O Sermão da Montanha, narrado no Evangelho de Mateus (Mt 5-7), permanece como um dos textos mais marcantes e transformadores da história religiosa e cultural da humanidade. As palavras de Jesus ultrapassaram as fronteiras do cristianismo, inspirando movimentos sociais, pensadores políticos e defensores universais da dignidade humana. Lido hoje à luz dos direitos humanos, o Sermão da Montanha revela uma surpreendente atualidade, propondo uma ética que une a fé e a justiça, a interioridade e a responsabilidade pública.

“Jesus exprime um princípio que antecipa a ética e o ideal que a Declaração Universal dos Direitos Humanos viria a formular séculos depois: o direito de todos a uma vida justa, livre e digna.” Foto: Crianças com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. © Assembleia Geral das Nações Unidas./ Wikimedia Commons
As Bem-aventuranças (Mt 5,3-12) inauguram o Sermão da Montanha com uma inversão profunda de valores. Felizes não são os ricos e poderosos, mas aqueles que reconhecem a própria fragilidade: os pobres em espírito, isto é, os humildes e abertos à graça; os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos e os pacificadores. Esta proclamação desinstala a lógica dominante e coloca no centro da mensagem evangélica os marginalizados e os vulneráveis, não apenas os pobres em termos materiais, mas todos os que vivem com um coração disponível e compassivo, oferecendo-lhes não apenas consolo, mas o reconhecimento pleno da sua dignidade.
Ao afirmar: «Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (Mt 5,6), Jesus exprime um princípio que antecipa a ética e o ideal que a Declaração Universal dos Direitos Humanos viria a formular séculos depois: o direito de todos a uma vida justa, livre e digna.
Outros passos do Sermão da Montanha aprofundam dimensões essenciais da convivência humana. O convite de Jesus a amar os inimigos e a orar por aqueles que perseguem (Mt 5,44) rompe com a lógica da retaliação e inaugura uma ética de reencontro, que antecipa princípios fundamentais da cultura da paz e do direito internacional moderno. Do mesmo modo, o apelo a não acumular tesouros na terra, «onde a traça e a ferrugem os consomem» (Mt 6,19), questiona as sociedades dominadas pela desigualdade e pelo consumismo, interpelando-as a reencontrar uma economia ao serviço das pessoas e do bem comum.
Ao longo da história, o Sermão da Montanha tem sido fonte inesgotável de inspiração para aqueles que se empenharam na defesa da justiça e da dignidade humana. Martin Luther King Jr. recorria frequentemente às palavras do Sermão nos discursos pelos direitos civis, vendo nelas o fundamento espiritual da não‑violência e da igualdade. Também a teologia da libertação, na América Latina, encontrou no Sermão da Montanha uma chave hermenêutica para ler o Evangelho a partir da experiência dos pobres e dos oprimidos. Estes exemplos revelam a força universal do texto: mais do que um código moral cristão, é uma linguagem de compaixão ativa e de esperança que atravessa fronteiras, culturas e a própria religião.

“Martin Luther King Jr. recorria frequentemente às palavras do Sermão nos discursos pelos direitos civis, vendo nelas o fundamento espiritual da não‑violência e da igualdade. Foto: Martin Luther King Jr. durante a Marcha pelos Direitos Humanos em Washington (1963), durante a qual proferiu o seu histórico discurso «Eu tenho um sonho», apelando ao fim do racismo. © Rowland Scherman / U.S. Information Agency. Press and Publications Service. / Wikimedia Commons.
Contudo, a força do Sermão da Montanha não se esgota na sua dimensão inspiradora, também confronta o interior do ser humano. Num mundo em que a fome, a guerra e a exclusão continuam a marcar a vida de milhões, as palavras de Jesus interpelam cada pessoa a um exame de consciência: antes de julgar o próximo, a reconhecer a própria fragilidade; antes de ceder à vingança, a escolher o caminho da compaixão.
Ler o Sermão da Montanha à luz dos direitos humanos é reconhecer que ambos partilham uma convicção fundamental: a vida humana possui um valor intrínseco e inalienável, e toda a sociedade é chamada a organizar-se de modo a proteger e promover essa dignidade. O texto evangélico não pretende substituir as declarações jurídicas modernas, mas oferece-lhes uma profundidade espiritual e antropológica que pode fortalecer o compromisso ético e inspirar uma cultura de solidariedade e de paz.

Jacques Callot, Sermão da Montanha, 1635, gravura, doação de Addie Burr Clark. National Gallery of Art, Washington. / Wikimedia Commons
Num tempo marcado por crises globais, o Sermão da Montanha conserva intacta a sua força de provocação e promessa. Provocação, porque impede que nos acomodemos à indiferença e desafia as consciências a confrontarem-se a si próprias com a injustiça. Promessa, porque anuncia um mundo onde os pobres, os misericordiosos e os pacificadores têm uma luz de esperança. Talvez por isso, dois milénios depois, o Sermão da Montanha continue a ser lido como uma das expressões mais puras e radicais da fé na dignidade humana. Um convite a repensar, pessoal e coletivamente, o que significa viver em justiça, em misericórdia e em paz.
Dália Fernandes é mestre e doutoranda em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora do ensino básico e secundário.










