No passado domingo, 22, celebrou-se a missa do funeral do padre José Martins Júnior, que morrera na Ribeira Seca (Machico, Madeira), no último dia 12 de Junho. O 7MARGENS publica a seguir, com título da nossa responsabilidade, o depoimento do Grupo de Jovens da Ribeira Seca, lido no final da missa por Margarida Assunção, depois de termos publicado o texto integral da homilia do padre José Luís Rodrigues.
Senhor Padre,
Não é fácil encontrar as palavras certas para quem sempre soube usá-las com verdade. A sua partida chegou como as ideias profundas que nos deixam suspensos no tempo: não se impõem, mas transformam-se – e permanecem. E nós, agora, partilhamos este silêncio. Convergimos nele.
Foi sempre mais do que os títulos que a vida lhe foi confiando. Era o gesto firme de quem ensinava por convicção. A escuta atenta que sabia acolher sem ceder. O olhar que via mais além – nas intenções, nas palavras, nos gestos – porque acreditava que a verdade liberta, educa e dignifica.
Durante anos, vimos em si uma força discreta, mas intensa. Não era apenas o que dizia – era a forma como vivia o que dizia. E vivia-o com carácter. Com discernimento, sim, mas também com brio. Com exigência, mas também com serenidade. E agora compreendemos melhor aquilo que tantas vezes nos quis transmitir: que o exemplo pesa mais do que a eloquência, e que viver com coerência é, por si só, uma forma de fé.
Era a música que ecoava para lá da nota. Era o texto que deixava pensamento. Era a presença que moldava, mesmo em silêncio. Muitos de nós crescemos ao seu lado – nos bancos, nos palcos, nas conversas, nos ensaios — e aprendemos que aprender é, acima de tudo, um ato de escuta. E que escutar é já um gesto de respeito pelo outro e pelo mundo.
Falava-nos do peso das palavras, da dignidade dos gestos, da postura com que se entra numa sala, se levanta uma cadeira, se olha nos olhos. Pequenos atos que, hoje, ganham uma dimensão nova. Porque entendemos, agora mais do que nunca, que educar é ensinar a estar. E que estar bem no mundo é já uma forma de o transformar.
Entre as muitas heranças que nos deixa, há uma que ecoará para sempre entre nós: a poesia com que soube nomear o invisível. Lembramos, com emoção, um dos seus versos, escrito com mãos de mestre e coração de artesão:
Arranca da montanha o Lenhador
A tábua verde e rude sem feição
Que tanto dá para o seio de tambor
Como dará prá nau do meu caixão.
Aqui, como tantas vezes, transformou o que era bruto em harmonia. E mostrou-nos que o que vibra – mesmo feito de madeira – pode ter alma. Foi isso que sempre nos ensinou: que também nós somos matéria moldável, que vibra quando tocada com verdade.
Senhor Padre, hoje estamos aqui com saudade, sim, mas também com um profundo reconhecimento. Porque nos tocou sem barulho, nos formou sem nos prender, e nos amou – com a rara capacidade de reconhecer a dignidade em cada pessoa e de a despertar em nós.
A sua ausência não lhe assenta – mas até ela, agora, é ensinamento. Porque quem educa com o coração nunca parte por inteiro. Fica no que se aprendeu. Fica no que se tornou exemplo. Fica em cada gesto digno, em cada palavra bem colocada, em cada escolha feita com consciência.
Por isso, prometemos continuar. Não como antes – mas como sempre nos ensinou: com sentido. Com sentido… e com consenso.










