Papa evoca “inúmeras vítimas inocentes” de guerras, injustiças, economia e desastres ambientais

Uma oração de jovens protestantes na Holanda, em Agosto de 2018, com velas simbolizando a vida e a morte, o silêncio e a oração. Foto © Albin Hillert/CMI
Na sua mensagem para a Quaresma, que os cristãos iniciaram nesta Quarta-Feira de Cinzas, 26 de Fevereiro, o Papa Francisco identifica Cristo crucificado com as vítimas: “Colocar o Mistério pascal no centro da vida significa sentir compaixão pelas chagas de Cristo crucificado presentes nas inúmeras vítimas inocentes das guerras, das prepotências contra a vida desde a do nascituro até à do idoso, das variadas formas de violência, dos desastres ambientais, da iníqua distribuição dos bens da terra, do tráfico de seres humanos em todas as suas formas e da sede desenfreada de lucro, que é uma forma de idolatria.”
O Papa fala também da importância de “delinear uma economia mais justa e inclusiva” que a actual. Com esse objectivo, recorda que convocou para Assis um encontro de jovens economistas e agentes de mudança, que se realizará aqui a um mês, entre 26 e 28 de Março. “A política é uma forma eminente de caridade “, diz, citando o Papa Pio XI, e sê-lo-á “igualmente ocupar-se da economia com o mesmo espírito evangélico, que é o espírito das Bem-aventuranças”.
Do mesmo modo, Francisco considera “importante chamar os homens e mulheres de boa vontade à partilha dos seus bens com os mais necessitados através da esmola, como forma de participação pessoal na edificação de um mundo mais justo”, diz, na mensagem.
“A partilha, na caridade, torna o homem mais humano; com a acumulação, corre o risco de embrutecer, fechado no seu egoísmo. Podemos e devemos ir mais além, considerando as dimensões estruturais da economia”, acrescenta o documento, numa referência implícita à necessidade de ligar os gestos de caridade e solidariedade individuais à escala mais global.
O texto pretende ser o pano de fundo da reflexão dos católicos durante estes 40 dias de preparação para a Páscoa, tem o título “Em nome de Cristo, suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus”, inspirada numa frase da 2ª Carta de Paulo aos Coríntios.
Quando se dá ouvidos ao “pai da mentira”, escreve ainda o Papa, “corre-se o risco de precipitar no abismo do absurdo, experimentando o inferno já aqui na terra, como infelizmente dão testemunho muitos acontecimentos dramáticos da experiência humana pessoal e coletiva”.
No texto, Francisco fala ainda da urgência de conversão dos cristãos, da oração como “necessidade de corresponder ao amor de Deus, que sempre nos precede e sustenta” e da “vontade tenaz de Deus de não interromper o diálogo de salvação” com a humanidade.
Entrar no deserto
Na audiência geral desta Quarta-feira de Cinzas, o Papa convidou, entretanto, a que as pessoas imaginassem “estar num deserto”. A primeira sensação, disse, “seria a de nos encontrarmos envolvidos por um grande silêncio: nenhum rumor, à exceção do vento e da nossa respiração”. O deserto “é o lugar do afastamento da balbúrdia que nos rodeia”, acrescentou, convidando a que a Quaresma seja “o tempo propício para dar espaço à Palavra de Deus”, para apagar “a televisão e abrir a Bíblia”, para “nos desprendermos do telemóvel e ligarmo-nos ao Evangelho”.
A Quaresma deveria ser ainda “o tempo para renunciar a palavras inúteis, tagarelice, boatos, mexericos”, bem como “para dedicar-se a uma sã ecologia do coração”, fazendo uma limpeza: “Vivemos num ambiente envenenado por demasiada violência verbal, por muitas palavras ofensivas e nocivas, que a internet amplifica”, afirmou na sua alocução, que foi traduzida, em grande parte, na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.
O deserto “é ausência de palavras para dar espaço a uma outra Palavra”, acrescentou Francisco. “Na Bíblia, com efeito, o Senhor gosta de falar-nos no deserto. No deserto entrega a Moisés as ‘dez palavras’, os dez mandamentos. (…) No deserto reencontramos a intimidade com Deus, o amor do Senhor. Jesus gostava de retirar-se diariamente para lugares desertos para orar. Ensinou-nos como procurar o Pai, que nos fala no silêncio. (…)”
Francisco sublinhou ainda que na contemporaneidade “estamos submersos em palavras vazias, de publicidade, de mensagens enganadoras”. E acrescentou: “Estamos habituados a ouvir de tudo sobre todos, e arriscamo-nos a deslizar para uma mundanidade que atrofia o coração (…). É-nos difícil distinguir a voz do Senhor que nos fala, a voz da consciência, do bem. Jesus, chamando-nos ao deserto, convida-nos a prestar atenção àquilo que conta.”
O deserto é ainda o “lugar da solidão”, afirmou o Papa, para recordar: “Também hoje, próximo de nós, há muitos desertos. (…) São as pessoas sós e abandonadas. Quantos pobres e idosos estão perto de nós e vivem no silêncio, sem fazer clamor, marginalizados e descartados. Falar deles não dá audiências. Mas o deserto conduz-nos a eles, a quantos, mandados calar, pedem em silêncio a nossa ajuda. (…) O caminho no deserto quaresmal é um caminho de caridade para quem está mais fraco.”
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