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O processo sinodal e a JMJ

“O reforço da fidelidade ao Evangelho tem por consequência uma vivência mais intensa de um modo sinodal de conduzir o povo de Deus, levando-o a uma prática mais solidária, mais fraterna e mais acolhedora de toda a realidade do mundo, constituindo, aí sim, o verdadeiro anúncio da presença de Deus.”

 

A intenção de oração do Papa Francisco para o mês de outubro pede-nos que “Rezemos para que a Igreja, fiel ao Evangelho e corajosa no seu anúncio, viva cada vez mais a sinodalidade e seja um lugar de solidariedade, de fraternidade e de acolhimento.”

Ou seja, no entender do Papa, o reforço da fidelidade ao Evangelho tem por consequência uma vivência mais intensa de um modo sinodal de conduzir o povo de Deus, levando-o a uma prática mais solidária, mais fraterna e mais acolhedora de toda a realidade do mundo, constituindo, aí sim, o verdadeiro anúncio da presença de Deus.

Isto implica olhar a sinodalidade como um caminho congregador, conducente a um maior empenho e participação dos fiéis, trazendo a sua experiência concreta do dia-a-dia, recheada de desafios, para a condução das orientações práticas e pastorais da Igreja, de que são parte absolutamente fundamental. Aliás, sem fiéis não há Igreja e qualquer caminho de governação que os envolva resulta numa Igreja mais próxima do seu ambiente, das suas interrogações, dos seus anseios e dos obstáculos e dificuldades colocados à vivência da sua fé. Isto é, resulta numa Igreja mais próxima de si própria e mais entrelaçada com o mundo.

No fundo, o nosso Papa pede a nossa oração para que a Igreja retome a consciência de que é um povo congregado numa mesma caminhada, cuja voz é escutada e que deve contribuir para que as vozes caladas ou excluídas do diálogo sejam acolhidas. Um povo em que é grande a diversidade e, com isso, a riqueza e complementaridade das suas vivências, realidades e perspetivas.

Este pedido concreto de oração, reacende inevitavelmente a alegria e o entusiasmo de todos quantos participaram em grupos sinodais, promovidos um pouco por todo o país, e viram as amplas discussões darem origem a um documento-síntese publicado pela Conferência Episcopal Portuguesa, que enuncia as principais preocupações sentidas por tantos que amam a Igreja e a desejam ainda mais reflexo da pessoa de Jesus.

Essa alegria decorre da certeza de que este processo de escuta foi guiado pelo Espírito Santo, que assim se mostra atuante. Aliás, nas reuniões em que participamos – e imaginamos que terá sido assim em todos os locais em que se reuniram grupos em Seu nome – a oração invocando a presença do Espírito foi sempre um dos momentos mais inspiradores, levando a que este tenha sido mesmo um caminho em que Deus foi conduzindo o seu povo.

Mas o entusiasmo também chega pela comunhão que se cria com as primeiras comunidades cristãs, a cuja práxis sinodal muito ficou a dever o crescimento da Igreja. Um sentimento que confirma que a Igreja é, de facto, Universal, porque comunga os Cristãos de todos os tempos e lugares numa busca pela melhor forma de colocar o Evangelho em prática, de acordo com os desafios de cada momento.

É clara a vontade do Papa para que se recupere esta forma de escuta e envolvimento real do Povo de Deus na busca de caminhos para a Igreja e para a interação desta com o mundo. Foi igualmente clara e entusiasta a resposta a essa vontade que deram os muitos grupos sinodais, não só em Portugal como em todo o mundo, pelo que todos esperamos agora um modo de proceder diferente, no qual a hierarquia e os fiéis possam escutar-se verdadeiramente – e não apenas, quando muito, ouvir-se – com muito maior regularidade. Mais do que isso, à Igreja de agora pede-se a capacidade de ir às margens para acolher e escutar quem está fora, principalmente os que foram excluídos por ação concreta ou por omissão da hierarquia ou dos fiéis.

Com isto em mente, é clara a oportunidade que temos agora em mãos, nós Igreja em Portugal, para ir de encontro àquilo que o caminho sinodal nos fez ver. Sem prejuízo de considerar fundamental a aplicação desse modo de atuar a toda a vida da Igreja, neste momento em particular falamos da Jornada Mundial da Juventude JMJ), nas quais seria de extrema importância que inscrevessem na sua prática a escuta dos jovens, crentes e não crentes, integrados, afastados ou excluídos.

Sabemos que há jovens a serem escutados para a elaboração do programa e das dinâmicas daqueles dias, mas não sabemos exatamente qual o seu papel, nem que jovens são esses e que diversidades representam. Que oportunidades de diálogo vão ser estimuladas e de que forma? E com os jovens que se encontram nas diferentes fronteiras? E com os que estão para além das fronteiras?

Parece-nos claro, olhando à síntese portuguesa do trabalho dos grupos sinodais, que para os cristãos (e, por inerência, para os cristãos jovens) é vital a criação de oportunidades para estabelecerem diálogo franco sobre muitas questões que os preocupam, porque é com a sua vivência, direta ou indireta, que são confrontados todos os dias:

  • Preocupa-os ver uma Igreja pouco inclusiva, bastante mais rápida a condenar do que a acolher realidades com as quais, grande parte das vezes, se recusa dialogar;
  • Preocupa-os assistir à incapacidade de trazer os jovens à Igreja, certos de que o problema pode passar não só pela linguagem utilizada pela hierarquia, demasiado hermética, mas também pelo desinteresse prático em perceber os diferentes desafios com que são confrontados, num mundo substancialmente diferente a cada nova década;
  • Preocupa-os perceber que são ainda muito distintas as possibilidades de participação na vida da Igreja concedidas a homens e a mulheres, bem como o viés institucional que tende a confundir Homem com homem;
  • Inquieta-os perceber que nem sempre a Igreja se coloca ao lado do Humanismo e da Justiça Social;
  • Desassossega-os constatar que o clericalismo é demasiado pesado, pouco ágil e nem sempre suficientemente atento à realidade do mundo, esquecendo-se com frequência que, conforme muitas vezes alerta o Papa, “a realidade é superior à ideia” e o farisaísmo não é uma prática apenas do tempo anterior a Jesus;
  • Incomoda-os uma Igreja mais presa em quatro paredes do que “em saída”.

E poderíamos listar muitos outros sobressaltos que estão na origem da crescente fissura entre a Igreja e o mundo, conforme a referida síntese tão bem expõe.

Sem oportunidades reais para se debruçaram sobre estas questões reveladas pelo caminho sinodal, a JMJ correrá o risco de ser mero fogo de artifício, incapaz de impulsionar a Igreja em Portugal num caminho rejuvenescido de maior intimidade com o Evangelho e de ser anunciadora corajosa do Amor, que se manifesta em maior solidariedade, fraternidade e acolhimento de todos.

E há oportunidades que, por não se repetirem, não se podem perder!

 

Grupo Sinodal Braga-Guimarães

 

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