[Moçambique, margem Sul]

“Pita Kufa: O Leito da Morte”, um apelo ao dinamismo

| 20 Abr 2024

Foto © Basilio Muchate.

Foto © Basilio Muchate.

 

 

Em alguns textos neste jornal, fiz menção ao ritual de purificação da viúva e nunca o abordei na sua profundidade. Uma vez que, em Maio, será publicado um romance que prefaciei e que aborda essa matéria, convido os meus leitores a se inteirarem desse fenómeno que, desta feita, é-nos apresentado por via da ficção.20

Pita Kufa: O Leito da Morte é um romance da autoria de Carlos Paradona, que pertence ao género literário realista, portanto, escrito próximo da realidade social que descreve.

Quando li a primeira parte do título do livro, Pita Kufa (que, tal como se diz no romance, significa entrar na morte para afastar a alma do morto), título em sena (povo de Moçambique), para designar o ritual de purificação da viúva, julgava que me iria deparar com um fenómeno que já conhecia. Entretanto, os pormenores em torno deste assunto revelaram-me o muito que ainda devo aprender. Interrogou-me, sobretudo, a segunda parte do título, designada o leito da morte, porque foram arrolados, de modo etnográfico, pormenores que revelam que antes que o ritual se realize, o leito da morte é inaugurado pelo finado; e é nesse leito que devem iniciar os preceitos, junto à viúva ou viúvas.

Maibeque, personagem do livro, é polígamo e grande caçador. Morre e toda a trama se desenvolve em torno dessa ocorrência, num povoado que se chama Gombe-Gombe, no vale do Zambeze, com acções que se estendem por Murraça, Sena, Marromeu, Inhaminga, Gorongosa, Mutarara, entre outros lugares.

Há nesta obra vários apelos e representações culturais em torno do diálogo entre vivos e mortos, numa sociedade tradicional (utilizo o conceito tradicional na sua acepção de ancestralidade). São retratadas questões da vida social, nas quais há interferência de hierarquias políticas, nomeadamente do curandeiro e do sacerdote, que têm estatuto para tomar decisões sobre as populações do povoado retratado.

A temática levantada e as sugestões a que nos remete podem, provavelmente, chocar algumas sensibilidades ainda enraizadas em práticas ancestrais com modos de fazer não dignos de reprodução, por colocarem em risco a saúde humana. Paradona faz-nos reflectir naquilo que se designa de “práticas nocivas”, que ocorrem em realizações culturais e que integram abuso de honra, de dignidade da mulher e casamento forçado. Este livro irá, certamente, contribuir para o entendimento necessário da convivência entre saberes ancestrais, ligados à medicina tradicional, e os avanços que têm sido alcançados pela medicina convencional moderna, no que à protecção da saúde humana diz respeito.

A obra não sugere o abandono das culturas ancestrais. Dialoga em torno do ritual de purificação da viúva. Faz referência à cópula como modo de agir, para afastar a alma do morto, que é similar ao que acontece na vida real, e que coloca a vida humana em perigo. De algum modo, afirma que “uma morte não pode criar outras mortes”, ou por outra, “um ritual não pode deixar muita gente doente”. E, por causa disso, Phute, personagem e reconhecido sacerdote (guardião do povo, com mandato de ancestrais para zelar pela sociedade narrada), é quem apela para novas formas de ser e de estar, para se realizar rituais naquele povoado. Na sua óptica, os espíritos dos defuntos podem ser apaziguados de outro modo. Deve haver mudanças.

O autor aborda, ao pormenor, imensas representações culturais. Há nomes pouco conhecidos e típicos do vale do Zambeze. A onomástica é rica. Além disso, canta-se e dança-se, para animar os entes queridos do perecido, mostrando que, para além da solenidade que caracteriza um momento fúnebre, existe a “acção de graça” aos deuses da comunidade, pela vida de quem partiu. A par disso, em seu nome e honra, a comida de que gostava, em vida, deve fazer parte do que é confecionado no evento. Degusta-se e dança-se ao sabor das iguarias e bebidas “da terra”. Vivos e mortos comem; estes últimos, simbolicamente, através dos alimentos que lhes são depositados em altar próprio, e uma parte desses manjares é levada junto com o finado para o seu enterro, porque ele “precisará”, para si, e irá “partilhá-la” com os outros defuntos. E tem mais: por fora da sua campa, são colocados outros pertences seus.

Este texto é escrito na semana em que o realizador Sol de Carvalho estreou, em Maputo, o documentário intitulado Kutchinga, nome em changana e em ronga do ritual de purificação da viúva. Nesse documentário, são expostos os relatos e sentimentos de quem passou pelo fenómeno e de quem acredita que o mesmo deve ser concretizado com pena de prejudicar fortemente a saúde de quem não o praticar. No dizer dos intervenientes do documentário, caso um familiar do defunto não possa realizar o ritual nos moldes prescritos, alguém é contratado para o fazer. A dado momento, no documentário, foi colocada a chuva. E esta parece anunciar, quanto a mim, necessidade de mudança nos modelos de realização do ritual; isto porque a chuva é esse símbolo que interpela, que incita a novas formas de agir. Desassossega e purifica.

A mudança é, também, sugerida no romance de Carlos Paradona, tal como já o tinha mencionado e, nisso, a ideia não é apenas substituir os intervenientes no ritual: um familiar ou um vizinho do defunto para copular a viúva, por um contratado que possa realizar a depuração, porque, no final, as consequências são desastrosas.

O documentário e o presente livro são dos raros exemplos, em Moçambique, em que a arte, por sugestão, se associa ao trabalho que tem sido realizado pela Ametramo (Associação de Médicos Tradicionais de Moçambique) e a medicina convencional moderna, na educação das populações, para que executem o ritual de purificação da viúva com recursos a meios alternativos que não envolvam a cópula, de modo a não expô-las ao risco de transmissão de doenças.

Várias outras questões são afloradas no livro, como a que convida à reflexão sobre a condição da mulher e o controlo do seu corpo. Esta acaba sendo coisificada, por se assumir que o seu valor ou o seu bem-estar dependem da sua inserção num lar matrimonial. Tal é sugerido, por exemplo, na descrição da alegria com que Tchana, viúva de Maibeque, sente ao saber “que a sua vida estaria, de novo, ligada a um homem”. Entretanto, mais adiante, através das acções narradas, sabe-se de uma desgraça que se acomete sobre ela.

Destaco, de modo muito breve, estratégias de escrita de Paradona, que despertam curiosidades sobre o vale do Zambeze: o detalhe com que o autor descreve a pessoa sóbria, que deve ser sacerdote em cada sociedade narrada na obra; as lindas mulheres e o misterioso curandeiro no romance. Além disso, despertou-me especial interesse o facto de ele se referir aos nomes dos fenómenos culturais com recurso à língua sena, sem fornecer o seu significado em notas de rodapé ou glossário, traduzindo o fenómeno no corpo da própria narrativa.

Em síntese, nesta obra, não é sugerida a negação da cultura tradicional. Apela-se, isso sim, à re-significação de determinados modos de agir integrados na cultura que possam ter impacto negativo na sociedade ou na saúde das pessoas. Isso é positivo, se considerarmos que as culturas devem agir em defesa da humanidade. Sendo estas dinâmicas, algumas das suas práticas podem ser alteradas para o bem da humanidade. Paradona recorda-nos que existe a hipótese de dar novos significados à cultura, em nome do conhecimento hodierno e da defesa da vida humana.

Desejo que as sugestões trazidas pelo livro contribuam para transformar as sociedades nas quais esse ritual ainda decorra de modo que não coloque em perigo a saúde e a vida das pessoas.

 

Sara Jona Laisse é docente de Técnicas de Expressão na Universidade Católica de Moçambique e membro do Graal, Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto. saralaisse@yahoo.com.br

 

Patriarca de Lisboa convida “todos” para “momento raro” na Igreja

A um mês da ordenação de dois bispos

Patriarca de Lisboa convida “todos” para “momento raro” na Igreja novidade

O patriarca de Lisboa, Rui Valério, escreveu uma carta a convocar “todos – sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e fiéis leigos” da diocese para estarem presentes naquele que será o “momento raro da ordenação episcopal de dois presbíteros”. A ordenação dos novos bispos auxiliares de Lisboa, Nuno Isidro e Alexandre Palma, está marcada para o próximo dia 21 de julho, às 16 horas, na Igreja de Santa Maria de Belém (Mosteiro dos Jerónimos).

O exemplo de Maria João Sande Lemos

O exemplo de Maria João Sande Lemos novidade

Se há exemplo de ativismo religioso e cívico enquanto impulso permanente em prol da solidariedade, da dignidade humana e das boas causas é o de Maria João Sande Lemos (1938-2024), que há pouco nos deixou. Conheci-a, por razões familiares, antes de nos encontrarmos no então PPD, sempre com o mesmo espírito de entrega total. [Texto de Guilherme d’Oliveira Martins]

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

“Sempre pensei envelhecer como queria viver”

Modos de envelhecer (19)

“Sempre pensei envelhecer como queria viver” novidade

O 7MARGENS iniciou a publicação de depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Publicamos hoje o décimo nono depoimento do total de vinte e cinco. Informamos que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

“O 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba”

“O 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba” novidade

O último dia de “Reflexos e Reflexões” prometia uma tarde bem preenchida: o debate sobre “o 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba”, e a peça de teatro “House”, de Amos Gitai, pelo teatro La Colline. Aqui deixo uma síntese do debate, que tentei fazer com a maior fidedignidade possível, a partir dos apontamentos que fui tomando (era proibido tirar fotografias ou fazer gravações, para garantir que todos se sentiam mais livres para falar). [Texto de Helena Araújo]

Sínodo, agora, é em Roma… que aqui já acabou

Sínodo, agora, é em Roma… que aqui já acabou novidade

Em que vai, afinal, desembocar o esforço reformador do atual Papa, sobretudo com o processo sinodal que lançou em 2021? Que se pode esperar daquela que já foi considerada a maior auscultação de pessoas alguma vez feita à escala do planeta? – A reflexão de Manuel Pinto, para ler no À Margem desta semana

Nada se perde: um antigo colégio dos Salesianos é o novo centro de acolhimento do Serviço Jesuíta aos Refugiados

Inaugurado em Vendas Novas

Nada se perde: um antigo colégio dos Salesianos é o novo centro de acolhimento do Serviço Jesuíta aos Refugiados novidade

O apelo foi feito pelo Papa Francisco: utilizar os espaços da Igreja Católica devolutos ou sem uso para respostas humanitárias. Os Salesianos e os Jesuítas em Portugal aceitaram o desafio e, do antigo colégio de uns, nasceu o novo centro de acolhimento de emergência para refugiados de outros. Fica em Vendas Novas, tem capacidade para 120 pessoas, e promete ser amigo das famílias, do ambiente, e da comunidade em que se insere.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This