema-direita, pode-se recorrer a alguma farmacologia textual. E, de entre os remédios literários ou ensaísticos que são as obras de Almeida Garrett, Antero de Quental, Eça de Queirós ou mais alguns outros, pode-se tomar um texto de Alberto Pimenta publicado há 30 anos, no Diário de Notícias, intitulado “Sobre os portugueses”. Tem mais pertinência do que muitos dos escritos publicados nos jornais de hoje.

Essa reflexão de 29 de Janeiro de 1995 começa com uma constatação irrepreensível: “Os portugueses não formam uma sociedade porque não são sócios uns dos outros”. Para o comprovar, são oferecidos os exemplos considerados “mais corriqueiros”. Os casos lisboetas são verificáveis em outras localidades: “Vai-se pela rua e pode-se apanhar com sacos de migas de pão ralado, atirados aos pombos, na cabeça”. As incivilidades banais que conspurcam as ruas ocorrem “porque cada um entende que o espaço público se pode sujar à vontade”. A capital – e, evidentemente, não só – é, como escreve Alberto Pimenta, “habitada por uma horda que usa fato e gravata e anda de automóvel, mas que não chegou sequer ao patamar mínimo de civilização urbana”.

Há circunstâncias do dia-a-dia que exasperam. “Há um total desprezo do próximo, uma falta de noção dos direitos e deveres urbanos civilizacionais. Soube agora de um caso que se passa num prédio normal do centro da cidade. Há alguém que guarda a moto do filho de família no patamar entre o terceiro e o quarto andares e, quando lhe vão dizer que não o pode fazer, essa gente que é licenciada fecha a porta, dizendo: ‘A moto é minha, eu faço o que eu quero!’ Tal e qual como o sapateiro que bate no filho e diz: ‘O filho é meu, eu faço o que quero!’. É a sociedade do ‘salve-se quem puder’”. Em vez de uma sociedade organizada, um clã, constata Alberto Pimenta. Por vezes, como o autor indica, pode emergir uma grande humanidade e intimidade onde menos esperávamos, “mas o preço é caro”. Um quotidiano em que “tudo funciona improvisada e desastradamente” torna-se “desgastante”.

Alberto Pimenta

Foto: Alberto Pimenta © Agenda cultural de Lisboa, 3/12/2019

“Nem se pode andar pelas ruas porque os carros ocupam os passeios. São insignificâncias que vão criando e alimentando quotidianamente um mal-estar, um cansaço, uma perda de energia”. O modo como tantos portugueses se comportam ao volante fornece um dos mais sintomáticos exemplos de desprezo pelos outros. As criaturas ao volante que buzinam quando um idoso demora mais a atravessar uma passadeira são incontáveis, e não são raros os que nem sequer respeitam os semáforos. E onde estes não existem, os que ignoram as passadeiras multiplicam-se. Estacionar em cima do passeio é um padrão, a não ser que haja um polícia por perto, e, mesmo assim, há os que lhe medem a atenção. Se, a estacionar a sua viatura, uma qualquer alma bate e danifica o carro de trás ou da frente, o que faz? Após verificar que não há testemunhas, abandona apressadamente o local.

“Há um egoísmo perfeitamente catastrófico que caracteriza os portugueses”, observa Alberto Pimenta. O português, acrescenta o autor, “no seu dia-a-dia, desde que tenha resolvido o seu problemazinho e possa comer o seu bifinho com batatas fritas ou o seu bacalhauzinho, já tira daí um prazerzinho que o deixa satisfeito. O Eça usou todos esses diminutivos com razão, porque tudo é pequeno, da dimensão ao espírito. Satisfazem-se com pouco”.

O retrato dos portugueses inclui um pormenor intemporal. “O nosso racismo é económico. Tratamos com servilismo os que têm mais dinheiro que nós, embora haja quem diga que isso é a cordialidade do português a acolher os estrangeiros”.

Em “Sobre os portugueses”, Portugal é visto “a meio caminho entre o Norte de África e a Europa”, sem se conseguir definir. “É pobre combinar as coisas sem definir uma ideia e uma identidade próprias. Não há, em Portugal, política no sentido autêntico da palavra, uma ideia de sociedade para dar forma ao Estado”. Alberto Pimenta não é, aliás, benévolo na classificação dos políticos portugueses: “São preguiçosos, pouco competentes e bastante diletantes”.

A actualidade do texto do Diário de Notícias subsiste. Às vezes, de forma agravada. Se “os portugueses não formam uma sociedade porque não são sócios uns dos outros”, agora estão ainda mais zangados uns com os outros. Instigados pelos que beneficiam – sempre beneficiaram – com o ressentimento e o ódio.

 

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