
O Papa Francisco, acompanhado da Presidente da Hungria, Katalin Novák, em Budapeste, no primeiro dia da sua visita ao país. Foto © Vatican Media
“Onde estão os esforços criativos de paz?”, interrogou, a propósito da guerra na Ucrânia, esta sexta-feira, 28 de abril, o Papa Francisco, perante cerca de duas centenas de representantes da vida política e diplomática e da sociedade civil, no primeiro dia da sua visita à Hungria, que decorre sob o lema da promoção da paz.
O Papa começou por recordar acontecimentos traumáticos da história húngara, como foram os massacres e a deportação de muitas dezenas de milhares de habitantes, incluindo os de origem judaica, durante a II Guerra Mundial, e o esmagamento violento da contestação à política soviética, por parte dos tanques de Moscovo, em 1956.
Hoje, disse o líder da Igreja Católica, fruto de muita resiliência e empenho na reconstrução, “Budapeste é uma das cidades europeias com maior percentagem de população judaica, o centro dum país que conhece o valor da liberdade e que, depois de ter pago um alto preço às ditaduras, traz consigo a missão de guardar o tesouro da democracia e o sonho da paz”.
Porém, acrescentou, “a paz não virá jamais da prossecução dos próprios interesses estratégicos, mas de políticas capazes de atender ao conjunto, ao desenvolvimento de todos, com atenção às pessoas, aos pobres e ao amanhã; e não apenas ao poder, aos lucros e às oportunidades do presente”.
Em resposta, refere o site Vatican News, a Presidente anfitriã, Katalin Novák, considerou a visita papal um kairos, “a hora e o lugar certos para o encontro, para tocar os sinos, para proclamar uma paz justa”. Referindo o acolhimento que o país fez a mais de um milhão de refugiados da guerra na Ucrânia, Novák acrescentou: “Nós, húngaros, quase podemos tocar com as mãos a devastadora realidade da guerra.”
No discurso na residência presidencial Francisco alertou ainda para os perigos dos “populismos autorreferenciais” e para as “colonizações ideológicas” traduzidas, segundo ele, na “cultura do género” ou no direito ao aborto, matéria que sintoniza com as políticas promovidas pelo Governo húngaro liderado por Viktor Órban.
Europa: não rejeitar, mas acolher os imigrantes e refugiados

O Papa à chegada ao palácio presidencial, onde falou perante diplomatas e políticos: “Onde estão os esforços criativos pela paz?” Foto © Vatican Media
A terminar e referindo-se a Santo Estêvão, um dos vários santos que o país deu ao mundo, Francisco recordou o conselho que ele deu a seu filho: “Recomendo-te que acolhas benignamente os estrangeiros e os honres, de modo que prefiram mais ficar junto de ti do que noutro lugar.”
“Vendo Cristo presente em tantos irmãos e irmãs desesperados que fogem de conflitos, pobreza e alterações climáticas, é preciso enfrentar o problema sem desculpas e sem demora. É tema que deve ser enfrentado juntos, em comunidade, até porque, no contexto em que vivemos, mais cedo ou mais tarde, as consequências repercutir-se-ão sobre todos”, alertou Francisco, para encerrar com uma leitura mais política, neste tema divergente da que é feita pelo governo magiar.
“É urgente, como Europa, trabalhar em vias seguras e legais, em mecanismos partilhados face a um desafio epocal que não se pode travar pela rejeição, mas antes pelo acolhimento, para preparar um futuro que, se não for de todos em conjunto, não existirá. Isto convoca, em primeira linha, aqueles que seguem Jesus e que querem imitar o exemplo das testemunhas do Evangelho.”
Já ao fim do dia, na concatedral de Santo Estêvão, repleta de fiéis, o bispo de Roma teve um encontro com bispos, padres, diáconos, consagrados/as, seminaristas e agentes de pastoral.
Entre o “derrotismo catastrófico” e o “conformismo mundano”

A Presidente da Hungria, Katalin Novák, com o Papa Francisco: “a hora e o lugar certos para o encontro, para tocar os sinos, para proclamar uma paz justa”. Foto © Vatican Media
Depois de ter escutado quatro testemunhos, Francisco começou por dizer que a Igreja só poderá enfrentar os desafios deste tempo se “Cristo for o seu futuro”, “o Alfa e o Ómega”. Perante “as tempestades que às vezes se abatem sobre este nosso mundo, as rápidas e contínuas mudanças da sociedade e a própria crise de fé do Ocidente”, os cristãos “nem se podem resignar nem perder de vista a centralidade da Páscoa”, disse.
O Papa aludiu, neste contexto, a duas tentações das quais a Igreja se deve sempre defender. A primeira tentação designou-a ele “uma leitura catastrófica da história atual”. É “alimentada pelo derrotismo de quem repete que tudo está perdido, que já não existem os valores de outrora, que não se sabe onde iremos parar”.
A segunda tentação ou risco é, para Francisco, “a leitura ingénua do próprio tempo, que, diversamente, se baseia na comodidade do conformismo, fazendo-nos crer que, no fundo, está tudo bem, que o mundo mudou e é preciso adequar-se a ele”.
Contra o “derrotismo catastrófico” e o “conformismo mundano”, resumiu, “o Evangelho dá-nos olhos novos, dá-nos a graça do discernimento para nos embrenharmos no nosso tempo com uma atitude acolhedora, mas também com espírito profético”.
A cadeira de rodas, um “mini-papamóvel”
Na tarde desta primeira etapa da visita à Hungria, ocorreu uma situação inédita que se prolongou por algum tempo, deixando seguramente os escassos agentes de segurança presentes em efervescência.
Logo no início, quando se encontrava já no interior da catedral, Francisco saudou muitos dos participantes a partir da cadeira de rodas, antes de ser levado para o ponto em que presidiu à sessão.
Mas foi sobretudo depois de ter abandonado o templo, perante centenas ou mesmo milhares de pessoas que não tinham conseguido entrar e seguiram o encontro através de ecrãs gigantes, que Francisco deu indicações para ser conduzido pelo meio das pessoas, sem que houvesse baias de proteção e zonas delimitadas de circulação.
Apesar de não ter sido programada esta aproximação às pessoas, ele foi avançando na sua cadeira de rodas, com ar satisfeito, trocou impressões com vários grupos, fez algumas selfies e saudou os que via mais ao longe.
Não se registou qualquer incidente, até que o Papa se aproximou do carro que o aguardava, já ao fundo da praça. Como dizia uma nota do Il Sismografo, Francisco “deu uma volta no meio da multidão numa cadeira de rodas, transformando-a, por momentos, num mini papamóvel”.









