
“Longe desta cultura individualista que tantas vezes nos afeta, este rico conceito teológico criado por Paulo idealizava a Igreja como um corpo constituído por discípulos e discípulas do Senhor em verdadeira união espiritual e total interdependência entre si.” Foto © Freepik
As escrituras sagradas oferecem-nos uma variedade de imagens com o intuito de nos descrever a Igreja. Ela é, entre outras, o povo de Deus (I Pedro 2.9-10), o edifício de Deus (I Coríntios 3.9), a família de Deus (Efésios 2.19), o rebanho do Bom Pastor (João 10:16). Mas talvez uma das mais belas e que se identifica connosco mesmos, é a descrita pelo apóstolo Paulo na sua primeira carta aos Coríntios 12:12-27: “Vós sois o corpo de Cristo e cada um, pela sua parte, é um membro”. Toda esta imagética do corpo humano, que Paulo utiliza tão magistralmente para descrever a Igreja do Senhor, remete para uma verdadeira eclesiologia do Corpo, tantas vezes esquecida e, por vezes, tão pouco praticada nos dias de hoje.
Longe desta cultura individualista que tantas vezes nos afeta, este rico conceito teológico criado por Paulo idealizava a Igreja como um corpo constituído por discípulos e discípulas do Senhor em verdadeira união espiritual e total interdependência entre si. Ele sabia que, ao usar essa metáfora do corpo para descrever a Igreja, constituída ela mesma por vários membros, poria em relevo uma das mais extraordinárias funções do corpo enquanto unidade orgânica: “assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria.” (1 Coríntios 12:26). Parece-nos, hoje, mais claro do que nunca, que a cultura individualista que nos cerca, onde o Outro quase que desaparece por completo, nos quer fazer esquecer que Deus nos quer, embora respeitando os nossos traços individuais, como seres comunitários. Mesmo o sofrimento, parte constituinte da nossa condição humana, está condenado à esfera privada, ao individuo em si: sofremos, mais do que nunca, sozinhos. Conforme observa, e muito bem, o filósofo Byung-Chul Han, “hoje, cada um está, de algum modo, sozinho consigo, com seus sofrimentos, com suas angústias. O sofrimento é privatizado e individualizado. (…) Não se produz nenhuma ligação entre o meu sofrimento e o seu sofrimento. Ignora-se, assim, a socialidade do sofrimento.”[i]
Nesta metáfora do corpo, esquecemo-nos por vezes que a cabeça é o próprio Cristo, o Senhor da Igreja. Este corpo, cujos membros, além de sustentados e vivificados pelo próprio Deus, é ainda constituído como um sinal de revelação. Poderíamos assim afirmar, antropologicamente falando, que neste corpo que é a Igreja é que Deus, que é invisível, espiritual e divino, se torna visível ao mundo – é a Igreja enquanto Imago Dei. Talvez o maior climax da dávida de amor do Senhor esteja contido naquelas palavras proferidas por ele antes de ir à Cruz, “Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos” (João 15:13). Jesus exprime o seu infinito amor pela Humanidade partindo o Seu Corpo por todos. Esta imagética do partir do pão, além de se revestir de uma rica simbologia de unidade e fraternidade, deveria ter implicações sociais tão profundas que transformassem tudo à nossa volta. Assim, tal como no sacramento da eucaristia, onde o Corpo do Senhor é partido e dado para ser distribuído por todos, cada membro do Corpo é agora igualmente convidado a partir a sua vida em favor de muitos.
Será, pois, necessária uma verdadeira eclesiologia do Corpo, cujos membros que constituem a Igreja, através da cabeça que é Jesus, sejam verdadeiro pão para um mundo tão carente e vazio de sentido, como é o do nosso tempo. Confesso que “ser partido pelo próximo”, abrir mão do meu conforto e egocentrismo, nem sempre é fácil. Dietrich Bonhoeffer,[ii] um martir cristão do século XX, falava acerca do preço do discipulado, de ser um autêntico seguidor do Seu Mestre, Jesus. Assim como o Senhor partiu o Seu Corpo, os membros da Sua Igreja são convidados a todo o momento a partir as suas vidas, ainda que isso tenha um preço na vida de cada um.
[i] Byung-Chul Han. “A Expulsão do Outro”, Editora Relógio D’Água, 2018.
[ii] Dietrich Bonhoeffer. “Discipulado”, Editora Mundo Cristão.
Vítor Rafael é Doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Contacto: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt









