Lisboa

Padre suspeito de partilhar obscenidades em rede social afastado do Colégio S. Tomás

| 7 Jul 2022

Muro de entrada do Colégio de S. Tomás: Duarte Andrade e Sousa tinha aqui as funções de capelão do 2º ciclo do ensino básico. Foto © 7Margens

 

O padre Duarte Andrade e Sousa, do Patriarcado de Lisboa, não entrará mais no Colégio S. Tomás da Quinta das Conchas, em Lisboa, um estabelecimento de ensino de inspiração católica. Em causa, soube o 7MARGENS, está o facto de alguns pais terem descoberto imagens obscenas (incluindo vídeos) nos telemóveis dos filhos, num grupo de WhatsApp que aquele padre mantinha com alunos do colégio.

De acordo com a reitora da escola, Isabel Almeida e Brito, em declarações esta tarde ao 7MARGENS, foi o próprio que assumiu os factos e disse que deixaria de aparecer no S. Tomás.

Num comunicado divulgado nesta quinta-feira, ao início da tarde, o Patriarcado de Lisboa qualifica como “inapropriada” a linguagem utilizada na troca de mensagens. O documento surgiu depois de o 7MARGENS ter dirigido na véspera várias perguntas sobre o assunto ao bispo auxiliar do Patriarcado, Américo Aguiar, responsável pela Comissão Diocesana de Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis da diocese da capital.

“O Patriarcado de Lisboa tomou conhecimento de uma troca de mensagens contendo linguagem inapropriada em que está envolvido um padre do seu presbitério. Tendo encaminhado o caso para averiguação na Comissão Diocesana de Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis no cumprimento das indicações canónicas em vigor, o Patriarcado de Lisboa decidiu afastar preventivamente este sacerdote das funções pastorais”, lê-se no texto.

Estas curtas linhas não respondem, no entanto, às perguntas que o 7MARGENS pretendia ver respondidas:

– O patriarca proibiu o visado de ter contactos com jovens; em que âmbitos? Na paróquia? Na escola? Nas Equipas de Jovens de Nossa Senhora? Em todas as situações possíveis?
– A decisão de o padre não voltar a entrar na escola foi tomada de acordo com o patriarcado?
– Uma das informações diz que o visado será mudado de trabalho este Verão; confirma-se?
– O patriarca pediu acesso às mensagens? Já as tem?
– O Patriarcado vai comunicar o caso à PJ/PGR, tendo em conta que é uma pessoa no activo?
– Houve alguma conversa com a directora do colégio? E com o padre?

De qualquer modo, o 7MARGENS sabe que o cardeal-patriarca, Manuel Clemente, interditou o padre Duarte de estar sozinho em qualquer contacto com jovens, incluindo nas actividades que desenvolve como pároco da paróquia de Nossa Senhora do Carmo (Quinta do Lambert, perto da Alta de Lisboa).

A decisão foi comunicada pessoalmente pelo próprio cardeal ao visado no dia 23 de Junho – ou seja, passaram duas semanas entre essa conversa e a divulgação do comunicado já citado.

Um padre do Patriarcado contactou o 7MARGENS para manifestar a sua indignação com o facto de o texto, pouco claro, “poder lançar a suspeita sobre todos os padres que mudem de actividade este Verão”.

No entanto, num email enviado esta tarde a todos os professores, a reitora da escola dava conta da situação e, em relação ao comunicado do Patriarcado, acrescentava o nome do visado. E, tendo em conta o sucedido, o padre Duarte já não participará em actividades de férias – e o colégio “não lhe atribuirá funções” no próximo ano lectivo, assegura Isabel Almeida e Brito, na conversa com o 7MARGENS.

A relação do padre com os alunos terá começado no colégio, mas com o andar dos tempos os alunos em causa começaram a frequentar com mais regularidade também a casa paroquial de Nossa Senhora do Carmo, situada próxima da escola, para estudarem. Estas informações foram obtidas pelo 7MARGENS junto de várias fontes que, pela delicadeza do assunto, pediram para não ser identificadas.

O padre Duarte era até agora o capelão responsável do 2º ciclo do ensino básico, mas os alunos em causa incluirão também jovens do secundário.

“Havia sinais de contactos demasiado frequentes”, afirma uma das fontes ouvidas pelo 7MARGENS, mas o padre em causa era visto também como alguém próximo dos alunos, e por isso ninguém terá dado importância ao que acontecia.

Terá sido na sequência da descoberta das mensagens pelos pais e de o próprio padre a ter procurado que a reitora do colégio (é essa a designação) falou, num primeiro momento, com os alunos. Nessa ocasião, estava acompanhada pelo capelão-mor, padre Ramiro Ferreira.

Na conversa, uma das fontes do 7MARGENS diz que ela terá repreendido os alunos, afirmando-lhes que eles estavam a portar-se mal e que deviam um pedido de desculpas ao colégio, por estarem a pôr em causa o bom nome da escola. Mas outra fonte garante que ela apenas manifestou apreensão pelo sucedido, chamando a atenção para a gravidade dos factos em causa.

A própria desmente a primeira versão: “O caso está sob investigação e os protagonistas são os rapazes. E rapazes que dizem obscenidades não é a coisa mais pertinente do mundo, rapazes são rapazes, a minha preocupação é com eles e não com a reputação do colégio”, afirma a reitora.

Também os pais, com quem a reitora falou num segundo momento, estão sobretudo preocupados com a protecção dos filhos e querem evitar que a situação os prejudique mais do que já aconteceu.

“Ele próprio [padre Duarte] falou comigo e disse que não estava em estado de vir à escola”, garante a reitora, sobre a sucessão dos factos. Por isso, as funções dele estão suspensas, acrescentou, justificando ainda que foi também Duarte Andrade e Sousa que teve a iniciativa de ir falar com o patriarca.

 

Formação, elites e pró-vida

Igreja paroquial de Nossa Senhora do Carmo, da qual o padre Duarte era responsável. Neste Verão, o patriarca deverá mudá-lo de funções. Foto © 7Margens.

 

Na conversa com o 7MARGENS, Isabel Almeida e Brito diz que o caso “é muito doloroso, deixa-nos a todos muito doridos”. Mas entende que a forma como está a ser resolvido é adequada. “O padre Duarte foi o primeiro a tomar sobre si a responsabilidade e as suas consequências, logo que foi confrontado com os pais, vindo falar comigo e depois com o senhor patriarca.”

A Associação para a Educação, Cultura e Formação (Apecef), proprietária do Colégio São Tomás (que, além do núcleo da Quinta das Conchas, tem um outro em Sete Rios, que apenas recebe alunos do pré-escolar e 1º ciclo) e do Colégio São José, em Sintra, foi fundada por pessoas ligadas ao movimento Comunhão e Libertação (CL).

A Apecef foi muito impulsionada pelo padre João Seabra, recentemente falecido, que aliás ainda aparece na página digital da escola como presidente da Associação.

O CL, nascido em Itália, é uma organização que agrega, por exemplo, muitas pessoas ligadas aos designados movimentos “pró-vida” e que desenvolve a sua actividade sobretudo junto das elites académicas, económicas e sociais. Andrade e Sousa é tido como sendo muito próximo daquele movimento católico, onde conta com vários amigos, mas não o integra.

No início da pandemia, Duarte Andrade e Sousa foi um dos padres que, contrariando as indicações da Conferência Episcopal e dos especialistas em saúde, insistiu em dar a comunhão na boca durante as celebrações na missa, como na altura o 7MARGENS noticiou.

Foi ele também que acolheu na sua paróquia consultas da autodesignada “terapia de conversão” para pessoas homossexuais conduzidas pela psicóloga Maria José Vilaça, à data presidente da Associação dos Psicólogos Católicos, uma prática denunciada numa reportagem da TVI no início de 2019.

O 7MARGENS tentou contactar o visado, mas até ao momento sem sucesso.

No Telejornal desta quinta-feira, a RTP noticiou que a Polícia Judiciária esteve já no colégio a falar com responsáveis e citou uma resposta da escola: “As autoridades judiciárias estão a seguir o processo e, da nossa parte, temos a disposição plena de colaborar em tudo o que for necessário.” Também a SIC noticiou, no Jornal da Noite, que a PJ tinha já falado com a responsável do colégio e com o próprio padre Duarte.

(Actualizado às 23h00 de dia 7, com o último parágrafo relativo às notícias das televisões.)

 

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