Sábado dia 26 do mês de julho, enquanto deambulava por uma livraria alfarrabista em Óbidos, deparei-me com uma pérola. Tratava-se de um exemplar da primeira edição portuguesa de O Sangue da Esperança (1979), de Samuel Pisar, a qual eu desconhecia completamente até àquele momento. A obra é prefaciada por Mário Soares, o qual terá conhecido pessoalmente o autor quando do seu exílio em França.
Samuel Pisar, judeu de origem polaca, oferece, nesta obra, um testemunho vivo e inquietante da sua experiência nos campos de extermínio nazis, bem como importantes reflexões acerca dos perigos que o mundo enfrentava, em plena Guerra Fria, quando o livro foi escrito, mas que são facilmente transponíveis para os nossos dias. Em especial as reflexões que faz acerca dos perigos que a democracia enfrentava e enfrenta ainda, baseados na sua experiência sob o domínio nazi e, depois, soviético.

Pouco depois da invasão da Polónia pelo exército nazi, em 1939, com apenas 10 anos, o autor viu-se subitamente atirado para um gueto em Bialystok, sua cidade natal, tendo pouco depois sido separado para sempre da sua família. Primeiro, do pai, que terá morrido em circunstâncias nunca esclarecidas, enquanto levava clandestinamente crianças judias para fora do gueto; depois, da avó e do tio, levados sem qualquer explicação durante uma rusga noturna; por fim, quando o gueto foi finalmente arrasado e todos os seus habitantes ainda vivos foram deportados para os campos, Samuel foi separado da mãe e da irmã: ele, posto na coluna dos homens, embora fosse muito jovem, e elas, na coluna das mulheres e das crianças.
“Ao avançar assim, irremediavelmente sozinho”, escreve o autor, “com o coração despedaçado, tentando engolir as lágrimas, fui invadido por uma onda de revolta contra os homens e contra Deus. Privado de todo o apoio, de todo o reconforto, levantei o punho fechado para o céu, numa imprecação contra o Omnipotente”
A última vez que Samuel “soube” delas foi quando, na primeira paragem do seu comboio de gado, viu que os vagões das mulheres foram separados do resto do comboio, tendo tomado, num entroncamento ferroviário, uma direção diferente, assinalada por um painel de madeira – “Treblinka”. Samuel, por outro lado – descobri-lo-ia 72 horas depois de uma viagem excruciante –, foi enviado para Majdanek, para uma primeira “seleção”, à qual sobreviveria (em parte graças à mãe, diz o autor, que teve o instinto maternal derradeiro, pouco tempo antes da deportação, de o vestir com calças em vez de calções, na esperança de que o filho parecesse mais velho e apto para trabalhar, podendo assim sobreviver). Segundo o próprio, sobreviveria a mais quatro “seleções”, entre Majdanek e Auschwitz, para onde foi depois deportado. Conheceria em primeira mão, como muitos outros infelizes (Primo Levi, por exemplo), o infame Dr. Mengele.
Samuel conta-nos, em primeira mão, a história de uma luta sem quartel pela sobrevivência, obsessiva e permanente, ao longo de três longos anos, em vários campos nazis, baseada num instinto ao qual o autor atribui, em larguíssima medida, o ter sido capaz de sobreviver à violência física e psicológica permanente, à doença, à desumanização, ao frio, à fome, ao desespero, quando muitos outros soçobraram. Em pelo menos duas ocasiões, chegou mesmo a ser selecionado para a morte nas câmaras de gás, tendo-se salvo por um misto de sorte (providência?) e astúcia.
Ele dá-nos um retrato perturbador da perfídia demencial nazi, coincidente de resto com os testemunhos mais conhecidos de um Primo Levi ou de um Ellie Wiesel. Um retrato que é um profundo alerta acerca da violência e do sadismo latentes no coração humano, os quais, nas condições certas, podem novamente despertar. “Exactamente porque vivi um projeto-piloto de destruição da humanidade”, escreve o autor, “sei que o impensável é possível e que é pelo menos tão realista esperar do homem o pior, como esperar dele o melhor.” E noutra parte: “Horror demencial em estado bruto: Treblinka, Majdanek e Auschwitz situavam-se numa categoria à parte: o fim do mundo, o fim da criação.(…) Aceitação, assimilação, conversão: nada era suficiente para se ser poupado pelos torcionários. Pretendia-se pura e simplesmente eliminar-nos da espécie humana. A seus olhos, o nosso sangue era impuro”.
A obra está cheia de importantes reflexões acerca do rumo do mundo que ainda não perderam a validade, as quais vão alternando com o relato das suas experiências. Estas reflexões são avisos. Eis uma que parece prever, já em 1979, a crise contemporânea das democracias:
“Não é preciso que uma nação enlouqueça para que os seus chefes adoptem políticas dementes. A nação que deu ao mundo Gutenberg, Beethoven, Goethe, não tinha entrado em delírio, limitou-se a dar o seu consentimento quando confiou o seu destino nas mãos de Hitler, em eleições democráticas [o itálico é meu]… Dentro de pouco tempo as classes dirigentes das nossas democracias vão talvez depôr também o poder aos pés dos totalitários, numa ânsia inextinguível e irracional de «lei e ordem»”

“Dentro de pouco tempo as classes dirigentes das nossas democracias vão talvez depôr também o poder aos pés dos totalitários, numa ânsia inextinguível e irracional de «lei e ordem»” Foto: Memorial Judaico, Berlim, © Alessio Maffeis / Unsplash
Eis outra, sobre os interesses ocultos que podem minar a paz e ver a guerra como algo desejável:
“A paz? Sei como ela pode ser cada vez mais «indesejável». Porque uma guerra pode resolver finalmente todos os problemas insolúveis e insuportáveis que se foram acumulando. Pode fazer esquecer durante muito tempo as reivindicações, as dívidas e até as desigualdades. As pessoas pensam que depois da guerra se vai conseguir começar tudo de novo; que vai ser possível insuflar uma nova vitalidade no sistema económico, reconstruir e modernizar as cidades sinistradas e as indústrias destruídas; que, após a eliminação das dificuldades do dia-a-dia, uma estrutura diferente proporcionará aos mais empreendedores a possibilidade de começar novas carreiras e de adquirir novas fortunas” (nota minha: pensemos nos interesses que, pouco a pouco, parecem estar a direcionar-nos para uma nova guerra mundial, entre a NATO e a Rússia, com o recurso à diabolização mútua, à propaganda generalizada, ao rearmamento maciço na Europa, que, já agora, diga-se de passagem, está a servir de pretexto a um rearmamento maciço da Alemanha, que já tem preparado o maior e o mais robusto “pacote” de todos: 800 mil milhões de euros!….)
Samuel Pisar viveu para contar a sua história, formar família, ter filhos e tornar-se um conceituado e bem-sucedido advogado nos EUA, onde faleceu naturalmente em 2015. O seu testemunho, como o de muitos outros, deve ser lembrado e meditado em todas as épocas. Porque, como a nossa época mostra em abundância, ninguém está imune à infeção da barbárie[1] – ela desperta onde menos se espera, nas sociedades mais “civilizadas”, como nas menos. A linha entre a civilização e a barbárie é ténue como um fio de teia de aranha. Por isso, O Sangue da Esperança de Samuel Pisar, a par de, por exemplo, Se isto é um homem de Primo Levi, de Noite de Ellie Wiesel, ou de Treblinka de Jean-François Steiner, é um livro a não perder.
[1] Uma citação de Primo Levi que citei num artigo anterior também publicado no 7Margens (https://setemargens.com/um-testemunho-inquietante-e-necessario-de-primo-levi/) reza assim: “Somos filhos dessa Europa onde está Auschwitz: vivemos nesse século em que a ciência se curvou e gerou o código racial e as câmaras de gás. Quem pode ter a certeza de estar imune à infecção?”
Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Enigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.









