que força é essa,
Amigo?
(Sérgio Godinho)
uma força emanava d’Ele
que a todos curava.
(Lc 6, 12-19)
Tenho vindo a pensar no que posso escrever sobre Sérgio Godinho pelos seus 80 anos. Um cantor de referência da minha juventude, mesmo antes do 25 de Abril. Um homem da Revolução e da Democracia, um homem do Porto como eu, um “companheiro”; um resistente e um artista que teimosamente continua a habitar os palcos, a produzir canções relevantes, a cantar desassombradamente o que pensa e a poesia que escreve. Ora a leitura do Evangelho de hoje (9 de Setembro, Lc 6, 12-19) fez-me deter e ligar o texto bíblico – “uma Força emanava d’Ele”- à canção “Que Força é essa, Amigo”. Esta canção tem vindo murmurantemente a habitar-me desde que começaram por todo o país as homenagens justíssimas ao Sérgio, sobretudo no Porto.
Deste modo interrompi o que vinha escrevendo sobre leitura/s das minhas férias que deixo para uma próxima crónica. Escolho a provocação que representa o Evangelho de hoje (“Uma força emanava d‘Ele ”) e a “força” da canção do nosso cantautor. São dois textos aparentemente divergentes mas procurarei encontrar pontes ou “entrepontes” entre eles. Porque têm a mesma força interpeladora.
Forçada a abreviar um pouco um poema tão belo, eis a canção que Sérgio canta ao/s amigo/s, convidando-os[nos] à força “da raiva”:
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades pr’ós outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força p’ra pouco dinheiro
(…)

Os Sobreviventes é o primeiro álbum de estúdio de Sérgio Godinho, lançado em 1972.
Foi gravado no Strawberry Studio, de Michel Magne, no castelo de Hérouville em França, nos últimos dias de Abril de 1971. “Que força é essa?” é a primeira faixa do álbum.
Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
Que força é essa? Amigo (…)
Que te põe de bem com outros
E de mal contigo?
(…)
Não me digas que não me compr’endes
Quando os dias se tornam azedos
Não me digas que nunca sentiste
Uma força a crescer-te nos dedos
E uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr’endes
Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
Que força é essa? Amigo (…)
(…)
Construir as cidades pr’ós outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força p’ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p’ra pouco dinheiro
Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
Que força é essa? Amigo
Vou usar a palavra “Amigo”, “Companheiro” para falar de Jesus Cristo (meu Centro e minha Vida em Deus). E desde já direi que a “ligação” com o autor da canção “Que força é essa” poderá parecer estranha a alguns…. Peço então que aceitem a minha liberdade poética e espiritual. Não pretendo fazer teologia.
A canção do Sérgio interpela, grita a outros que que não se conformem: Que força é essa, amigo, que “só te serve para obedecer”? insistindo teimosamente: “Não me digas que não me compreendes”. Numa dimensão completamente outra, Cristo também interpela indiretamente os seus apóstolos e os amigos que reconheciam que “uma força emanava d’Ele” … e “toda a multidão procurava tocar-lhe”:
¹² Aconteceu que, naqueles dias, Jesus foi para a montanha fazer oração e passou a noite a orar a Deus.
¹³ Quando nasceu o dia, convocou os seus discípulos, e escolhendo doze dentre eles, chamou-lhes apóstolos (…)
¹⁷ Descendo com eles, ficou num sítio plano, juntamente com uma multidão numerosa de discípulos dele,
e com uma grande enchente de povo de toda a Judeia, (…)
¹⁸ que viera para o ouvir e ser curada das suas doenças,
Os que eram atormentados por espíritos impuros ficavam curados.
¹⁹ E toda a multidão procurava tocar-lhe, pois uma força emanava dele que a todos curava.
(Lucas 6:12-19, trad. de Frederico Lourenço)
Segundo a tradição bíblica, dos seus inúmeros discípulos Cristo escolheu os doze apóstolos que tiveram um lugar privilegiado ajudando-o na sua missão. Ora na sua origem grega a palavra “apóstolo” significa “mensageiro”, “aquele que é enviado em missão”. Será que poderei afirmar Sérgio Godinho como um discípulo ou mesmo um “apóstolo” cuja missão é desinquietar – um apóstolo da “resistência,” um “desobediente” em relação ao status quo, um inconformado que nos interpela?
Penso que a Força que emanava de Cristo “e a todos curava” era uma força interpeladora – sim! – mas dessa força emanava também um convite à desinstalação, a avançar sem medo, a lutar por um mundo melhor, a ir além do imediato…? Será que Jesus Cristo não estaria também a desafiar os discípulos e o povo judeu a um modo outro de viver: “não me digas que não me compreendes”?
Lemos e sabemos que, com frequência, Cristo fez interpelações deste tipo ao longo da sua vida pública, por exemplo, em Lc 7, 31-35: ”A quem hei-de comparar esta geração… são como crianças” (…) “De João Batista dizíeis: tem o demónio com ele”. Veio o Filho do Homem: “é um glutão e um ébrio…”. E em Mateus 21: “Jesus entrou no templo e expulsou [com um chicote feito de cordas] todos os que vendiam e compravam no templo e revirou as mesas dos cambistas e os bancos dos que vendiam as pombas: ‘A minha casa será chamada casa de oração, vós porém fazem-na um antro de ladrões’ ” (Mt 21, 12-13, versão Frederico Lourenço). Será que Jesus nesse momento não terá sentido, na sua indignação, “uma força a crescer-[Lhe] nos dedos” (…), “uma raiva a nascer [Lhe] nos dentes”? Uma enorme impaciência perante os corações duros dos judeus que não compreendiam a sua missão?
A canção do Sérgio é um desafio muito provocador. Poderá ser então uma espécie de “pregação” ou então uma indignação semelhante à de Jesus Cristo no templo? Essa indignação da canção é acentuada pelas repetições. Repete à exaustão – com a ênfase dada pelo refrão – aquilo com que é preciso que não nos conformemos: a injustiça, a exploração, a pobreza, as desigualdades, os dias “azedos”, o “desperdício” da força (“muita força p’ra pouco dinheiro”); a autodestruição, a exclusão, a obediência cega ou timorata… lembrando aos Amigos pobres, tristes, injustiçados que poderá haver uma saída que será o resultado dessa indignação…
O Evangelho de Lucas convida-nos a receber, a estar atentos/as à “força que cura”. Lembro ainda que esta passagem do Evangelho de Lucas antecede a sua narrativa das Bem-Aventuranças (Lc 6, 20-26). Formato mais interpelativo e desafiador de um projeto de vida não pode haver!
O Evangelho e a canção entrelaçam-se e eventualmente completam-se: a força serena que emanava de Jesus Cristo e que a todos curava; a força indignada da canção do Sérgio que interpela, desinstala, convida ao inconformismo e à ousadia de lutar. A força de uma canção de protesto. A força espiritual de Jesus, a força interior de quem sobe à montanha ou vai para o deserto para rezar ao Pai antes de descer e poder “curar”: a cura do corpo, a cura da alma. Uma força tão profunda que transpõe o imediato, intuímos e rezamos nós.
Numa outra canção Sérgio Godinho também convida os Amigos [e a nós] a reiniciar/mos as nossas vidas: “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”. Porque a força que Sérgio canta é uma força transformadora: a força do confronto com a injustiça, a raiva e a coragem de afirmar os nossos direitos, força essa que nos pode levar a recomeçar as nossas vidas de outra forma – “hoje é o primeiro dia”. No Evangelho tocamos uma força serena que transforma e que é inicialmente produto da oração e da contemplação (“foi para a montanha fazer oração”). É também uma força que nos diz que “não estamos sozinhos”: uma força persistente que nos faz recomeçar diariamente “o resto da tua vida [das nossas vidas]”:
(…)
A princípio é simples anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no burburinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida (…)
(…)
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida (…)

Sérgio Godinho, Padre Martins Júnior, Trovante. Ribeira Seca (Machico, 1978). Foto DR
E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
(…)
Em fim de uma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida(…)
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
Vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
(Sérgio Godinho e Jorge Palma)
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida: desafia-nos Sérgio Godinho. Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida convida Cristo ao apresentar-nos o desafio das Bem-Aventuranças (Lc 6, 20-26).
Assim seja.
Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal. Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com










