
“Ousemos finalmente sair do silêncio, nós mulheres, muitas das quais já somos diáconos por força das circunstâncias.”Sarcófago com retrato feminino datado do primeiro terço do século IV. Foto © Museus Vaticanos, Museu Pio Cristiano, inv. 31556. Direitos reservados.
“Ousemos finalmente sair do silêncio, nós mulheres, muitas das quais já somos diáconos por força das circunstâncias.” É o que afirmam perto de três dezenas de organizações de mulheres de vários países, numa campanha lançada em reação ao rotundo não do Papa Francisco à possibilidade da ordenação de mulheres na Igreja Católica.
Foi no dia 20 de maio deste ano que, em resposta à pergunta de uma jornalista da CBS para o programa 60 Minutos sobre “se uma menina que hoje cresce no catolicismo terá um dia a oportunidade de ser diácono e participar como membro do clero na vida da Igreja”, o Papa respondeu sem rodeios: “não”.
Esta resposta categórica foi considerada pela associação feminista francesa Comité de la Jupe (“Comité da Saia”) e as muitas congéneres que se lhe associaram “uma traição ao espírito de diálogo do Sínodo sobre a sinodalidade e profunda injustiça”. Este “não” é, para elas, “um retrocesso após 60 anos de debates”, que mostra uma Igreja que “vira as costas aos seus membros mais ativos”. “Será que Francisco se perguntou como seria a Igreja se as mulheres católicas também respondessem “não”? — perguntam.
Justificando a consigna da campanha que decidiram levar a cabo — “porque não eu?” — que levou à criação de um site específico com versões em espanhol, italiano, inglês e alemão, além do francês, as associações de mulheres explicam por que são já “diáconas pela força das circunstâncias”: “Porque não eu? Eu que sou um voluntário essencial na minha paróquia? Eu que transmito a Palavra e a fé através da catequese, da capelania, do escutismo? Eu, uma freira que serve os mais pobres?”
Isso leva-as a reivindicar: “Exijamos ser reconhecidas, exijamos ter um papel pleno nas decisões da Igreja, exijamos que a porta nunca mais nos seja fechada. A Igreja não existe sem nós.”
Cabe referir, a este propósito, que o Papa, ao mesmo tempo que é assertivo nesse “não”, que não é novidade, acolheu mulheres, incluindo duas teólogas e uma bispa da Igreja Anglicana, nas últimas reuniões do C9, o Conselho de Cardeais que o assessora. O objetivo foi o de escutar de forma atenta as suas reflexões sobre o papel das mulheres na Igreja.
O Papa aceitou também prefaciar um livro que acaba de ser editado também em Portugal, sob o título “Desmasculinizar a Igreja?“ (Paulinas Editora), que inclui textos dessas mesmas mulheres. Nesse prefácio volta a uma visão sua desde o início do pontificado, que é sobre a importância de lançar processos de escuta, de reflexão, de discernimento.
O que isso possa significar ou produzir já não cabe na notícia.









