Na última semana o parlamento provincial do Tirol do Sul, no norte de Itália, assistiu a um caso inédito: um deputado pretendia que os seus pares votassem uma proposta sua que exigia a renúncia do bispo local, Ivo Muser, da diocese de Bolzano-Brixen, argumentando com o comportamento do prelado relativamente a um caso de abusos de um membro do clero local.
Segundo a nformação veiculada pelo site dos bispos alemães, tornada pública originalmente pela RAI SüdTirol na última quarta-feira, o bispo tinha transferido, em setembro último, um padre para um novo cargo pastoral, depois de este ter surgido envolvido numa denúncia de abuso. A decisão episcopal gerou um coro de críticas dentro e fora da Igreja Católica e o bispo acabou por voltar atrás, reconhecendo que não tinha sido uma decisão adequada.
Embora o padre em questão tivesse sido absolvido das acusações criminais em 2009, o prazo de prescrição havia expirado. A família afetada recebeu posteriormente uma indemnização de seis dígitos, de acordo com o direito civil.
Ainda que o parlamento provincial não tivesse competências para apreciar e votar a demissão de um bispo, um deputado avançou com a proposta, gerando vivo debate entre os parlamentares, entre aqueles que consideravam que a proposta nem sequer deveria ser admitida, por alegadamente configurar “interferência questionável”, que poderia abrir um “precedente perigoso” e outros que achavam que ninguém poderia impedir aquela câmara de apreciar temas desconfortáveis. A maioria acabou por votar a aceitação da moção, mas, na votação, rejeitou o pedido de renúncia, nela apresentado.
Importa referir que a opinião pública local estava ainda influenciada pelo relatório de uma comissão independente criada pelo bispo Ivo Muser para investigar os abusos de crianças e pessoas vulneráveis na Igreja, que terá sido a primeira de entre as cerca de duas centenas de dioceses italianas a completar este tipo de investigação, a qual apresentou e divulgou o seu trabalho – um documento de mais de 400 páginas, intitulado Il Coraggio di Guardare [a coragem de ver] – em janeiro deste ano de 2025. O caso que originou agora a polémica local, com incidências no parlamento, era um dos que as vítimas de abusos relataram aos investigadores.










