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O tango é um estilo icónico de dança e música que exalta a intimidade pessoal, e surgiu na região do Rio da Prata, na Argentina e no Uruguai, durante o século XIX. O tango nasceu em bairros pobres de imigrantes, com ritmos híbridos inspirados no “candombe” afro-uruguaio, na “habanera” cubana e na música “milonga” dos fazendeiros. Foto © Gianluca Miscione, CC BY-SA 4.0 , via Wikimedia Commons.

Ensaio

O tango como chave para compreender a sinodalidade do Papa Francisco

| 22/12/2024

 

O presente artigo foi escrito por David M. Lantigua, um teólogo leigo norte-americano, descendente de imigrantes latinos, para evocar o 88º aniversário do Papa Francisco. Atualmente é docente em cursos de licenciatura sobre Deus e a Escravatura nas Américas e Ensino Social Católico, na Universidade de Notre Dame, no estado de Indiana (EUA). Além de ser codiretor do Centro Cushwa para o Estudo do Catolicismo Americano, Lantigua encontra-se a escrever uma monografia sobre as dimensões teológicas e culturais latino-americanas dos ensinamentos sociais do Papa Francisco e as suas implicações para o catolicismo global no século XXI. 

Este seu texto foi originalmente publicado na plataforma The Conversation, em 17 de dezembro último, sob uma licença Creative Commons, e com o título “At 88, Pope Francis dances the tango with the global Catholic Church amid its culture wars” (numa tradução livre, “Aos 88 anos, o Papa Francisco dança o tango com a Igreja Católica mundial no meio das suas guerras culturais”). O título deste texto em português é da responsabilidade do 7MARGENS.

 

O tango é um estilo icónico de dança e música que exalta a intimidade pessoal, e surgiu na região do Rio da Prata, na Argentina e no Uruguai, durante o século XIX. O tango nasceu em bairros pobres de imigrantes, com ritmos híbridos inspirados no “candombe” afro-uruguaio, na “habanera” cubana e na música “milonga” dos fazendeiros. Foto © Gianluca Miscione, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons.

O tango é um estilo icónico de dança e música que exalta a intimidade pessoal, e surgiu na região do Rio da Prata, na Argentina e no Uruguai, durante o século XIX. O tango nasceu em bairros pobres de imigrantes, com ritmos híbridos inspirados no “candombe” afro-uruguaio, na “habanera” cubana e na música “milonga” dos fazendeiros. Foto © Gianluca Miscione, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

 

 

At 88, Pope Francis dances the tango with the global Catholic Church amid its culture wars

David M. Lantigua, University of Notre Dame

Jorge Mario Bergoglio tinha 17 anos quando sentiu pela primeira vez a vocação para ser padre. Aconteceu a 21 de setembro de 1953 — o início da primavera em Buenos Aires — durante uma visita espontânea ao confessionário, ou aquilo a que os católicos chamam o sacramento da reconciliação.

Este ponto de viragem espiritual para o futuro Papa Francisco foi amplamente noticiado. Menos conhecido é o facto de o seu chamamento divino ter acontecido a caminho de um encontro de estudantes que teria envolvido comida, música e dança de tango argentino.

Apesar de ter acabado por faltar ao festival, o tango continua a fazer parte do coração do Papa Francisco. Em 2014, milhares de católicos reuniram-se na Praça de São Pedro para celebrar o aniversário do Papa, a 17 de dezembro, com a famosa dança da sua terra natal. Agora, uma década depois, ele acaba de fazer 88 anos e a olhar para trás. A sua autobiografia — a primeira a vir a público com um Papa em funções — será publicada em janeiro de 2025.

No início deste ano, enquanto fazia investigação em Buenos Aires, dei por mim a beber chá mate com vários membros da Federação dos Círculos de Trabalhadores Católicos. Estes portenhos disseram-me que Francisco é um “teólogo do tango”.

 

Papa Francisco segura um recipiente para beber chá mate, um presente oferecido pela antiga Presidente da Argentina Cristina Fernández de Kirchner. Foto © Casa Rosada (Argentina Presidency of the Nation), CC BY-SA 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0>, via Wikimedia Commons

Papa Francisco segura um recipiente para beber chá mate, um presente oferecido pela antiga Presidente da Argentina Cristina Fernández de Kirchner. Foto © Casa Rosada (Presidência da Argentina), CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

 

Não se trata de notícias de última hora. Não se trata de opiniões infundadas.

Como estudioso do catolicismo latino-americano, percebo porque é que a dança mais famosa da Argentina é uma janela cultural para compreender o primeiro papa do continente.

 

Uma dança mundial do povo

Este estilo icónico de dança e música que exalta a intimidade pessoal surgiu na região do Rio da Prata, na Argentina e no Uruguai, durante o século XIX. O tango nasceu em bairros pobres de imigrantes, com ritmos híbridos inspirados no “candombe” afro-uruguaio, na “habanera” cubana e na música “milonga” dos fazendeiros.

O tango argentino envolve movimentos sincopados, passos que não são mecanicamente ensaiados nem de puro estilo livre. Os parceiros abraçam-se e movem-se com espontaneidade e autocontrolo. Há uma tremenda paixão e musicalidade, com um toque de tristeza. O tempo é tudo na busca da unidade dos parceiros.

 

 

Da mesma forma, Francisco partilhou a sua visão de uma igreja “sinodal”: uma igreja baseada em relações de confiança e solidariedade. Em vez de ser liderada completamente de cima para baixo, uma igreja sinodal é aquela em que o clero e os leigos caminham juntos através das dificuldades, vivendo a sua fé numa comunhão mais profunda com Jesus Cristo.

Em outubro de 2024, o Sínodo sobre Sinodalidade no Vaticano reuniu bispos e outros delegados de todo o mundo, concluindo um processo histórico de três anos. O Sínodo foi uma jornada de escuta, diálogo e consulta com os leigos católicos. As igrejas locais devem ouvir os cristãos “nas trincheiras… as pessoas que estão a lutar”, disse o bispo Daniel Flores do Texas, um dos delegados dos EUA na assembleia, que trabalha com os migrantes na fronteira.

No momento em que a Igreja Católica inicia o seu terceiro milénio, o sínodo simboliza as suas tentativas de discernir o caminho a seguir. Francisco procura o equilíbrio entre tradição e inovação, o local e o universal. Como num tango, a dança da Igreja não pode ser demasiado rígida, agarrando-se firmemente ao passado, nem demasiado solta, conformando-se com o mundo de hoje.

 

O Papa Francisco e participantes da assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade num momento de oração antes do início dos debates. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Francisco desafiou os críticos conservadores que se opõem à reforma, dizendo que estão “fechados dentro de uma caixa dogmática” e não conseguem ver para além do tradicionalismo – uma atitude mortífera na qual a fé perdeu o seu sabor.

No entanto, também advertiu contra uma atitude de “qualquer coisa serve, vai tudo dar ao mesmo” em relação à mudança: dale que va, que todo es igual, nas palavras do cantor de tango Enrique Santos Discépolo. Esta letra, bem conhecida de Francisco desde os seus tempos de bailarino, vem de “Cambalache”, a canção popular de Discépolo de protesto contra o fascismo e o relativismo moral em 1934.

 

Guerras culturais católicas

O tango de Francisco com quase um quinto da população mundial tem sido difícil de conduzir, especialmente no meio das guerras culturais católicas nos Estados Unidos e na Europa. Desde o importante Concílio Vaticano II, na década de 1960, que introduziu grandes reformas, os católicos progressistas e tradicionais têm lutado pelo significado da identidade da sua Igreja, debatendo o peso da tradição ou da inovação.

De um lado estão os conservadores — muitos deles jovens — que criticam os valores seculares da esquerda, que, na sua opinião, atacam as instituições seculares da religião e da família. Do outro estão os liberais — muitos deles idosos — com a missão de adaptar ou dispensar as tradições que consideram desatualizadas.

Ambos os lados da guerra cultural católica parecem acreditar na caricatura de Francisco como uma pessoa de esquerda, que revoluciona a tradição católica romana. Mesmo assim, alguns adeptos progressistas consideram os seus esforços de reforma ineficazes e pouco convictos — especialmente as suas esperanças frustradas de que o pontífice aceitasse a ordenação de diáconos do sexo feminino ou permitisse o clero casado.

Os seus detratores acreditam que o papado de Francisco é um desastre que é melhor esquecer — ou rezam para que seja um “último suspiro” liberal, antes da chegada de um papa mais conservador.

O próprio Francisco, no entanto, não tem mostrado parcialidade para nenhum dos lados, criticando particularmente os críticos da direita, mas sem dar poder às fações progressistas da esquerda. O papa move-se a um ritmo muito diferente das guerras culturais no Ocidente.

 

Construir uma nova ponte

O legado de Francisco dependerá da fé e da piedade popular dos católicos do terceiro milénio, a maioria dos quais é oriunda da América do Sul, África e Ásia. Prevê-se que, em 2050, a Igreja Católica fora da Europa Ocidental represente três quartos da população católica mundial. Francisco não está tão preocupado em construir uma ponte entre os lados beligerantes dos progressistas e dos tradicionalistas, ou dos liberais e dos conservadores, mas entre as diferentes culturas do Norte e do Sul do mundo.

Além disso, o pastor mundial da Igreja está menos interessado na teologia das torres de marfim do que na fé das pessoas nas ruas, onde o tango e a milonga — a sua favorita — nasceram. Os bairros pobres da área metropolitana de Buenos Aires, onde ele se juntou a outros “padres de favela” em oração e comunhão como arcebispo, orientam a sua teologia popular. Nos seus ensinamentos, a piedade das pessoas comuns, quer se trate de procissões públicas dedicadas à Virgem Maria ou da celebração de dias santos, oferece um antídoto transcendente para o hiperindividualismo e o materialismo.

papa francisco durante o rito do lava-pés, na prisão juvenil de Casal del Marmo, em 2013, foto Vatican Media

Papa Francisco durante o rito do lava-pés, na prisão juvenil de Casal del Marmo, em 2013. Foto © Vatican Media.

Francisco tem enfatizado que a Igreja é de e para os pobres, um tema com raízes no Concílio Vaticano II — e mais notoriamente desenvolvido por bispos e teólogos latino-americanos, como Gustavo Gutiérrez, o padre peruano que morreu em outubro de 2024. Seja instituindo um Dia Mundial dos Pobres para a igreja global, organizando encontros mundiais de movimentos populares liderados por trabalhadores ou cortando os salários da Cúria Romana, Francisco, creio eu, vê como missão da igreja sinodal centrar nos pobres as reformas.

Tal como o tango de um “porteño”, a liderança apaixonada de Francisco tem sido simultaneamente disciplinada e efusiva, construindo uma ponte de solidariedade, e não um muro de divisão, entre a Igreja e o mundo para além do Ocidente. É um legado e uma tarefa que perdurará por muito tempo para além do seu papado.

 

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