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autores - Carlos Lemos

Os sapatos de Francisco

| 10/04/2025

 

O filme do Conclave não mostrou o que aconteceu assim que o fumo branco levantou voo da fornalha ardente onde em rubras labaredas ardiam os cinéreos votos e, evolando-se pela chaminé, espreitou pela cimeira abertura, esvoaçando, por fim livremente, sobre o telhado da Capela Sistina. Já o espírito da tradição fazia ressoar os sinos que anunciavam, urbi et orbi, dos seus campanários: habemus papam, habemus papam! Lá em baixo, na praça de S. Pedro, a multidão rompia em ovações, impaciente em descobrir por quem os sinos dobravam. Mas não davam descanso ao bronze ofegante os badalos sonoros, oscilando sempre, pendulares: os sinos vibravam e volteavam, ressoando tonitruantes.

Crescia o suspense à medida que os pesados reposteiros tardavam em descerrar, sugerindo algum imprevisto no cumprimento do secular protocolo. Logo que as cortinas púrpura se afastaram, já de sapatos pretos atravessava o vestíbulo e, agora vestido de branco, o cardeal eleito avançava até ao balcão. Aparentemente, esquecera-se da mozeta escarlate, a estola púrpura bordada a ouro jazia nos braços do mestre-de-cerimónias. Não fulgia anel dourado no aceno aos circunstantes. Dos janelões latereis, os cardeais, incrédulos, estudavam os gestos do debutante, receosos da humilde ousadia. A tradição já não é o que era e Francisco decidiu romper com a tradição, inaugurando um novo estilo de maior sobriedade e atenção ao detalhe. Para vinho novo, odres novos e os lavores dos paramentos surgiam, a seus olhos, redundantes e ultrapassados.

Na véspera do conclave, um conhecido periódico americano dava conta de que, acaso fosse eleito o cardeal Bergoglio, a Igreja diria adeus à pompa e circunstância de que se revestiam os seus dignatários. Confirmada a eleição do cardial argentino, via-se assim cumprido o vaticínio da imprensa. Outras notícias tiveram a mesma confirmação. Era falso, por exemplo, que o seu predecessor usasse Prada: o encarnado dos sapatos não era moda, mas tradição. Fazia parte da indumentária pontifícia desde tempos imemoriais. É certo que os célebres sapatos vermelhos eram agora fabricados na banca de trabalho de uma rua estreita, a partir de retalhos de couro e bocados de fio, já sem a fivela de ouro ou prata que deixava os santos tão incomodados.

Sapatos Papa

“O Papa dos sapatos pretos rezou, então, pelo Papa dos sapatos vermelhos e foi de sapatos pretos que deu início ao seu pontificado.” Foto Vatican News/Montagem 7MARGENS

 

Até que, irmãos e irmãs, boa noite, os eminentíssimos e reverendíssimos cardeais foram buscar o bispo de Roma quase ao fim do mundo, mas estamos aqui. Depois do conclave, retratado no filme com estudado detalhe, assim que os cardeais abandonaram a capela Sistina, ficaram esquecidos, a um canto da sala, os sapatos de couro vermelho que não encontraram, no novo pontífice, um pé à medida. Ao calçar as sandálias do pescador, não quis descalçar os sapatos pretos de cardeal, de bispo, de pároco, os seus sapatos pretos de homem comum, de peregrino, de pastor, habituados ao chão, ao concreto, ao pó dos caminhos. Os caminhos de Francisco iam dar a Roma e era nos mesmos sapatos pretos que queria palmilhar os caminhos de Roma, as ruas da cidade e do mundo. O Papa dos sapatos pretos rezou, então, pelo Papa dos sapatos vermelhos e foi de sapatos pretos que deu início ao seu pontificado.

Os sapatos de Francisco foram ao encontro dos que andam descalços nas periferias da existência, na pobreza, na miséria, na solidão. Na sua simplicidade, fazem lembrar os sapatos pintados por Van Gogh. O pintor, depois de os ter comprado numa feira, considerou que se encontravam demasiado limpos. Foi num dia chuvoso, ao escutar o clamor da terra, que calçou os sapatos, imprimindo neles a tensão dos movimentos, o peso da sua existência inquieta, o cansaço do seu andar apressado. Depois de sujos na terra das veredas e lavados na chuva dos aguaceiros, envernizados pelos elementos naturais, o artista decidiu pintá-los. São os seus vincos, as suas costuras que lhes conferem uma fisionomia, uma expressão, uma identidade tão reconhecível, que quase podemos falar deles como retratos.

Sapatos humanos não podem estar limpos: apenas encontram o seu propósito nas ruas, nas vielas, nos trilhos, nas sendas, nos outeiros. É na berma dos caminhos onde encontramos, caídos, os últimos. Estar nos sapatos de alguém significa colocar-se no lugar do outro, do camponês, do pintor, do pobre, do peregrino. Van Gogh era um homem das periferias, como Francisco. Sabia que, para alguém crescer, tem de lançar os sapatos na terra, como raízes, assim como o grão de trigo que, ao cair na terra, se não morrer, não dará fruto. Van Gogh manifestava a sua religiosidade encarnando em substância pictórica o seu espírito criativo, à semelhança de um milagre.

O filósofo Martin Heidegger encontrou o quadro de Van Gogh numa exposição de pintura, anos mais tarde. Entre molduras de campos de trigo, cadeiras e retratos, o impressionismo dos sapatos em pinceladas repetidas, entre as espessas camadas de tinta, deixava entrever a história pessoal do pintor: “a dificuldade e o cansaço dos passos, a solidão do caminho do campo, o calado temor pela segurança do pão, a silenciosa alegria de vencer a miséria, a angústia do nascimento iminente e o tremor ante a ameaça da morte”. No século XX, esses sapatos vazios seriam o prenúncio de tempos sombrios. Dos abismos da deportação e do extermínio, uma multidão clamaria por esses sapatos, diante de campos bélicos ainda por atravessar.

A fragilidade humana devia ser suficiente para nos tornar mais lúcidos, como recordava o Papa Francisco. É necessário desarmar a terra que, nas palavras do poeta Gerard Hopkins, “está descalça, o pé não consegue sentir, sendo calçado”. Durante o internamento de Francisco, os seus sapatos pretos não puderam percorrer os corredores marmóreos do Vaticano. Aguardaram fielmente a sua recuperação, recordando, com saudade, as viagens que empreenderam juntos. Assim que recebeu alta hospitalar, Francisco teve a felicidade de contemplar da varanda o amarelo das flores, que nas telas de Van Gogh assumiu as tonalidades mais sublimes. Enquanto marcham as botas dos soldados, os sapatos pretos retomam o caminho da paz.

 

Carlos Lemos é médico.

 

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