
Coro do campo da Graça para a Vigília na Jornada Mundial da Juventude 2023, em Lisboa, dirigido pela maestrina Joana Carneiro (de costas, à direita da imagem). Foto © Bruno Seabra/JMJ 2023.
Nos últimos anos, e numa tendência à escala global, Portugal tem sido palco de uma crescente polarização na sociedade refletida em debates acalorados e divisões profundas nos mais diversos temas sociopolíticos e culturais: a imigração; a igualdade de género; a segurança; a defesa; a identidade (nacional e outras); os valores e direitos; a xenofobia; a homofobia; a misoginia; entre outros.
Com 80% da população portuguesa a declarar-se católica (Censos 2021), a transposição das dissonâncias referidas para o panorama religioso católico é incontornável, qual reflexo de uma comunidade que, por via da sua religiosidade, se debruça, ou não, sobre os tópicos hodiernos mais fraturantes. Um dos temas que tem vindo a ser discutido pela Igreja Católica, embora com aparente timidez, é o papel das mulheres. Em outubro de 2023, no Sínodo da Igreja Católica, foi sublinhada a urgência de garantir que as mulheres possam estar mais envolvidas nos processos de decisão e “assumir papéis de responsabilidade na pastoral e no ministério”. Há poucos dias, no âmbito da segunda fase da reforma sinodal, o Vaticano anunciou a preparação de um documento que pretende dar eco dessa urgência e que deverá ser tornado público no sínodo dos bispos, em outubro próximo [ver 7MARGENS].
Curiosamente, a Igreja Católica, ao afirmar-se como Santa Madre Igreja, instituiu-se, desde a origem, como entidade feminina, maternal, protetora, exemplo de acolhimento, qual mãe altruísta e abnegada que tudo faz pelos seus filhos… e filhas. A veneração da Virgem Maria, mãe de Deus e da Humanidade, reforça a influência feminina na estrutura teológico-pastoral. Todavia, a realidade traduz o enraizamento profundo de um sistema patriarcal, tradicional e hierárquico que tem limitado o papel das mulheres, relegando-as a funções menores, com poucas oportunidades de liderança ou de participação ativa na tomada de decisões. Ainda assim, a vida das comunidades, paroquiais e religiosas, e os ministérios laicais, na sua grande maioria, em Portugal, são garantidos por mulheres, numa clara inevitabilidade de adaptação da prática religiosa às mudanças sociais e culturais do século XXI.
Na música, um dos ministérios mais estruturantes da liturgia católica, este paradigma mantém-se, embora com nuances particulares: salvo algumas (felizmente, cada vez mais) exceções, o ministério do canto, domingo a domingo, é, em Portugal, sustentado maioritariamente por mulheres e a regência dos coros é, preferencialmente, entregue a homens. A maioria dos alunos das escolas de música e de ministérios, que algumas dioceses se empenham (e bem) em manter, são mulheres. Em contrapartida, o corpo docente dessas mesmas escolas é, predominantemente, masculino.
No campo da composição de reportório musical, é necessário fazer um esforço hercúleo para encontrar compositoras referenciadas em publicações e em sítios em linha dedicados à publicação de música para a liturgia. Encontram-se algumas composições, no feminino, em livros de propostas de reportório adstrito ao universo infantojuvenil. E pouco mais. Qualidade musical à parte, na análise da lista dos compositores masculinos constantes nas fontes acima referidas e respetivos percursos, verifica-se o domínio de membros do clero e de leigos com ligação a instituições religiosas. Nesta ligação, perfeitamente normal, entre instituições da Igreja e compositores leigos, não se vislumbra a razão da ausência de membros do sexo feminino…
Segundo a Direção Geral do Ensino Superior, 56% dos alunos de Mestrado em Música, em Portugal, em 2024, são mulheres. Por isso, surgem questões inevitáveis: destas mulheres, nenhuma consegue compor para a liturgia? Estas mulheres não sabem como dirigir um coro? Será que lhes deram oportunidade para tal? Ou será que os homens, independentemente do nível dos seus conhecimentos litúrgico-musicais, têm capacidades e sensibilidade inatas que as mulheres nunca poderão almejar?
Em pleno século XXI, numa sociedade em constante mutação, com o declínio do número católicos ‘praticantes’ sobretudo de jovens, urge repensar os papéis de todos os intervenientes na comunidade católica. Citando Maria João Sande Lemos, recentemente falecida, “as mulheres são a pedra angular do funcionamento da Igreja” e, se “os jovens não se reveem [nela], como é que as raparigas e as mulheres se vão rever?”, até porque esta desigualdade “é ao arrepio dos fundamentos da Igreja” porque “as primeiras comunidades eram lideradas por mulheres, era nas casas delas que se faziam as coisas”.
A busca da igualdade crescente entre homens e mulheres, na Igreja em geral e na música, em particular, talvez passe, afinal, por pequenos passos de impacto exponencial e motivador. E até talvez se vislumbrem sinais de esperança. As mulheres representam, hoje, perto de 25% do número de funcionários do Vaticano, contra 17% em 2010. Registe-se, no entanto, que neste crescimento de representação feminina, ainda são poucas as chamadas a ocupar posições mais qualificadas. Em Portugal, a equipa musical da Jornada Mundial da Juventude 2023 foi coordenada por mulheres, com outra mulher na direção do coro e orquestra, não obstante o domínio masculino no que concerne às composições musicais.
Esperemos que, num futuro breve, todas e todos possam e devam ser chamados, sem pressão de quotas ou condescendências lobistas, e que as mulheres que se queiram aventurar a compor não demorem séculos, à semelhança de Santa Hildegarda de Bingen, a ver a sua obra aceite. Afinal de contas, sempre houve, desde as fímbrias do tempo, Homens e Mulheres de boa vontade para servir e fazer comunidade com o melhor de si mesmos.
Paula Santos Pereira é mestre e doutoranda em Ciências Musicais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e investigadora na área da Música Sacra Popular. É docente na área da Música e diretora de um coro litúrgico. Colaborou, a título permanente, no Serviço de Música Sacra do Santuário de Fátima como maestrina e solista.










