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PÁSSARO. ilustração para Bíblia dos Abandonados © Catarina Castel-Branco

“Bíblia dos Abandonados”

Peregrinos do Sentido

| 24/11/2024

Acredito que somos todos “peregrinos do Sentido”, crentes e não-crentes. Quem sabe se quem afirma a “certeza” da inexistência de Deus não tem é receio de se abeirar do abismo, de se lançar, ainda que “com temor e tremor”, nos braços de Alguém que, como costuma dizer o nosso querido frei Bento Domingues, tem um coração no qual estamos todos guardados! 

Ora a Bíblia dos Abandonados começa precisamente por dizer que somos todos chamados a “sair do paraíso para (…) erguer um novo cosmos com muita gente”1,  “sem jamais perder a esperança de chegar ao bosque de que me falaram quando era criança e tinha a mania (diz Mendo Henriques) que podia alcançar tudo quanto queria” 2. Esta passagem do livro de que aqui falamos faz-me lembrar o poema de Sophia de Mello Breyner, “O país sem mal”, que diz assim:

Um etnólogo diz ter encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Uma tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semimortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e campinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal –
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado.3

Parece-me que a Bíblia dos Abandonados relata uma viagem persistente, sem desistência, uma viagem que não se conforma com a ideia de que “o bosque não exista”, uma viagem que ainda não acabou, apesar de vivermos tempos sombrios – há que dizê-lo… Nesse sentido, podemos perguntar-nos se esta Bíblia é dos abandonados ou daqueles que não desistem de correr para tentar ver Jesus que vai a passar, como no relato de Zaqueu. Podemos perguntar-nos se os abandonados dos poderes que aniquilam não são aqueles “cujos nomes estão escritos no coração de Deus”, como diz o frei Bento Domingues. Podemos perguntar-nos se estes abandonados não são aqueles que acreditam que “já só um deus nos salva, aquietando as águas, aquietando-as com um arco de todas as cores, até que possamos ver na distância os cumes dos montes” 4. Porque “a esperança não nos está proibida, ainda podemos sair à noite e acender uma luz” 5.

 

Ilustração para Bíblia dos Abandonados (pormenor) © Catarina Castel-Branco

Ilustração para Bíblia dos Abandonados (pormenor) © Catarina Castel-Branco

Esta é uma Bíblia onde a luz acesa na noite também ilumina e alumia aqueles a quem Mendo Henriques chama “santos às avessas” 6. Leio um dos poemas que mais me tocou neste livro e que tem precisamente esse título:

Não mintas! Nunca mintas!
O mundo está repleto da plena inexistência de deus
Os dias sucedem-se mornos, ansiosos, e lamacentos
Haja desânimos dos descrentes ou exaltações dos crentes.
Os crentes não O conseguem mostrar nos entes queridos que partem
Os descrentes não O esquecem nos desfalecimentos do quotidiano
Nas guerras que não param
Nos hospitais que não curam
Nas omissões da justiça devida
E nas calúnias e injúrias com que sobrecarregamos os outros
Não mintas. Sobretudo, não te mintas. Lê o que eles dizem!
Um pediu ao Zaratustra que tem cara de coruja
Que passasse o dia de candeia acesa à procura de humanidade
Mas tudo o que encontrou foi o deus que morreu
Morto por nós, ou por um doido que queria ser super-homem.

O outro pediu ao Alberto que fizesse falar a natureza
Pediu ao Álvaro para remexer de excessos o futuro
E ao Ricardo para falar do passado e seus cometimentos
E todos os três lhe vieram dizer que o grande Pã morrera
E que o mundo está repleto da plena inexistência de deus

O terceiro era o ateu mais fascinado que já existiu pela figura de Jesus
Capaz de escrever como profeta a segunda vida de Francisco de Assis.
E embora aborrecesse os leitores virgulinos sobre a cegueira e a lucidez
Sofria que nos deixássemos ir mundo afora numa jangada de pedra, Clandestinos espirituais, sem nunca comunicar os nossos memoriais.
Não te escandalizes, não, nem os exaltes… lê-os até ao fim
A esses e outros que entoam cânticos negros
Loas de cansaço e angústia para latinos e germânicos
A bater à porta do infinito e a ouvir a sra. Maria dizer que o sr. Engenheiro já partiu
À procura de amor / e só encontrar juros e dívidas
E o carão moreno da doença a espreitar e a levar a vida a tantos

Não mintas, sobretudo não mintas
Não negues que há desespero
Que as questões não estão respondidas
Que as crenças não salvam os generosos
Nem as descrenças impedem os malvados de morrer na cama
E que muitos clamores se erguem ao céu
Erguem-se… e pronto… logo se esfumam e de nada servem
E o resultado é tristeza, desolação, ansiedade e suicídio
Porque tudo está repleto da plena inexistência de deus.
Escuta, escuta bem esses santos às avessas
Deixa-te imbuir por esses que quiseram olhar
Que andaram aos apalpões para tocar
Que estiveram à escuta para tudo ouvir
E cuja língua se soltou em turbilhões
Para cantar os mundos que levam uns à loucura e outros à cirrose
Santos às avessas, enquanto outros nem arqueação têm para sofrer
Nem lágrimas para repartir
Ao saberem que este mundo revela a plena inexistência de deus

Faz o luto com eles, faz todo o luto com cinzas e preto
Oferece o teu nada e a tua passagem a um deus desconhecido e menor.
E então, se não mentiste hoje, nem ontem, nem amanhã
Então, se te desapegares de crenças e descrenças
Se reviveres com fervor os desesperos desses santos clandestinos
Verás a luz despir-se do seu manto sombrio da inexistência de deus
E no dia em que tiver de ser, despertarás dos cânticos negros
Porque alguém tocou teu ombro, afagou o teu rosto
Ou recolheu as tuas lágrimas na concha da sua mão
E te disse que há vida que não vem de ti, mas do alto
E alegria e amor naquele que partiu o pão e deu vinho a beber.
Pois que vida é a humana a quem falta vinho e alegria?7

 

PÁSSARO. ilustração para Bíblia dos Abandonados © Catarina Castel-Branco

PÁSSARO. ilustração para Bíblia dos Abandonados © Catarina Castel-Branco

Esta é uma Bíblia feita de nomes, uma Bíblia para além da Bíblia: nela não cabem só os nomes que aparecem na Bíblia. Cabem muitos outros que andaram à procura, encontrando e, outras vezes, desencontrando o que procuravam: Francisco de Assis, Opicinus (talvez louco), Nuno e Joana (e as ondas de choque que provocaram); Jan Hus (a quem, tal como a Joana, queimaram na fogueira), Erasmo, Mozart, Voltaire (atormentado com o terramoto de Lisboa), Heine, Saramago, Freud, Soljenítsin, Teilhard de Chardin, McLuhan, o bom Papa João, o Papa Francisco – e permito-me ler um excerto do poema que lhe é dedicado:

Este homem que veio dos confins da terra até à Europa
Tal como Schweitzer partiu numa sexta-feira-santa para África
Este homem, no centro de uma praça vazia, na grande cidade
Cercado pelos esplendores e a majestade do Vaticano
A majestade totalmente inútil dos poderes deste mundo
Farto de sermões, práticas, exercícios, e debates teológicos
Farto da papalização de Cristo e escandalizado com os hierarcas
E farto dos seus jogos de poder, influência, dinheiro e pedofilia
Este octogenário, com ciática e sem parte de um pulmão
Com o céu a escurecer, a chuva a começar a cair
Com as imagens da mãe de deus e do salvador ao longe
Apenas perguntou, dentro da barca agitada pela tempestade
Em que todos seguem, uns mais confortáveis do que outros:
“Porque tendes medo? Não tendes ainda fé?”8

 

Papa Francisco assinalou este domingo, no Vaticano, a solenidade de Pentecostes. Foto © Vatican Media, via Agência Ecclesia.

Papa Francisco, na solenidade de Pentecostes. Foto © Vatican Media, via Agência Ecclesia.

Mas esta também é uma Bíblia que regista na história a história dos sem-história e com a “Balada dos Abandonados” me calo:

Aos abandonados na estrada…
Aos refugiados das guerras,
Às vítimas de fomes e vírus…
Aos companheiros de manada
Aos que choram sozinhos
E aos que choram acompanhados
Aos de coração muito frio
E aos retalhados aos bocados…
Junto-me a vós, irmãos na dor
Junto-me a vós, sem hesitar!

Aos que vêem os planos mortos
Aos assassinados no coração
Aos clandestinos da vida
E aos feridos pela traição
Aos que gritam de loucura
Aos que sucumbem a sós
Aos que se drogam para fugir
Aos que fogem para se drogar
Junto-me a vós, irmãos na dor
Junto-me a vós, sem hesitar!

Aos despejados das casas,
Dos empregos e das reformas
Às vítimas da dissimulação
E aos feridos em combate
Aos despedidos do chão…
Aos enxotados como melgas…
Aos que comem coisa suja
Aos que padecem nos hospitais…
Junto-me a vós, irmãos na dor
Junto-me a vós, sem hesitar!

Aos endividados da vida
E às vítimas dos penhores
Aos que leem livros tristes
Aos sem abrigo e com dores
Aos que choram no silêncio
Aos que partem a loiça toda
Aos que tiveram esperanças

Aos que mandaram bugiar…
Junto-me a vós, irmãos na dor
Junto-me a vós, sem hesitar!9

 

Bíblia dos Abandonados

Imagem para Bíblia dos Abandonados (pormenor) © Catarina Castel-Branco

Parabéns ao Mendo Henriques e à Catarina pelo coração grande, por estes poemas e estas imagens onde cabem dores e alegrias do mundo, onde cabe a vida, onde cabe o outro que somos todos, e o Outro que muitos buscamos!

 

Uma nota pessoal: Há pessoas com quem se estabelecem laços, muitas vezes, sem sabermos bem porquê! Acredito em encontros significativos, ainda que possam começar por ser ocasionais! Com a Catarina, devo dizer que isso aconteceu no encontro do Metanoia em Leiria, em Julho deste ano, quando ela escreveu no quadro: “onde se queimam livros, acaba por se queimar pessoas”. Foi esse clique que me levou também a aceitar a oferta da Catarina para ler alguns textos, nomeadamente, de Elie Wiesel, que me sufocam de tal maneira que não os consigo ler! 

O Mendo Henriques era uma figura que me habituei a ver nos corredores da Católica, quando era aluna, parece-me, e que eu considerava tão inteligente que, quando o vi no dito encontro, pensei: “diante dele, tudo o que eu diga é nada!”… Percebi, depois, nesse mesmo encontro, que era possível um “patamar de simplicidade”, com base, creio, na pertença à “mesma família”: a família dos cristãos, ou, se quisermos, de uma forma mais lata, a família dos que andam à procura do Sentido. 

 

NOTAS:
1 – Mendo Castro Henriques, Bíblia dos Abandonados (2024), ed. Autor, p. 10.
2 – Idem, p. 11.
3 – Sophia de Mello Breyner Andresen, “Ilhas” (1989), in Obra Poética III, Caminho.
4 – Mendo Castro Henriques, Bíblia dos Abandonados (2024), ed. Autor, p. 13.
5 – Idem, p. 18.
6 – Idem, p. 71.
7 – Idem, p. 71-72.
8 – Idem, p. 87.
9 – Idem, p. 81-82.

 

Teresa Toldy é professora universitária de Ética e teóloga; publicou Deus e a Palavra de Deus nas teologias feministas (Paulinas Editora); este texto corresponde à intervenção na sessão de apresentação da Bíblia dos Abandonados, que decorreu na Capela do Rato, em Lisboa, no passado dia 21. 

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