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Os livros na nossa vida

| 10/07/2025

 

“Siempre imaginé que el Paraíso sería algún tipo de biblioteca”
(Jorge Luís Borges citado por Ruy Ventura no 7Margens)

 

Sentada no metro reparo em algo cada vez mais raro: um jovem, no banco oposto ao meu, altamente concentrado lê um livro – e sem precisar de fones nos ouvidos…  Olhei-o intensamente, mas não levantou sequer os olhos da sua leitura. Nem consegui ler o título do livro. Gostei. Um precioso livro! Tive quase o impulso de lhe dizer alguma coisa mas ganhou o pudor de interromper. Lindo!

Desde muito pequeninos a nossa Mãe – leitora voraz – nos pôs livros nas mãos. Um privilégio. Aprendi a ler com a minha irmã mais velha e com uma empregada antiga que, desde os quatro anos, me foi orientando de modo mais sistemático usando a Cartilha João de Deus. Tal como a minha Mãe tornei-me uma leitora… voraz. Ela usava uma pedagogia muito interessante: chamava os sete filhos – incluindo a que ainda só gatinhava e se instalava entre as nossas pernas – sentava-nos no chão à sua volta e lia-nos, lia-nos alto. A certa altura interrompia a leitura, num momento entusiasmante, pousava o livro argumentando que continuava no dia seguinte porque tinha “coisas a fazer” … A minha irmã mais velha e eu que já soletrávamos qualquer coisa, de cabeças inclinadas sobre o livro, continuávamos a leitura em alta voz e os meus irmãos, literalmente pendurados em nós, escutavam atentamente. Uma excelente pedagogia da leitura!

Uma sobrinha minha, quando era jovem mãe intuitivamente sentava ao seu colo virada para a frente a filha de poucos meses (três ou quatro meses) e ia apontando as imagens num livro de cartão. Pelos três ou quatro anos essa sobrinha-neta tinha numa prateleira da estante da sala um espaço reservado aos “seus” livros (não no quarto). Quando eu chegava para fazer baby-sitting ela agarrava a minha mão, levava-me ao seu espaço na estante, impecavelmente arrumado, e afirmava perentoriamente: “Vais-me ler estes livros todos, todos!” Ela já tinha entendido que os livros não eram propriamente brinquedos, esses estavam guardados no seu quarto, mais ou menos arrumados. De grande leitora tornou-se uma aluna universitária com o hábito sistemático da leitura e …uma excelente estudante. Não quero propriamente ensinar estas “pedagogias” a que tenho estado atenta, mas sublinhar que o contacto com os livros e os hábitos de leitura começam nas idades mais precoces. Tenho um pequeno vídeo de um sobrinho-neto de seis anos deitado na cama com a irmã de dois meses (!) e um livro de cartão dado por mim à nova sobrinha-neta, iniciando a bebé à leitura: abria o livro na frente dela, explicava as imagens em voz alta orientando a cabecita da bebé para o livro. Os pais tiveram a delicadeza de me enviar. Uma ternura.

Parque na Corunha. Livros

“Uma sobrinha minha, quando era jovem mãe intuitivamente sentava ao seu colo virada para a frente a filha de poucos meses (três ou quatro meses) e ia apontando as imagens num livro de cartão.” Foto: Parque na Corunha: monumento aos livros. © Teresa Vasconcelos

Os meus sobrinhos-netos e, bem antes, os meus sobrinhos, “queixam-se/queixavam-se” de eu estar sempre a dar livros, mas continuo a pensar que fazia muito bem: as crianças são bombardeadas com tantos brinquedos, tantos objetos, tantas “coisas”! Aos “maiores” – amigos ou família – faço o mesmo, ofereço livros, com o cuidado de que haja um talão de troca. Hoje, em que vou procurando desligar-me de tanta coisa, vejo-me a oferecer um livro da minha estante a alguém que venha cá a casa. Só de alguns, essenciais, não prescindo. Em primeiro lugar a Bíblia – o Livro dos Livros -, toda a Bíblia uma biblioteca. Depois os Lusíadas, a Ilíada e a Odisseia, Guerra e Paz, Os Irmãos Karamásof. A um nível muito especial procuro “mastigar” a Bíblia (engoli-la?) e não me canso dos Salmos, do Cântico dos Cânticos, dos Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos. Ao jeito de José Luis Borges, espero que “no Paraíso haja uma grande biblioteca”. Contento-me para já com pequenas bibliotecas, uma delas a minha, bem doméstica…

“Os livros podem ser “perigosos” porque nos ajudam a pensar. Há 50 anos ainda tínhamos censura ao que se publicava em livros ou jornais. Tudo passava pelo “lápis azul do silêncio” (Ana Aranha, 2023, Guerra e Paz)” Foto: Parque na Corunha: monumento aos livros (placa). © Teresa Vasconcelos

Sim, sempre amei livros. Delicio-me a contemplar as estantes de livros da minha casa. Descanso ao entrar em livrarias para ver o que há de novo; descontraio quando estou em bibliotecas, o ritmo torna-se logo mais lento. Gosto de cafés sossegados, esplanadas ou mesmo bancos de jardim onde possa estar tempos não interrompidos a ler. Prefiro viajar de comboio porque consigo ler… enquanto olho a paisagem. Adorava as férias grandes porque podia ler um livro à noite na cama, no maravilhoso silêncio de uma grande família a dormir, sem ninguém me lembrar: “Apaga a luz que é tarde”. Apagava a luz quando terminava o livro e ficava ainda a saboreá-lo às escuras porque não conseguia adormecer – podia depois dormir manhã fora. A minha compreensiva Mãe já sabia a razão: “até que horas estiveste a ler?” Assim, “Os Desastres de Sofia” (com quem tanto me identificava), “O Pequeno Lorde” (Biblioteca Azul), “Florence Nightingale”, foram personagens da minha infância; na adolescência “Tom Sawyer”, “Hukleberry Finn”, “Mulherzinhas” de Louise May Alcott ( ai a Jo…). O cheiro do livro, as folhas acariciadas do livro, o livro preguiçosamente pousado na mesa de cabeceira. Há alguns anos ainda se abriam as páginas de um livro com uma faca abre-cartas ou um canivete …um ritual magnífico para poder ter acesso ao tesouro lá dentro escondido – lembro-me de descobrir assim a poesia e os contos de Miguel Torga.

Livros “com bicho”, alguém se lembra? Que desgosto ver livros antigos literalmente “trespassados” por caminhos sinuosos perpetrados pelo danado bicho. Para mim são predadores. Dava vontade de chorar, não é?

“Entre as mais de 950 mil espécies de insetos que existem, pelo menos 70 vivem nos arquivos, bibliotecas e museus, alimentando-se de papel, cola, pergaminho, cabedal ou tecido e madeira das encadernações. A ameaça que estes insetos – os bibliófagos – representam para os livros, manuscritos, fotografias e mapas está na base de uma exposição que hoje se inaugura no Arquivo Municipal de Lagoa, no Algarve. “Queríamos chamar a atenção para a importância de combater os insetos bibliófagos, que são muitas vezes os responsáveis pela destruição de parte importante do nosso espólio cultural”, disse ao PÚBLICO Bárbara Ribeiro, 36 anos (Ypsilon-Público, 9 de setembro de 2003).

Experimentei, no dia do Apagão, saborear o sossego da leitura não interrompida pelo telemóvel (ficou sem bateria!) ou pela televisão… à luz de uma vela li enquanto pude… depois veio o desejado “presente” da luz. Muitas coisas se têm dito acerca do apagão mas gostei do que uma jornalista do Flash afirmou: “Os livros não ficam sem bateria” (Rute Lourenço).

Os livros podem ser “perigosos” porque nos ajudam a pensar. Há 50 anos ainda tínhamos censura ao que se publicava em livros ou jornais. Tudo passava pelo “lápis azul do silêncio” (Ana Aranha, 2023, Guerra e Paz):

Em 1943, o Ministério do Interior emitiu um decreto-lei que passava o ónus da responsabilidade para os editores e distribuidores, assim como previa a possibilidade da existência de “delegados do Governo” nas suas instalações [gráficas e livrarias].

“(…) tendo em vista os inconvenientes que para o próprio comércio de livros resultariam da prévia leitura oficial — necessariamente demorada — de todas as obras, haverá que continuar e exigir dos que intervêm na sua impressão, distribuição e venda a sua parte da responsabilidade.”

“Art. 2.º Sempre que se publique, edite, reedite, venda ou distribua qualquer escrito lesivo dos princípios fundamentais da organização da sociedade ou prejudicial à defesa dos fins superiores do Estado poderá o Ministro do Interior, (…) ordenar que junto das empresas responsáveis, e à custa destas, funcionem delegados do Governo (…)”

(Decreto-lei n.º 33.015 (Diário do Governo n.º 185/1943, Série I de 1943-08-30)

Tempos houve em que os livros foram objetos de Autos de Fé. A Inquisição proibiu Teresa de Ávila – uma devoradora de livros de cavalaria, depois de “perigosos” textos dos místicos – controlando as suas leituras e as  das suas monjas através dos “confessores”. Teresa não pretendia o saber apenas para si e encorajava as irmãs a fazerem leituras piedosas. Orientava as prioresas das diferentes comunidades no tipo de leituras que deviam aconselhar às irmãs, referindo-se ao místico português Frei Pedro de Alcântara: “A prioresa tenha o cuidado de que haja bons livros à disposição das monjas, em especial, (…) os de Frei Luís de Granada e do Padre Frei Pedro de Alcântara; porque, em parte, é tão necessário este alimento para a alma, como a comida para o corpo” (Const. II, p. 6). Quando a Inquisição limitou as leituras que se podiam fazer, nomeadamente o acesso aos escritos dos místicos, Teresa escreve: “Nosso Senhor disse-me: não te aflijas, dou-te um livro vivo. (…) Sua Majestade foi para mim o livro verdadeiro” (Vida). In: Ávila, T. (2000). Obras Completas. Edições Carmelo.

Bons livros como “alimento para a alma”. 23 de Abril foi o Dia Internacional do Livro. Retomo Jorge Luís Borges citado por Ruy Ventura: “Siempre imaginé que el Paraíso sería algún tipo de biblioteca”. Será, Jorge Luís? Já pudeste constatar o teu sonho?

Coro Gulbenkian

Coro Gulbenkian: “Vésperas de Rachmaninov” . Foto © FCG

No dia 14 de maio último fui escutar “As Vésperas de Rachmaninoff” (Coro da Gulbenkian, sublime!). Ainda com este texto na cabeça perguntei-me ao regressar a casa: Que faria eu sem música? Ou sem livros? Lembrei uma confidência da mística Etty Hillesum que escreveu no campo de concentração – à semelhança de Teresa de Ávila -: “Uma pessoa também deve conseguir passar sem livros e sem nada. Há-de haver sempre uma nesga de céu visível em alguma parte e tanto espaço em redor, que as minhas mãos sempre se poderão juntar em oração” (2008, Diário, p. 256).

Serei mesmo capaz de passar sem livros?

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal. t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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