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Amigos do Deserto em Portugal

“Quanto mais praticas a meditação, mais te tornas capaz de enfrentar a realidade sem medos”

| 26/02/2025

 

Guerras, atentados, genocídios, desastres climáticos – o mundo de hoje mete medo e há quem fuja dele para encontrar a paz interior, esquecendo tudo o mais. Não é o caso dos Amigos do Deserto, associação inspirada nas propostas de Pablo d’Ors, que organizaram no fim-de-semana passado o seu primeiro retiro em Portugal. A meditação que propõem torna cada um mais “corajoso perante a vida e a realidade”, pois, diz o seu presidente, Manuel Bellido, “quanto mais praticas a meditação, mais te tornas capaz de enfrentar a realidade sem medos”.

Mas o que é a meditação para estes seguidores de Pablo d’Ors que preconiza, como disse em entrevista ao 7MARGENS, que é “na medida em que nos despimos, na medida em que nos esvaziamos, na medida em que fazemos um deserto interior, [é] nessa medida que descobrimos quem somos”? “Meditar é ir ao centro de si, tal como ensinam os padres e mães do deserto na sua procura de viver de um modo mais autêntico o Evangelho, escutando-se a si próprios, às suas sombras interiores, e seguir fiéis ao Espírito”, responde Isabel Vilar, uma galega que, em conjunto com Manuel Bellido e Maribel Corral, orientou o retiro de iniciação em Torres Novas no qual participaram mais de três dezenas de pessoas.

Vilar completa: “Meditar é ir ao centro de si mesmo e conduz, aos que somos crentes, à oração contemplativa”, isto é, “caminhar, peregrinar, da cabeça ao coração até esse lugar em que somos templos do Espírito; para os não crentes é um percurso que os conduz ao centro de si mesmos, onde habita a bondade, a beleza, a paz e do bem, essas nascentes positivas que todo o ser humano possui”. Viver este método de meditação “é igual para todos, crentes e não crentes”. Acontece que os Amigos do Deserto se situam “dentro da tradição cristã”, contudo, reforça Bellido, “o exercício é igual para todos: trabalhar o corpo; a mente; e o espírito.”

A metodologia do retiro tem toda uma história e é baseada naquilo que Pablo d’Ors aprendeu nos retiros de iniciação à meditação que fez sob orientação de Franz Jalics. É com base nessa experiência e a partir da obra Ejercicios de Contemplacion de Franz Jalics que vai escrever o seu livro A Biografia do Silêncio (1). “Muito de nós lemos esse livro que nos tocou tanto que nos levou a pedir-lhe que nos ensinasse a fazer silêncio, a meditar” – recorda Isabel Vilar. É como resposta a esses pedidos que “Pablo elabora esta metodologia do retiro de iniciação ao silêncio inspirado nos ensinamentos de Jalics”. O método consiste fundamentalmente no “silenciamento interior” em três etapas progressivas: descontrair o corpo, concentrar a mente e entrar na oração contemplativa.

 

Perfeição, santidade e autenticidade

Três AMIGOS DO DESERTO: Manuel Bellido, Maribel Corral e Isabel Vilar, animadores do primeiro retiro dos Amigos do Deserto em Portugal, falam ao 7MARGENS em Torres Novas. Foto © Jorge Wemans / 7MARGENS

 

Há cada vez mais gente a participar nestes retiros, porque, diz Bellido, “um dos males das nossas sociedades é que vivemos fragmentados, interior e exteriormente, por religiões, mentalidades, classes sociais, etc… Essa divisão faz-nos sofrer e há cada vez mais pessoas a aspirarem, a desejarem encontrar a sua unicidade, de serem um, em si e com as coisas e os outros; com Deus, diriam os cristãos”. Mas outra coisa é passar desse desejo “à continuidade de um caminho espiritual, que é algo difícil, que requer perseverança, entrega e confiança”. Por isso, nem todos os que contactam com os Irmãos do Deserto fazem caminho com eles e escolhem outras vias de meditação na busca da paz interior.

Thomas Merton (2), distinguia a perfeição – “aquele estado de tranquilidade onde as paixões já não perturbam a alma pura” e que leva a pessoa “a considerar-se um ser superior, completo e adornado de todas as virtudes, isolado de todos os outros num agradável contrates com eles, sem se preocupar com as necessidades e desejos dos outros homens” – da santidade – aquela qualidade “da pessoa ‘santa’, santificada pela presença e ação de Deus em si que implica a sua comunhão e solidariedade com o ‘Povo santo de Deus’.” Bellido partilha desta distinção, não lhe interessa a “perfeição”, mas onde Merton coloca “santidade”, ele prefere “autenticidade”. “Não se trata de ser perfeito, mas sim, autêntico. O caminho interior que propomos é a busca do ser mais profundo, do ser autêntico que te traz paz e espaço interior.”

“Muitas das pessoas que vêm aos encontros não têm esse contacto com o que há de profundo nelas”, sublinha Maribel Corral, “chegam feridas interiormente, transportando deceções, fracassos e dor intensa, mas com o desejo de se encontrar consigo mesma… é por isso que o caminho é ‘voltar a casa’, procurar como encontrar-se consigo mesmo, volta a conectar-se consigo mesmo”. Estar presente a si próprio “não é um espiritualismo”, “trabalhar a fonte interior não é para ficar contente consigo mesmo, é para a dar aos outros, se a meditação não se repercute na vida de cada um, se não se traduz em maior compromisso, maior compaixão e mais serviço aos outros, algo está a falhar!”

 

Corpo, silêncio, palavra

Amigos do Deserto é uma associação privada de fiéis criada há uma década, aberta a pessoas de qualquer confissão e que se entende como uma “rede de meditadores” solitários, ou em grupo, que “reúnem uma vez por semana para aprofundar a sua prática de mediação”. Estão presentes em quase todas as províncias de Espanha, em várias cidades de Itália, em países da América Latina e agora em Portugal. Em outros continentes acompanham pessoas isoladas que se conectam à distância.

Os encontros semanais, “seguem sempre a mesma estrutura muito simples”, sistematiza Manuel Bellido: “fazer silêncio, escutar um texto, de Pablo d’Ors ou de outro autor, meditar, atento ao movimento corporal. Assim se cumprem os três pilares: corpo-silêncio-palavra”.

Os Amigos do Deserto respondem sempre do mesmo modo aos pedidos que lhes chegam de vários lugares: começam por organizar um retiro de iniciação, tal com o fizeram em Torres Novas; depois, quando os participantes desse primeiro encontro praticam diariamente o caminho espiritual iniciado, realizam com eles retiros de aprofundamento. “É um retiro muito mais exigente que o de iniciação” a que se podem seguir, para quem vive a meditação diária aprofundada um encontro de “exercícios contemplativos” que se prolonga por 10 dias.

Nada disto foi pensado de uma vez, foi um desenvolvimento feito ao longo dos anos e a pedido de quem se ia envolvendo neste processo pessoal de meditação, comenta Isabel. “Pablo d’Ors nunca tinha pensado na existência de Amigos do Deserto, mas sentiu-se obrigado a responder aos pedidos que lhe são feitos para ajudar outros a seguir o caminho da meditação”, comenta Isabel Vilar. Tudo começou como resposta a esses pedidos iniciais. “Mas acontece que depois dos primeiros retiros de iniciação há gente que vai praticando a meditação diariamente e que pede mais, quer saber mais, quer aprofundar o caminho.” É então que “Pablo ensaia, sem nada de planeado de antemão os encontros de aprofundamento e continua acompanhando as pessoas e observando o seu caminho”, de tal forma que se confronta com novos pedidos de maior aprofundamento por parte de “quem quer dedicar a sua vida a isto” e acaba criando os “exercícios contemplativos” e formando animadores da rede que hoje apoiam grupos em cidades de diferentes países.

Em Portugal estão ainda na fase inicial, mas gostariam de, a prazo de dois anos, ver crescer o número e os grupos de meditadores de tal forma que se tornasse necessário uma sede onde oferecer espaços de silêncio e retiros de iniciação ao silêncio contemplativo.

Fotografia de família dos participantes no retiro promovido pelos Amigos do Deserto no fim-de-semana 22 e 23 de fevereiro. Foto © Jorge Wemans / 7MARGENS

 

(1) A Biografia do Silêncio – Breve Ensaio sobre Meditação de Pablo d’Ors. 5ª Edição, Março de 2020. Paulinas Editora
(2) Vida e Santidade de Thomas Merton p.32/33, Editorial Franciscana, 2007

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