
“A cidade está em festa. Há palco, gente, dança e restos – restos de tudo, de um olhar, de uma atenção inesperada, de bebida no fundo dos copos largados, e de comida – cabeças de camarão, muitas.” Foto © Lavi Perchik / Unsplash
A cidade está em festa. As luzes banham histéricas o céu anoitecido sobre a dança comum.
Os senhores de fatos, os feitores – os grandes feitores – sobem ao palco, como se de um altar se tratasse, para a habitual gabarolice. E o povo dança entre os aplausos enquanto o artista exibe os dotes, de boca colada ao microfone e acordeão rente ao peito.
Do vazio brota a multidão como o dia que se torna noite.
O vagabundo, habituado ao vazio das noites bem dormidas nas grutas sobre a areia, extasia-se. A cidade está em festa. Há palco, gente, dança e restos – restos de tudo, de um olhar, de uma atenção inesperada, de bebida no fundo dos copos largados, e de comida – cabeças de camarão, muitas.
Deita-se, de bucho cheio ao alto e mãos cruzadas sob a nuca, por debaixo do coreto ouvindo-o ranger ao ritmo das passadas dos bailantes a destoar das notas do acordeão. É bonita a vida nos dias de festa da cidade.
Um corpo doente e vazio a abrigar um olhar esperançoso, em dias de festa os vagabundos não são para ignorar e ele só quer que o hoje se estenda para sempre.
Não lhe cabe o sorriso oco no rosto ossudo – o fundo dos copos é um elixir de graça na cabeça dos homens.
Entretanto o sono, indiferente aos ruídos agudos, e a dormida ali mesmo; ao abrigo de um velho coreto rodeado pela multidão.
O sol de manso vem chegando já a par do silêncio, para lhe queimar a incardidez da pele, que se arrasta pelo areal. A cidade já não está em festa. O vagabundo abandona o sonho para cruzar os braços na espera de qualquer coisa que é nada.
Levanta-se, sacode as calças o mais que pode, lava o rosto à beira-mar, penteia-se com os dedos semi-abertos e segue.
Vai descendo solitário a alameda. A água pública inunda a fluorescência dos verdes relvados. A cidade mascara-se. Ele está sujo na solidão. A cidade esteve em festa e todos lhe deram os parabéns – a ela, à cidade.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; Depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro, onde actualmente estuda Letras. Autora dos livros “Em breve, meu amor” e ” O Homem do trator”.









