
Manifestação em Lisboa pela paz na Ucrânia, diante da Embaixada da Rússia, domingo, 27 de Fevereiro 2022. A manifestação organizada pelas juventudes partidárias teve a adesão de muitos ucranianos. Foto © António Marujo
Um apelo do Papa à abertura de corredores humanitários, condenações da guerra em vários tons por parte de líderes católicos em Portugal, multiplicação de manifestações e acções de solidariedade: a invasão da Ucrânia pela Rússia está a provocar uma situação “dramática” no terreno.
Na sua alocução do Ângelus, deste domingo, 27, o Papa Francisco condenou a guerra, não só na Ucrânia como no resto do mundo, pediu “que as armas se calem” e repetiu o convite a fazer do próximo dia 2, Quarta-Feira de Cinzas no calendário católico, uma jornada de jejum e oração pela paz.
“Com o coração despedaçado pelo que acontece na Ucrânia – e não nos esqueçamos das guerras noutras partes do mundo, como o Iémen, a Síria ou a Etiópia –, repito: que as armas se calem!”, pediu o Papa, apelando à abertura de “corredores humanitários” para as populações em fuga, sustentando que estas devem “ser acolhidas”.
“Penso nos idosos, nos que procuram refúgio, nestas horas; nas mães em fuga, com os seus filhos. São irmãos e irmãs”, afirmou o Papa, citado pela Ecclesia.
O Papa afirmou ainda que o mundo foi “sacudido por algo trágico, a guerra”. E acrescentou: “Muitas vezes rezámos para que este caminho não fosse seguido. Não deixemos de rezar; pelo contrário, supliquemos ainda mais intensamente a Deus.”
Para o próximo dia 2, o Papa propõe que a jornada seja uma forma de “estar próximo dos sofrimentos do povo ucraniano, para que todos se sintam irmãos, implorando a Deus o fim da guerra”.
“Quem faz a guerra, esquece-se da humanidade, não parte das pessoas, não olhar para a sua vida concreta, mas coloca acima de tudo interesses particulares de poder, entrega-se à lógica diabólica e perversa das armas, a mais distante da vontade de Deus”, criticou.
Francisco afirmou que a “gente comum” quer a paz e, em qualquer conflito, é “a verdadeira vítima, pagando na própria pele a loucura da guerra”.
“Deus está com os operadores de paz, não com quem usa a violência. Quem ama a paz, como recita a Constituição italiana, repudia a guerra como instrumento de ofensa à liberdade dos outros povos e como meio de resolução de controvérsias internacionais”, disse, antes de fazer um momento de silêncio e de se referir às muitas bandeiras ucranianas visíveis na Praça de São Pedro: “Glória a Jesus Cristo”, disse, em ucraniano.
Em sentido semelhante foi a intervenção do administrador apostólico de Leiria-Fátima, D. António Marto, que implorou pelo “fim de uma guerra trágica e criminosa”, apelando a um cessar-fogo imediato para que Kiev seja “uma cidade aberta”.
Na missa celebrada na Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, o cardeal Marto juntou-se ao apelo do Papa pela jornada de oração e jejum, afirmando ainda: “Do nosso Santuário manifestamos toda a nossa solidariedade com o povo da Ucrânia que sofre este terrível flagelo, destruidor de um povo. Associamo-nos, desde já com a nossa oração, ao manifesto da Comunidade de Sant’Egidio com a sua proposta de chegar a um imediato cessar-fogo e de proclamar, com urgência, a capital Kiev como ‘cidade aberta’ para salvar três milhões de pessoas e a riqueza do seu património cultural e cristão”.
Também na missa de domingo, em Bucelas (Loures), o cardeal-patriarca de Lisboa apelou ao fim da guerra, referiu os “muitos ucranianos” que vivem na região de Lisboa e se preocupam com o que se passa no seu país.
Vigília na segunda-feira, solidariedade em marcha

Manifestação neste domingo, em Lisboa: para os próximos dias, estão previstas iniciativas de protesto, solidariedade e oração. Foto © António Marujo
Nesta segunda-feira, o patriarca Clemente presidirá a uma vigília de oração pela paz na Ucrânia, que decorre na Igreja de São Domingos, na Baixa de Lisboa. Num comunicado enviado ao 7MARGENS, informa-se que a iniciativa é promovida a partir das 21h30 pelo Comité Organizador Diocesano de Lisboa da Jornada Mundial da Juventude e pela Pastoral Universitária da diocese.
Na rede social Twitter, o patriarca escreveu que “a oração é uma realidade fundamental para que o nosso coração pulse com o coração de Deus e para que a #Paz se realize neste mundo, para o bem de todos e de cada um, sobretudo naqueles locais onde ela está em causa”.
A oração 🙏🏻 é uma realidade fundamental para que o nosso coração pulse com o coração de Deus e para que a #Paz se realize neste mundo, para o bem de todos e de cada um, sobretudo naqueles locais onde ela está em causa. pic.twitter.com/k91SaEZSrS
— D. Manuel Clemente (@patriarcalisboa) February 27, 2022
A tarde deste domingo ficou assinalada, em cidades como Lisboa ou Faro, e à semelhança do que aconteceu em muitas outras pelo mundo fora, por manifestações a pedir o fim da guerra na Ucrânia. Junto à embaixada russa em Lisboa, concentraram-se vários milhares de pessoas que gritaram palavras de ordem como “não à guerra, sim à paz”.
Muitos ucranianos, russos e portugueses, entre pessoas de outras nacionalidades, concentraram-se durante três horas, empunhando cartazes artesanais e aplaudindo os ucranianos que entoavam o seu hino nacional. Muitas pessoas convergiram depois, tal como os que se tinham concentrado noutra manifestação na Praça do Comércio, para a Praça do Marquês de Pombal.
Além de vigílias e manifestações, a solidariedade tem-se manifestado também através da recolha de bens destinados aos ucranianos que permanecem no seu país, bem como aos quase 400 mil refugiados que já terão entrado em países como a Polónia e a Roménia.
Em Évora, por exemplo, a comunidade ucraniana está a recolher donativos para reunir “medicamentos, material de primeiros socorros, cobertores, mantas e roupa quente”.
A União das Misericórdias Portuguesas (UMP) decidiu entretanto mobilizar essas instituições para acolher cidadãos e famílias da Ucrânia. Em comunicado enviado ao 7MARGENS, a UMP diz que o apelo surge a partir do desafio “lançado pelo Governo às Misericórdias, para se mobilizarem para esta operação de emergência”.
Alojamento temporário e postos de trabalho são os dois âmbitos do apoio propostos. “Tendo bem presente a nossa natureza e missão, respondemos afirmativamente, sem hesitar, ao desafio”, afirma Manuel de Lemos, presidente da UMP.
Estas respostas são necessárias, a avaliar pela situação “dramática” que se vive no país, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, na quinta-feira, 24.
“As nossas cidades, casas e jardins de infância foram destruídos, mas ninguém conseguirá destruir as nossas aspirações de paz e liberdade”, disse o padre Vyacheslav Grynevych, director-executivo da Cáritas-Spes Ucrânia, num vídeo divulgado pela Caritas Internationalis e citado pela Ecclesia.
O padre Grynevych acrescenta que a instituição continua a ajudar as pessoas que precisam, através dos seus 67 funcionários e 120 voluntários. Está em causa o apoio a cerca de 13 mil pessoas em “áreas críticas” do conflito como Kramatorsk, Rubizhne, Zaporizhya, Volnovakha, Mariupol, Kharkiv, Dnipro, Kiev, Zhytomyr, Odesa, Ivano-Frankivk.
“A Cáritas Ucrânia e a Cáritas-Spes [as duas organizações da instituição católica no país] já estão a ajudar milhares de deslocados internos que agora procuram desesperadamente um abrigo seguro, tanto no oeste da Ucrânia quanto no estrangeiro”, diz a mesma fonte.









