A semana passada começou mais silenciosa. O mundo estava em choque, porque partia para a Casa do Pai aquele que fez da Igreja Universal a sua Casa e que nos acolheu sempre como amigos próximos. Francisco, o nome que Jorge Mario Bergoglio escolheu ao tornar-se Papa, faleceu na segunda-feira, dia 21 de abril, um dia depois de celebrarmos a Páscoa. Não poderia haver símbolo maior – ele foi, verdadeiramente, uma Páscoa para o mundo: um farol de esperança, de luz e de transformação.
Foi o Papa da simplicidade, das causas, dos pobres, dos artistas, dos jovens, da ecologia, da casa comum, dos marginalizados, dos doentes – foi o Papa de TODOS, TODOS, TODOS. Aquele que, em Fátima, nos disse que a Igreja devia ser sempre como a Capelinha das Aparições: sem portas, para que todos se sintam bem-vindos. E crentes e não crentes reconheceram-lhe a abertura e a acessibilidade que a Igreja tanto precisava, para se transformar numa Igreja moderna e do presente. Papa “do fim do mundo”, como se autointitulou, levou-nos ao centro de uma Fé Viva, feita de Amor, Ternura, Escuta, Diálogo, Sínodo, Serviço e de uma tremenda Alegria que contagiou todo o mundo com as suas palavras, mas, acima de tudo, com todas as suas ações.
Tive a graça imensa de o encontrar duas vezes: durante a JMJ Lisboa 2023, quando visitou a Scholas Occurrentes em Cascais, e, mais tarde, em maio de 2024, em Roma, durante o Congresso Internacional da Pastoral Juvenil, organizado pelo Dicastério para os Leigos, Família e Vida.
Entre 22 e 26 de maio, jovens, sacerdotes e representantes juvenis de todo o mundo reuniram-se para refletir sobre a JMJ Lisboa 2023, preparar a próxima (Seul 2027) e o Jubileu Mundial dos Jovens, que terá lugar este ano, com o tema central da Esperança: a Esperança Cristã, a Esperança neste Amor infinito que recebemos desde o nosso baptismo. Este será um encontro sinodal, para escutar e sermos escutados, partilhar dores e alegrias, experiências e caminhos – como Francisco nos ensinou: “Na Igreja há espaço para todos. E, quando não houver, por favor façamos com que haja, mesmo para quem erra, para quem cai, para quem sente dificuldade. Todos, todos, todos.”
No congresso, falámos sobre a pastoral juvenil em tempos de guerra, crise climática e pós-pandemia. Falámos sobre saúde mental, sobre o desafio digital compulsivo que os jovens enfrentam, sobre o acolhimento – acolher e saber ser acolhido. Escutámos testemunhos de jovens perseguidos nos seus países, onde viver a fé é um ato de coragem. E voltámos, sempre, à certeza de que somos chamados por Deus, não por um número, mas pelo nosso nome: “Se Deus te chama pelo teu nome significa que, para Ele, nenhum de nós é um número; mas é um rosto, é uma cara, é um coração.”
Foi uma experiência absolutamente transformadora, com partilhas feitas através do método do diálogo no Espírito – como já tínhamos feito em Fátima, no Fórum Geração Rise Up, em dezembro de 2023 – e que nos permitiu falar com liberdade, movidos pelo Espírito Santo.

“Foi uma experiência absolutamente transformadora, com partilhas feitas através do método do diálogo no Espírito – como já tínhamos feito em Fátima, no Fórum Geração Rise Up, em dezembro de 2023 – e que nos permitiu falar com liberdade, movidos pelo Espírito Santo. Foto: Maria Beatriz Viana no Congresso Internacional da Pastoral Juvenil. © Agência Ecclesia.
O ponto alto chegou a 25 de maio, com uma audiência com o Papa Francisco, na Sala Clementina, no Vaticano. No seu discurso, sublinhou cinco certezas fundamentais que devem ser constantemente transmitidas aos jovens: Deus é amor, Cristo salva, Ele vive, o Espírito dá vida e Nossa Senhora ama-nos. Realçou ainda a importância de experiências reais com Cristo, através da oração, da Eucaristia, do serviço aos pobres e do testemunho dos santos.
Um ponto central da sua reflexão foi a importância do discernimento espiritual. Explicou-nos que deve ser sinodal (feito em comunidade), pessoal (adaptado a cada jovem) e orientado para a verdade (ajudando-os a encontrar a sua verdadeira identidade e não máscaras impostas pelas redes sociais ou pela sociedade).
Concluiu apelando a uma escuta verdadeira dos jovens, envolvendo-os ativamente na vida da Igreja, e confiando-lhes a missão de anunciar o Evangelho aos seus pares, sendo verdadeiros testemunhos de Cristo Vivo.
Depois, um a um, cumprimentou os mais de 300 participantes vindos de todos os cantos do mundo. Eu, já no fim da fila, apresentei-me: “Sou a Beatriz, de Portugal, onde decorreu a JMJ Lisboa 2023. Agradeço muito por tudo, todas as graças que nos entrega como desafios e pela inspiração que nos dá para construir a Igreja jovem e em saída!”
Ele sorriu, não respondeu, mas apertou-me a mão com firmeza e ternura. Já passava das 10h00 da manhã e tinha já tido quatro audiências antes da nossa. E, mesmo assim, o sorriso dele pareceu-me o primeiro. Esse gesto simples ficará para sempre gravado no meu coração.
Francisco não era apenas um Papa, tornou a Igreja a sua casa e foi um Pai. É o primeiro Papa, desde 1669, a ser sepultado fora do Vaticano, por vontade própria. “O Papa mais humilde de todos” vai ficar junto da Mãe da Igreja, na Basílica de Santa Maria Maior. O Papa de todos, aos pés da Mãe de todos. “Desejo que a minha última viagem terrena termine neste antigo santuário mariano, ao qual recorri em oração no início e ao fim de cada viagem apostólica”.
Francisco foi o exemplo de coragem e humildade, que continuará sempre ao serviço da Igreja, dos homens e do mundo. Era presença, escuta e ação concretas e desafiava-nos a sermos iguais constantemente: “Quem ama não fica de braços cruzados, quem ama serve, corre para servir.” Era uma pessoa das pessoas, que não sabia viver sozinho. Era uma pessoa simples, que queria chegar aos fiéis através do essencial – o Amor. Furou os protocolos para estar perto de cada um de nós. Mostrou-nos que a Igreja só acompanhará o mundo se se abrir a ele, no seu todo. Não tinha medo de falar, de nos chamar à razão, de chamar as mulheres, de visitar lugares de ódio, de nos mostrar que tudo começa em nós e no Amor.
Foi ele que sempre nos disse para não termos medo! Foi ele que nos chamou e mobilizou a todos para dialogarmos e chegarmos juntos à resolução dos problemas. Foi ele que conseguiu pôr a Igreja a olhar para si própria e a sair de si mesma. Foi ele que nos disse que “o Amor é exigência e experiência concreta”, para que sejamos desafiados a pôr quanto somos em cada coisa, como dizia Pessoa, a estarmos inteiros, a dedicarmo-nos, a conversarmos, a estarmos dispostos a escutar, a conseguirmos entender verdadeiramente o Outro. “O caminho criativo do diálogo é o único antídoto contra a loucura destrutiva que temos conhecido”. E esta é (e tem de ser) a Igreja – a Igreja de TODOS TODOS TODOS!
O cardeal Kevin Farrell dizia-nos, no início do congresso, em maio de 2024 que “os jovens têm de acordar, impulsionar e inspirar a Igreja. Eles é que são a chama que não nos pode faltar.” Que estas palavras ecoem em todos os nossos corações. Que continuemos a ser essa chama viva. Que consigamos, pela vida fora, construir sempre pontes e honrar o testemunho de Francisco – com coragem, humildade e escuta. Ele deixou-nos indicado o caminho e disse-nos que o melhor está ainda por vir. E deu-nos a Esperança! “A Esperança Cristã é aquela virtude humilde e forte que nos apoia e nunca nos deixa afogar nas muitas dificuldades da existência”. “O mundo só pode mudar partindo da coragem.” E nós já sabemos que somos capazes. Francisco já escancarou as portas – nós só temos de continuar a caminhar e a ser a Igreja universal, jovem, sinodal, atenta e em saída que ele nos mostrou.
Obrigado, querido Papa Francisco! Por tudo, tudo, tudo. Somos-lhe eternamente gratos e vamos continuar este caminho. Até sempre!
Maria Beatriz Viana é licenciada em Ciências da Comunicação e mestre em Artes Cénicas pela Nova FCSH. Integra o Departamento Nacional da Pastoral Juvenil e é “social media manager” na FITA –Friends In The Arts.










