Lembrando António Samelo, padre-pastor na Igreja que está em Coimbra (1954-2024)

“Padre António Samelo, um padre-profeta-pastor da Igreja de Jesus, confessado e vivido como Cristo. Um cristão, primeiro, de tradição católica, depois, mas de um ecumenismo amplo de humanidade feita de carne.” Foto: Praia do Palheirão, 10 de julho de 2005. © Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII.
Ponto de partida
A esperança cristã, com raiz amorosa e razoavelmente fundada na ressurreição de Jesus, não ilude (apenas – e é tanto – ameniza, dá sentido) a lancinante experiência do sofrimento humano causado pela separação definitiva. Permitir que essa experiência de morte dos que consideramos ‘nossos’ seja vivida sem que a nossa inteligência consequente se interrogue, esvaziaria num nada inconsequente esse momento. Assumir o inverso é o que mobiliza este texto, tecido de sensibilidades várias.
Ele parte e fala do António Samelo, um padre-profeta-pastor da Igreja de Jesus, confessado e vivido como Cristo. Um cristão, primeiro, de tradição católica, depois, mas de um ecumenismo amplo de humanidade feita de carne. Dono de uma gargalhada única, portador de uma bonomia que não era vazia, que não se arreganhava só por artificialismos ou porque sim, antes se fazia empatia e afeto, para depois nos soltar palavras complicadas e nos levar pelos caminhos intrincados de ser Igreja em carne e osso, até aos ossos.
Radica nesse homem e pastor concreto a motivação radical deste texto, mas para dele e com ele partir à descoberta do perfil de padre de/para a Igreja que as culturas contemporâneas reclamam, sem dizer o caminho, mas percorrendo-o, deixando perguntas, dúvidas, inquietações. Como ele ensinava. Por isso, sem ter de o dizer, este texto caminha pelas encruzilhadas sempre surpreendentes das paróquias, do MCE (Movimento Católico de Estudantes), da Comunidade de Acolhimento João XXIII, da presença íntima junto das famílias, do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, onde ultimamente António Samelo servia com o seu jeito peculiar de ser próximo, presente e disponível, cristão com todos, padre para todos.
Do Samelo

“Na proximidade amiga, na intimidade da presença nas famílias, o Samelo era um verdadeiro exemplo de vida. Simples, humilde e sempre disponível para ajudar quem precisava, ele personificava o verdadeiro sentido da caridade e do amor ao próximo.” Foto: Padre António Samelo em Arouca, 19 de julho de 2009. © Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII.
O Samelo era um cristão que cultivava uma vida simples e despojada, à semelhança de Jesus, um homem feliz, realizado no dom de si mesmo: ao serviço do Deus mostrado por Jesus, presente na humanidade, no amor à Igreja, na pertença à comunidade, vivendo e irradiando entusiasmo missionário, escutando o clamor dos pobres, dos doentes, de todos quanto habitam as periferias. Um discípulo que escutava e frequentava a escola de Jesus e com Ele aprendeu o acolhimento incondicional, a misericórdia, a reconciliação, o serviço, o ir ao encontro, o procurar os afastados, o sair às encruzilhadas para convidar os excluídos.
Na proximidade amiga, na intimidade da presença nas famílias, o Samelo era um verdadeiro exemplo de vida. Simples, humilde e sempre disponível para ajudar quem precisava, ele personificava o verdadeiro sentido da caridade e do amor ao próximo. Ensinante testemunhal sobre generosidade e empatia, excelente ouvinte, capaz de acolher cada palavra com atenção, com um sentido de humor único, que iluminava qualquer momento. Inspirador e com lugar especial nos nossos corações, tantos, que tocou.
O Samelo era assim uma lição, neste seu feitio, nesta sua permanente bonomia, com a barba a rir-se, e os olhos a verem-nos atarantados. Chegou-nos frequentemente em períodos de crises diversas, em pessoas e estruturas, e assumiu quilómetros e dores para se fazer presente, para se dizer companheiro. Era tempo de dedicação, e dedicação com tempo. Um tempo que nas perguntas que lançava e nos testemunhos que partilhava se tornava de qualidade para o amadurecimento daqueles com quem assumiu fazer caminho.
O Samelo era o mestre da pergunta, do paradoxo, da contradição positiva e fértil. Aquele que dava carne e história real, de agenda efetiva, ao serviço e à disponibilidade. Para todos, mas, sem hesitação, ao preferir, como opção com sabor a Evangelho, os pobres, os últimos, os silenciados, os periféricos, no ‘borralho’ mais humilde de uma comunidade ou na ‘adega’ mais recôndita dos lugares. Apenas por estar convencido que aí se verte, de um modo mais evidente e único, a pessoa do mestre de Nazaré.
É esta a lição, se a vida nos desse lições: um padre assim faz-nos próximos uns de outros. Talvez seja este o sentido de ser Igreja.
Às Igrejas que estão nas culturas

“O padre contemporâneo há de ser militante do Mestre de Nazaré, o mesmo é dizer, militante do humano vertido em vidas concretas, o exercitador da disponibilidade permanente e da entrega absoluta para com todas as pessoas.” Foto: site da Diocese de Coimbra
Nenhuma liderança, todo o serviço. Nenhum poder, todo o testemunho. Se Francisco tem a coragem de denunciar o pecado do clericalismo, uma Igreja em sintonia com esse diagnóstico organiza-se para o prevenir. Nessa Igreja não clerical e plenamente sinodal, a pequena comunidade de revisão de vida é o lugar em que homens e mulheres que se conhecem pelo nome, porque são verdadeiramente irmãs e irmãos, experimentam o confronto do seu quotidiano com o Evangelho. Uma Igreja de todos, todos, todos, e não do padre mais uns poucos fiéis. Uma Igreja em saída e não centrada na arrumação administrativa e hierárquica. Nela, o padre é todo testemunho desse Jesus inteiro e desassossegante, todo respeito da liberdade alheia e todo fé, porque absolutamente crente que o Espírito age e nós somos (apenas) os meios possíveis.
Nessa Igreja, que resgata o movimento cristão dos começos, o padre é o primeiro a exprimir a prioridade que deve ser dada à vida de cada um, acolhe sem pré-juízos a sua complexidade e chama para a conversão, não a tabelas de preceitos datadas, mas aos mandamentos eternos da simplicidade e do amor. Para o concretizar, o padre vive em coerência com a noção de que os pobres são os evangelizadores da Igreja no nosso tempo, como diz o Papa. Mesmos que corra demais, fragilidade que tem de corrigir, é aquele que tem de tirar tempo para estar, estando com qualidade. Fazendo disso prioridade. Logo, deixando cair o supérfluo, imposto de fora, ora por uma hierarquia institucionalizada em posicionamentos de manutenção, desajustados das culturas de carne e osso, ora por uma pseudo comunidade artificialmente arrebanhada e mantida à custa de um tradicionalismo impermeável à criatividade do Espírito.
Nessa Igreja que é sínodo permanente, o padre não é um polícia da ortodoxia litúrgica e doutrinal, porque a sua relação com a comunidade de irmãos e irmãs tem como pilar a confiança fraterna. Os protocolos rubricistas litúrgicos, lamentavelmente tão presentes, que desligam culto e culturas, ritos e pessoas, céu e terra, eternidade e tempo, considera-os como minudências, sintomas de uma Igreja que quadricula Jesus numa teia de pré-ocupações, fermento que não leveda e sal que não salga. Nesse sentido, o padre sopra o Evangelho, não o dita, e deixa-se soprar pelas tristezas e angústias, alegrias e esperanças de todos os membros da comunidade. O padre não é um orador, mas um escutador que, em poucas e poupadas palavras, devolve à comunidade a vida vivida depois de lida à luz do Evangelho. Resiste à tentação do excesso de ‘palavreado’ que desfoca e torna opaca a Palavra que se faz carne, arriscando o certo e certeiro, simples e refrescante, que penetra as frestas das vidas e das estruturas, para as revigorar para um caminho de autonomia e de responsabilidade, alimentado pela força da caridade fraterna.
O padre contemporâneo há de ser militante do Mestre de Nazaré, o mesmo é dizer, militante do humano vertido em vidas concretas, o exercitador da disponibilidade permanente e da entrega absoluta para com todas as pessoas. Sempre disposto a levar-nos, pelas geografias fora, a amplificar e expandir a Boa Notícia de que Deus nos ama e acolhe. Aquele que não foge à presença nos momentos de dor e fragilidade, fazendo disso opção preferencial de agenda. Mesmo que faça doer. Sobretudo por isso. Suficientemente livre para nada querer para si. Toda a cronologia é, para ele, oportunidade kairológica.

“António Samelo foi esse sujeito de uma simplicidade que não reside na falta de saber e conhecimento, antes decorre do modo como sempre vai reduzindo todas as coisas ao essencial (…)” Foto© Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII.
António Samelo foi esse sujeito de uma simplicidade que não reside na falta de saber e conhecimento, antes decorre do modo como sempre vai reduzindo todas as coisas ao essencial, ao âmago: a Palavra e a contínua procura de uma vida vivida ao jeito de Jesus Cristo. Alguém que vive a fé como novidade permanentemente criativa, que partilha de modo alegre, que a comunica e exemplifica, demarcando-se do ritualismo desgarrado da realidade das pessoas e que abafa a alegria do Deus do amor.
O Padre para hoje personifica o sempre presente, o descomplicado, o facilitador de encontros, o sorridente, o que não discrimina e prefere, francamente, a aproximação aos últimos… bem como o último lugar para si. Aquele que recusa coerentemente o clericalismo e assume o ‘despoder’ como modo de ser e estar, renunciando ao ‘carreirismo’ como ‘medalha de bom comportamento’. O que enche a vida dos outros com um sorriso que não é epidérmico, que brota das entranhas e se diz em atitudes de disponibilidade, simplicidade e entrega, dando vida à Palavra. Aquele que transmite desde dentro uma força paradoxal, profética, acutilante na interrogação que é e na capacidade de semear nos outros a paixão pela pergunta, sentando todos na mesa da dúvida, para os ‘fraternalizar’ no essencial que une. O apaixonado pelas margens, construtor de pontes de todas as cores, credos, raças, opções políticas, sexuais… Não para que lhe atrelem títulos ao nome, mas para imitar e ser fiel ao Mestre. Aquele que, por isso, deixa boa memória.
Como Comunidade orante
Assim é o nosso pastor. Amoroso. Sem cajado.
Assim cuida do seu rebanho, sem se impor, a não ser pelo tempo que lhe dedica, pela escuta ativa e atenta, pela dádiva do serviço e da alegria e por caminhar a seu lado, ovelha entre as ovelhas, irmão entre irmãs e irmãos.
Assim nos guia, deixando-se guiar, interiorizando o nosso ritmo, que faz seu, acolhendo as nossas dúvidas, ajudando a refundar as nossas certezas, testemunho vivo de fé, compromisso e despojamento.
Tempo fértil, pleno de amor e liberdade. Assim é o nosso Pastor.
Célia Gomes, Henriqueta Cristina Oliveira, Jacinta Paiva, João Marujo, João Paiva, José Manuel Pureza, Luís Francisco, Filipa Oliveira, Inês Vasconcellos, Miguel Marujo, Fernando Pascoal, Pedro Príncipe.
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