“Entre 1946 e 1974, Ruy Cinatti realiza uma experiência nómada, aproximando-se do povo de Timor-Leste e do seu território. A identidade cultural que pretende preservar é ameaçada pela opressão colonial e a decadência do Império Português. Rejeitando esta condição, Ruy Cinatti faz levantamentos etnográficos e pesquisas antropológicas: regista textos orais, fotografa e filma as pessoas e paisagens, documenta rituais e faz pactos de sangue com os chefes tribais, Liurais, de forma a aceder a locais sagrados”.
Este é o ponto de partida para o documentário da autoria de Fernando Vendrell, sobre o poeta autor de Um Cancioneiro Para Timor, que a RTP 2 transmite nesta terça-feira, dia 4, a partir das 22h50. “O Voo do Crocodilo evoca, assim, Ruy Cinatti através de harmonias visuais e sonoras, pleno de complexidade, emotividade e beleza, criando sentidos e rimas.” O poeta, antropólogo e agrónomo português chegou a Timor nos anos 40 e esteve na então colónia portuguesa mais três vezes, tendo uma obra assinalável sobre os costumes e tradições locais, assim como do território.
No prefácio ao livro Ruy Cinatti (1915-1986) Senhor da Chuva, o padre Peter Stilwell, que foi amigo pessoal de Cinatti e é um dos entrevistados no documentário, escreve: “Um aspeto que muito me impressionou, ao percorrer os diários, cartas e poemas de Cinatti sobre Timor, foi ver como o encanto da Natureza e a aproximação das pessoas mobilizaram não só os seus afetos, mas também a sua inteligência e formação de cientista.”
Stilwell, cuja tese de doutoramento em teologia (A Condição Humana em Ruy Cinatti) foi sobre a poesia de Cinatti, acrescenta: “Nos dezoito meses que esteve em Timor no final dos anos 40, percorreu a ilha de lés a lés, a pé, a cavalo e de avião, e fez o que até hoje penso ser o levantamento fitogeográfico mais exaustivo do território. Mas não ficou por aí, nos anos 50 vemo-lo a evoluir para uma perceção fina da relação equilibrada dos timorenses com a Natureza e a entender que ela se transmite como sabedoria acumulada em culturas milenares. Os rituais, os bosques e montanhas sagradas, o espírito dos lugares, encarados como superstição ou animismo pelos europeus, eram afinal mais sábios que a exploração industrial da terra por quem vinha do Ocidente. Para aumentar as áreas de cultivo, derrubavam-se árvores sem atenção ao declive do terreno e com as primeiras chuvas o solo era arrastado montanha abaixo. Ainda nos anos 50, propõe já um desenvolvimento sustentável da agricultura em Timor, e logo evolui para o estudo universitário da antropologia cultural, com trabalhos de campo junto das populações do território. Sonhava uma síntese criativa entre a melhor ciência ocidental e a experiência multisecular dos timorenses, destilada nos mitos e ritos das suas culturas. Pena é que se tenha perdido a tese de doutoramento que trabalhou durante dez anos, mas nunca chegou a apresentar na Universidade de Oxford.”










