Guerra da Ucrânia

Patriarca de Moscovo ignora apelo a mediação pela paz

| 10 Mar 2022

Patriarca Cirilo usa argumentação do governo de Vladimir Putin. Foto © Ivars Kupcis/WCC-CMI.

Patriarca Cirilo usa argumentação do governo de Vladimir Putin. Foto © Ivars Kupcis/WCC-CMI.

 

É um balde de água fria nas aspirações pela paz, aquele que o patriarca Cirilo dirigiu ao Conselho Mundial de Igrejas (CMI), depois do secretário-geral em exercício da organização, Ioan Sauca, ter pedido ao patriarca de Moscovo e das Rússias que mediasse negociações para um cessar-fogo na guerra da Ucrânia. 

Na linha da argumentação do governo de Vladimir Putin, o patriarca Cirilo vai à história recente e a uma eventual ameaça externa, para no fundo recusar o apelo que lhe tinha sido dirigido a 2 de março pelo CMI. O reverendo Ioan Sauca já tinha denunciado “qualquer uso da força armada para resolver conflitos que possam ser resolvidos através do diálogo”.

“As origens do confronto estão nas relações entre o Ocidente e a Rússia. Na década de 1990, haviam prometido à Rússia que a sua segurança e dignidade seriam respeitadas. No entanto, com o passar do tempo, as forças que consideravam abertamente a Rússia como um inimigo chegaram até às suas fronteiras. Ano após ano, mês após mês, os estados membros da NATO vêm aumentando a sua presença militar, desconsiderando as preocupações da Rússia de que essas armas possam um dia ser usadas contra ela”, escreve o patriarca de Moscovo, num texto em russo, cuja tradução em inglês foi disponibilizada pelo CMI.

Na carta datada de 10 de março, Cirilo agradece a Sauca pela sua missiva, acrescentando que o conhece há muitos anos como um “fiel mordomo da Igreja de Cristo e incansável trabalhador no campo da educação e formação das gerações mais jovens”.

A Igreja Ortodoxa Russa é membro do CMI desde 1961 e, na sua carta, o patriarca de Moscovo não deixa de se referir à Declaração de Toronto, texto adotado em 1950 pelo CMI, onde se estabelece que o Conselho “não se quer basear numa conceção particular da Igreja”. Essa Declaração é citada, para Cirilo apontar uma frase em particular: as igrejas membros do CMI “devem reconhecer a sua solidariedade umas com as outras, prestar assistência umas às outras em caso de necessidade e abster-se de ações incompatíveis com o relacionamento fraterno”.

Com esta linha argumentativa, o patriarca de Moscovo conclui, sem grande abertura: “Rezo incessantemente para que, pelo Seu poder, o Senhor ajude a estabelecer a paz duradoura e baseada na justiça o mais rápido possível.” E acrescentou: “Expresso a minha esperança de que, mesmo nestes tempos difíceis, como tem sido ao longo da história, o Conselho Mundial de Igrejas possa continuar a ser uma plataforma para o diálogo imparcial, livre de preferências políticas e de abordagens unilaterais”.

Vaticano afasta encontro com Cirilo

No Vaticano, o secretário de Estado da Santa Sé foi muito duro com as declarações do patriarca ortodoxo russo Cirilo, afirmando que estas só agravarão as tensões na guerra, e disse que um segundo encontro do patriarca de Moscovo com o Papa é improvável. 

Citado pelo Vatican News, Parolin disse que “as palavras de Cirilo não favorecem e não promovem um entendimento”. “Pelo contrário, correm o risco de agravar ainda mais os ânimos e escalarem de tal modo, que não resolverão a crise de forma pacífica”, afirmou o cardeal.

Falando à imprensa italiana, Pietro Parolin também abordou o seu recente telefonema com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, dizendo que a conversa se revelou inútil.

O texto da carta de Cirilo em português
patriarca cirilo igreja ortodoxa russa. Foto_ Oleg Varov_Igreja Ortodoxa Russa

O patriarca Cirilo. Foto © Oleg Varov/Igreja Ortodoxa Russa.

A partir da versão em inglês da carta de Cirilo, o 7Margens apresenta uma tradução (da sua responsabilidade) em português do texto na íntegra:

Prezado Padre Ioan,

Agradeço a sua carta de 2 de março de 2022. Conhecendo-o há muitos anos como fiel mordomo da Igreja de Cristo e incansável trabalhador no campo da educação e formação das gerações mais jovens, aprecio profundamente o seu trabalho como secretário-geral interino do Conselho Mundial de Igrejas, que visa promover o acordo e o respeito mútuo entre representantes de diferentes confissões cristãs.

A nossa Igreja juntou-se ao CMI em 1961, tendo aceitado a sua base renovada como “comunhão de Igrejas” e a Declaração de Toronto, que dizia, em particular, “o Conselho como tal não pode se tornar o instrumento de uma confissão ou escola (…), as igrejas membros devem reconhecer a sua solidariedade umas com as outras, prestar assistência umas às outras em caso de necessidade e abster-se de ações incompatíveis com o relacionamento fraterno”.

Desde 1983, tem sido uma das prioridades do CMI comprometer as suas igrejas-membro no processo de reconhecimento da sua responsabilidade compartilhada pela justiça, paz e integridade da criação dentro da comunidade mundial. Ou seja, a nossa adesão ao CMI, o diálogo e discussões baseadas no princípio da igualdade e de cooperação com toda a cristandade, não foram apenas uma expressão do nosso compromisso com a causa da reconciliação entre os povos, mas também nos deram confiança na solidariedade e no apoio da comunidade cristã mundial.

Hoje em dia, milhões de cristãos em todo o mundo nas suas orações e pensamentos olham para os dramáticos acontecimentos na Ucrânia.

Como sabe, este conflito não começou hoje. É a minha firme convicção que os seus iniciadores não são os povos da Rússia e da Ucrânia, que vieram de uma pia batismal de Kiev, estão unidos por uma fé comum, santos e orações comuns e compartilham um destino histórico comum.

As origens do confronto estão nas relações entre o Ocidente e a Rússia. Na década de 1990, haviam prometido à Rússia que a sua segurança e dignidade seriam respeitadas. No entanto, com o passar do tempo, as forças que consideravam abertamente a Rússia como um inimigo chegaram até às suas fronteiras. Ano após ano, mês após mês, os estados membros da NATO vêm aumentando a sua presença militar, desconsiderando as preocupações da Rússia de que essas armas possam um dia ser usadas contra ela.

Além disso, as forças políticas que têm como objetivo conter a Rússia não iriam lutar contra ela. Eles estavam a planear usar outros meios, tentando fazer dos povos irmãos — russos e ucranianos — inimigos. Essas [forças] não pouparam esforços nem fundos para inundar a Ucrânia com armas e instrutores de guerra. No entanto, a coisa mais terrível não são as armas, mas a tentativa de “reeducar”, de reconstruir  mentalmente os ucranianos e russos que vivem na Ucrânia em inimigos da Rússia.

Com esse mesmo fim, ocorreu o cisma da igreja criado pelo patriarca Bartolomeu de Constantinopla em 2018. E isso afetou a Igreja Ortodoxa Ucraniana.

Já em 2014, quando o sangue estava a ser derramado na [praça de] Maidan, em Kiev, e se registaram as primeiras vítimas, o CMI expressou a sua preocupação. Olav Fykse Tveit, então secretário-geral do CMI, disse a 3 de março de 2014: “O Conselho Mundial de Igrejas está profundamente preocupado com os atuais desenvolvimentos perigosos na Ucrânia. A situação coloca muitas vidas inocentes em grave perigo. E como um vento amargo da Guerra Fria, corre o risco de minar ainda mais a capacidade da comunidade internacional de agir agora ou no futuro nas muitas questões urgentes que exigirão uma resposta coletiva e baseada em princípios.”

Foi também quando eclodiu um conflito armado na região de Donbas, cuja população defendia o direito de falar a língua russa, exigindo respeito pela sua tradição histórica e cultural. No entanto, as suas vozes não foram ouvidas, assim como milhares de vítimas entre a população de Donbas passaram despercebidas no mundo ocidental.

Este trágico conflito tornou-se parte da estratégia geopolítica de grande escala que visa, em primeiro lugar, enfraquecer a Rússia. E agora os líderes ocidentais estão a impor sanções económicas à Rússia, que serão prejudiciais para todos. Eles tornam as suas intenções descaradamente óbvias – trazer sofrimento não apenas aos líderes políticos ou militares russos, mas especificamente ao povo russo. A russofobia está a espalhar-se pelo mundo ocidental em um ritmo sem precedentes.

Rezo incessantemente para que, pelo Seu poder, o Senhor ajude a estabelecer a paz duradoura e baseada na justiça o mais rápido possível. Peço a si e aos nossos irmãos em Cristo, unidos no Conselho, que compartilhem esta oração com a Igreja Ortodoxa Russa.

Caro Padre Ioan, expresso a minha esperança de que, mesmo nestes tempos difíceis, como tem sido ao longo da história, o Conselho Mundial de Igrejas possa continuar a ser uma plataforma para o diálogo imparcial, livre de preferências políticas e de abordagens unilaterais.

Que o Senhor preserve e salve os povos da Rússia e da Ucrânia!

 

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