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António Lage Raposo em entrevista. Foto © Beatriz Pereira/RR, cedida pela autora.

Lage Raposo, antigo presidente

Papel da Cáritas nos anos quentes da Revolução foi determinante

| 08/12/2024

António Lage Raposo em entrevista. Foto © Beatriz Pereira/RR, cedida pela autora.

António Lage Raposo em entrevista. Foto © Beatriz Pereira/RR, cedida pela autora.

O papel da Cáritas Portuguesa foi determinante nos anos quentes que se seguiram à Revolução dos Cravos, diz o então presidente daquela instituição católica, em entrevista à Rádio Renascença. O livro Mudar Vidas. A Igreja em Ação, dos jornalistas António Marujo e Clara Raimundo (ed. Cáritas), recentemente publicado, recorda o mandato de António Lage Raposo à frente da Cáritas entre 1976 e 1982.

A Cáritas chegou a ser ocupada por trabalhadores – tal como aconteceu, de outra forma, com a Renascença – e foi reestruturada nessa altura, para responder aos desafios que eram crescentes. Da criação dos primeiros centros de dia, à dinamização de cooperativas para autoconstrução de habitação, até ao acolhimento de quem chegava das ex-colónias, a instituição tornou-se pioneira em muitas respostas sociais.

Em entrevista à Renascença, o antigo empresário começa por recordar o episódio que acabaria por o conduzir à liderança da Cáritas. No ano quente de 1975 houve um cerco ao Patriarcado. António Lage Raposo era então o responsável pela Pastoral Familiar da diocese, e fez questão de se solidarizar com o patriarca da altura, o cardeal António Ribeiro, lançando-lhe ao mesmo tempo um desafio.

“O que a gente pode fazer é acolher os retornados. Eu propus isto assim ao patriarca, e ele disse ‘eu vou nisso! Vá ter comigo à Buraca e conversamos lá com o reitor (do seminário dos Olivais)’. Assim aconteceu.”

A conversa fez-se na Quinta do Bom Pastor – curiosamente no mesmo local onde hoje estão instalados o grupo Renascença e a própria Conferência Episcopal – entre Lage Raposo, o patriarca António Ribeiro e o então reitor dos Olivais, José Policarpo, que inicialmente teve dúvidas. Mas o cardeal decidiu avançar.

“O patriarca disse ‘acho que devemos fazer isto’. E fizemos. Dois meses depois estávamos a receber retornados no Seminário dos Olivais”, bem próximo do aeroporto onde as pessoas se amontoavam. “O patriarca cedeu as instalações dos Olivais, como cedeu depois as do Seminário de Almada, e nestes dois locais recebeu-se muita gente”, conta.

A conversa teve lugar em junho de 1975. O acolhimento começou a ser feito em agosto e decorreu até final do ano, lembra o antigo presidente da Cáritas, que considera que a Igreja teve “uma atitude de uma enorme coragem! Quer dizer, o país estava todo na incerteza maior, no meio do PREC [Processo Revolucionário Em Curso], em 75, e é nessa altura que o patriarca toma esta decisão. É uma coisa absolutamente notável”.

Um tempo de “grande liderança” na Igreja

António Ribeiro, no edifício do Patriarcado, então no Campo dos Mártires da Pátria. Foi o patriarca que convidou Raposo para dirigir a Cáritas em 1976. Foto © Leonardo Negrão/DN, cedida pelo autor. 

Foi na sequência dessa operação que Lage Raposo foi convidado para presidir à Cáritas, a partir de 1976. À Renascença fala num tempo de “grande liderança” na Igreja. “Tive uma fantástica relação com a Conferência Episcopal, nessa altura com o patriarca [António Ribeiro], e com a Comissão Episcopal [de Ação Social], que era liderada pelo D. Manuel Martins, e também com quem estava nessa altura como assistente na Cáritas, que era o padre [José Mendes] Serrazina. Tudo funcionou magnificamente”, sublinha.

“Eu era um voluntário, tinha a minha vida, era empresário, e o que me salvou nisto foi ter um secretário-geral fabuloso, que infelizmente já cá não está. Foi o Afonso Sampaio Soares”. Um verdadeiro “trabalho de equipa”, que agradece.

É um passado histórico do qual a Igreja e a Cáritas podem orgulhar-se? “Não me compete a mim dizer. Mas acho que sim”, responde. Antigo empresário, acredita que a sua experiência profissional o ajudou a exercer o cargo, sobretudo na gestão. “Envolveu muito dinheiro, como se calcula. A Cáritas deu, nessa altura, uma ajuda estimada entre 350 e 400 mil diárias no acolhimento aos retornados, e tudo isto foi feito muito à base de voluntários.”

Durante o seu mandato a instituição reestruturou-se. “Até àquela data era uma organização de assistência imediata, porque fazia distribuição de alimentos e de roupas, e era isto. Já estava espalhada pelo país, onde tinha delegações.” António Marcelino, que foi bispo auxiliar de Lisboa e depois bispo de Aveiro, estava nessa altura no Secretariado de Ação Social. Fez-se uma remodelação de estatutos e a Cáritas entrou numa dinâmica que vinha de Roma, para ser “o rosto e a marca de ação social da Igreja”. Foi já com os novos estatutos que Lage Raposo entrou para a Cáritas. 

Nessa altura foi também nomeada a Comissão Episcopal, que integrava Manuel Martins, bispo de Setúbal, António Marcelino, e o bispo auxiliar do Porto, Domingos Pinho Brandão. “Mas já depois da minha saída foi criado um secretariado, e aí quebrou-se outra vez [esse modo de trabalhar]. A marca Cáritas continua a ser muito forte; a tendência, em termos gerais, é que seja usada na generalidade da Ação Social da Igreja, mas considero que aqui se deu um passo atrás com a criação do secretariado” da Pastoral Social. Por estar acima da Cáritas? “Sim. Não há tanta autonomia. Naquela altura estávamos mais numa situação sinodal do que estamos hoje”, conclui.

 

Habitação e centros de dia

Nos seis anos em que António Lage Raposo foi presidente houve muitos momentos que exigiram capacidade de resposta, como as cheias de 1979, ou o sismo de 1980 nos Açores. A necessidade aguça o engenho, e foi nessa altura que a Cáritas dinamizou a criação de cooperativas de autoconstrução de habitação. António Lage Raposo recorda o bairro que fizeram na Ameixoeira, em Lisboa, e a ajuda que deram tanto em Alverca, onde havia desalojados das cheias, como em Angra do Heroísmo, que ficou destruída com o terramoto, episódios também recordados e contados no livro dos jornalistas do 7MARGENS.

A Igreja ajudou a financiar a construção de casas nos Açores depois do sismo. “A Conferência Episcopal promoveu um peditório nacional. Devo dizer que em valor real foi o maior peditório que a Cáritas alguma vez teve foi esse.”

Sismo atingiu as ilhas da Terceira e São Jorge em 1980. A Igreja, pela Cáritas, ajudou a financiar a construção de casas nos Açores depois do sismo. Foto © Centro Europeu de Riscos Urbanos.

Sismo atingiu as ilhas da Terceira e São Jorge em 1980. A Igreja, pela Cáritas, ajudou a financiar a construção de casas nos Açores depois do sismo. Foto © Centro Europeu de Riscos Urbanos.

É também dos seus mandatos o lançamento da atual rede de centros de dia e dos lares de idosos. O país já tinha um problema de falta de respostas e a situação agravara-se com a chegada dos retornados. 

“Fomos à Alemanha perceber o que é que se ia passando por lá. A Cáritas alemã interessou-se muito pelo assunto e acabou por nos financiar um programa”, para 30 centros de dia que pouco tempo depois eram 40 e hoje são mais de mil, refere.

“A Cáritas é hoje uma rede no país e dá a resposta que vai podendo sob vários aspetos”, incluindo o do pensamento. “Temos um programa com as Cáritas diocesanas e as universidades, para fomentar a pesquisa em matérias social e fazemos a publicação, por concurso, das teses de dissertação”.

 

Enfrentar a “mudança de civilização”

Pelos 50 anos do 25 de Abril António Lage Raposo lamenta que se esteja outra vez em crise. “Estamos em guerra, não há que olhar para isso de outra maneira. O mundo está a mudar, também por causa disso, mas por razões que são tecnológicas, de desenvolvimento” ou também da Inteligência Artificial. “Estamos numa completa mudança, quase diria, de civilização”. 

“É claro que isto se reflete na Igreja, porque a Igreja tem de dar a resposta em cada época aos problemas [da] sociedade. O que quer dizer que nunca tem a resposta feita, tem de a elaborar nessa altura. Ora, nós tivemos uma reelaboração com o Vaticano II e neste momento estamos a arrancar outra. Há que olhar as coisas assim”. Mas, podemos olhar com esperança? “Se só temos dificuldades, há que enfrentá-las e vencê-las, mais nada! Há que ser muito criativo.”

Lage Raposo: “Eu sou um homem que venho da Ação Católica". Foto © Beatriz Pereira/RR, cedida pela autora.

Lage Raposo: “Eu sou um homem que venho da Ação Católica”. Foto © Beatriz Pereira/RR, cedida pela autora.

O atual caminho sinodal, diz, “é uma das linhas da resposta”, mas “é absolutamente necessário mais envolvimento dos leigos no conjunto da Igreja”, porque “os problemas são da sociedade civil”. Recordando a sua origem, acrescenta Lage Raposo: “Eu sou um homem que venho d[os movimentos d]a Ação Católica, a nossa formação de base era ligada à intervenção nos meios, como se dizia nessa altura, portanto, na sociedade.”

Aos católicos, neste tempo de Advento, pede que se lembrem que “todos os dias estão a morrer pessoas numa situação de guerra e nós estamos cá um pouco mais longe, mas precisamos de ter mais consciência da gravidade do momento e do que é preciso investir em esperança, em confiança, e em fazer aquilo que é preciso fazer”.

 

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