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Maria Ondina Braga

Maria Ondina Braga, 100 anos

Que nem para morrer há um lugar

Maria Ondina Braga. Foto: Direitos reservados

Maria Ondina Braga. Foto: Direitos reservados

Em 2016 publiquei um pequeno roteiro para uma fotobiografia da Maria Ondina Braga, a minha querida tia Ondina, cujo título – e fico só e falo com as sombras – era uma expressão da própria em carta a um amigo próximo, corria então veloz a década de setenta. Mais que um desabafo, uma constatação. A sua vida assim. O resto um sobejo inútil.

O texto que se segue, que incluí nesse livro, traduz a minha memória da Maria Ondina. Talvez seja adequado para celebrar o centenário do seu nascimento [cuja data passou a 13 de Janeiro último].

 

Que nem para morrer há um lugar

Os livros estearam a sua solidão e a voz foi sóbria. A escrita uma depuração de séculos, que os anos não se contam tão depressa. E uma atenção precisa, dorida, ao que de filigrana existe na volúvel e incerta condição humana.

Da tia Ondina guardo, outrossim, a voz grave, simultaneamente longínqua e quente, a transparência das mãos e do olhar, o perfume do chá ao correr da noite. Guardo as serpentes e o corpo translúcido das osgas. As janelas altas onde se demorava a lua. O bulício dourado do Natal, o comboio nocturno em que partia. Guardo ainda a voraz tenacidade dos seus olhos, o riso de menina, passos de pássaro sobre a vida em torno.

Com ela aprendi que nem todas as palavras são iguais. Que se distinguem tanto pela textura como pelo aroma, às vezes ainda, quando colhidas no limiar da noite, pelos fios de silêncio que atravessam. Ou por tudo aquilo que não dizem.

Com ela habitei a espessura da Terra quando o meu corpo era pequeno e os olhos tudo viam por dentro. Ensinou-me que só o longe é perto e que não somos nós feitos de raízes, mas de vento. Que nem para morrer há um lugar. Que os dias acumulados são inúteis. A força gravítica uma impostura.

Por isso anotou, no papel acetinado de um caderno barato, entre os poucos poemas que guardou,

Cheguei ao Oriente e a alma
súbito desabrochou em flor rara,
clara, transparente.

Sensitiva flor, tão frágil, tão nua,
que a crestam os ventos de qualquer jardim.

Vivia em Macau então, nos primeiros anos da década de 60. E depois ainda,

– Oh, quem ma arrancasse, ébria de lua,
E a desse de presente a um mandarim

Um dia, quando escrever se tornara já uma ardência amarga, que até a solidão lhe consumia, quiseram explicar-lhe ser um negócio o tempo, mundana cerimónia a literatura. Ela, porém, muda, quase invisível. Sabia-se parte dessa espera imensa onde as mulheres perduram, e seus olhos luzentes se mediam:

Eu morri há muito tempo
ando morta pela rua.

E, no entanto,

Morri num dia de vento,
de tufão no sul da China.
Um dia de lembramento
como outra vez nascimento
como outra vez ser menina.

Quando, muitos anos mais tarde, eu próprio em Macau, este poema em mim, uma vertigem. Deixara-a, dias antes, tão doente já, quase sem voz, o olhar perdido para dentro de si própria.

E num repente, escavada a pele desaparecida da cidade, o casario. O velho que amestrava pássaros. O menino que a guiava no Porto Interior. A esquina do Colégio de Santa Rosa de Lima. O clube dos oficiais onde dançava aos Sábados. As alunas chinesas e suas confidências. O incenso a arder nos umbrais dos prédios.

Uma vertigem, pois, quase um remorso, em mim. A consciência súbita de que ali terminava um lugar imaginário de onde o Verão partia. E com ele a infância, e essa invulnerabilidade à morte que a sustenta.

Vinda do mar, então, a tempestade. A tia Ondina, julgo tê-la escutado ainda no vórtice do tufão. Dias seguidos sem sair de casa. As árvores descarnadas. Macau desaparecendo sobre a água alada. Ela morrendo no outro lado do mundo:

Sem passado nem futuro
não me encontro medição.
E o gesto é nulo e puro
como conceber do escuro
como dar passos sem chão.

Não foram os anos fáceis nem sem tumulto o vento. E, no entanto, nunca seu coração se esvaziou.

 

Três poemas para Maria Ondina, três fotografias da sua vida

Maria Ondina Braga

goa, 1959

aprendeu a reconhecer a luz pelo aroma
quando o pressentiu de lume no mercado de pangim

pensou
o homem verdadeiro quando imóvel
queima
é voraz a sua imobilidade
sóbria incandescência a lava do seu sexo

mordera-lhe os olhos disse
enquanto a boca alcançava a mais recôndita porosidade da pele

não chegou a vê-lo
um tupi negro sobre a cabeça nua
os pés como arestas de rios
onde as cores se ausentam

só perante ele dobrou os anéis do corpo

 

 

a revolta das palavras, 1975

há um ponto neste livro onde o conto é mudo
e a narrativa se contrai na vertiginosa progressão
da exposição solar

quando o termina
pressente no seu tempo um tempo que a demora
lhe é alheio e a que contudo só
intermitentemente escapa

escrevem-lhe solicitam-na querem saber se
e quando as urgências
multiplicam-se o país perturba-a
de uma forma epicamente pública
como nunca até então acontecera

(só os olhos escutam sob o rigor da idade
a discreta hesitação da liberdade)

explica-me que uma vez por vida a história
aflora triunfante ao limiar da pele
e que nessa altura as palavras se aceleram
e as sílabas se distendem num descerrar de vísceras
incomoda-a profundamente tal impertinência
dias que se sucedem excessivos
inúteis instantâneos de luz falante
com seu cortejo de heróis acidentais

sua escrita persegue então mais húmil rumor
a transparente espessura dos pinhais

Maria Ondina Braga

Maria Ondina Braga. Foto: Direitos reservados

 

benfica, últimos anos

pensou:
o que sobra dos livros quando passam
em seu leito de pedra
e vento seco?

e de repente sentiu-se vulnerável às migrações dos pássaros
seus veios de jade sobre os céus do sul
sua presença rúptil e fantástica

habita neste bairro há exactamente trinta e cinco anos
sobe a rua às vezes tem vizinhos
faz doce de cereja arroz chinês
e está só
o rosto emudecido
a letra crua
um cesto de vime onde os lugares perduram

um ressumbro seu rosto levantado
contra o jogo fastidioso das imagens
e vão dizer
em que outros sobrevivem pra morrer

Maria Ondina Braga - casa de Benfica (Lisboa), onde habitou.

Casa de Benfica (Lisboa), onde habitou Maria Ondina Braga nos últimos anos da sua vida. Foto: Direitos reservados

Esclarecimento para um centenário

(Nesta nota, referida no Público na data dos 100 anos de nascimento, mas que o 7MARGENS publica agora na íntegra, por cedência da família, os familiares de Maria Ondina Braga esclarecem a questão de quando nasceu, de facto, a escritora.)

 

São muitos os tempos de que o tempo é feito; frágil a sua construção.

A Maria Ondina nasceu em Braga, no número 9 da Avenida Central, casa oitocentista de tectos altos, sacadas de pedra e pesadas janelas de guilhotina, no dia 13 de Janeiro de 1922.

O dia correspondente, mas em 1932, é a data de nascimento que a escritora Maria Ondina Braga tomou para si própria. Como outros escolheram um pseudónimo ou esculpiram um rosto onde voltar.

Desde aí, essa data impressa a fogo na letra do seu nome. Central à sua identidade literária, foi por ela repetida inúmeras vezes, em público e em privado, desenrolada laboriosamente, ano após ano. Um esteio, creio, para a sua solidão.

Ignoro as razões mais profundas dessa construção. Foi um segredo seu.

Uma tentativa, arrisco, de murar os anos frágeis da doença, na juventude, a que determinada pôs termo, no início da década de 1950, com a decisão súbita de partir para Londres. O desassombro não curaria a ferida, mas sobre ela lhe daria um insuspeito domínio.

Ou talvez a mágoa de ter lido um dia “a Maria Ondina a tudo chegou tarde”, por quem então melhor se comprazia na mundana cerimónia da literatura.

Ou, mais provavelmente, a convicção íntima de que todo o tempo é ficção e não se segura a vida a raízes, mas ao vento.

Uma coisa, porém, a fénix; outra, o voo imaginado. A Maria Ondina morreu em 2003, os anos correram, e mais e mais vulnerável a memória se tornou.

É verdade que, até hoje, este seu desejo sobre a pública notícia do seu nascimento foi honrado em todas as peças sérias, académicas ou jornalísticas, que sobre ela surgiram, e, de forma particular, pelo Museu Nogueira da Silva onde, em boa hora, a família fez o depósito do seu enxuto espólio literário. Fora da intimidade, a família fez o mesmo: a lápide na casa, o busto na Avenida, a pedra da própria sepultura apenas o seu nome acolhem.

No entanto, noutros registos, sobre um pretenso desajuste de calendários, acumularam-se suspeitas de trazer por casa, observações inflamadas, pedaços de retórica, minudências. Uma quinquilharia de circunstância tão estranha ao límpido rigor da sua escrita como ao enorme silêncio onde se ergueu. Alguém houve até que, diligente, entendeu juntar ao bolo uma certidão de nascimento. Tivesse sido, ao menos, o passaporte, esse sim, único papel da República que ela prezava como guardião da sua liberdade.

Chegamos deste modo a 2022, ano de importância dupla.

Por um lado, uma centena de anos nele se cumprem sobre essa manhã de Inverno que misteriosamente, de uma voz antiga, sua voz colheu.

Por outro, nele se inicia a publicação da sua obra completa na Imprensa Nacional Casa da Moeda. Sol para os seus livros, foi sempre o que a Maria Ondina quis, ela que para si nada guardou. Talvez esta celebração seja caminho para à sua obra mais leitores trazer e, nesse sentido, este esclarecimento pareceu necessário.

Assim, e para evitar distracções futuras, quis a família, por uma vez, dizer o que aqui disse.

Sobre os tempos móveis que pontuaram a sua vida despojada e luminosa a própria Maria Ondina esclareceu: “Sem passado nem futuro / não me encontro medição”. De facto, os dias de calendário são inúteis quando, ouvindo-a de novo, “o gesto é nulo e puro / como conceber do escuro / como dar passos sem chão”.

(luís soares barbosa, em nome da família da Maria Ondina)

 

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