Francisco tocou milhões de fiéis em todo o mundo, e “especialmente aqueles e aquelas da comunidade LGBTQIA+”, tendo sido “um farol de esperança para muitos”, sublinha a associação portuguesa Rumos Novos – Católic@s LGBTQIA+ em Ação, numa mensagem de reação ao falecimento do Papa. E deixa um apelo: “que o legado de Francisco de empatia e respeito nos inspire a continuar a luta pela dignidade e pelos direitos de todas as pessoas, especialmente dos fiéis LGBTQIA+, no seio da Igreja”.
” As suas palavras de empatia, como ‘Quem sou eu para julgar?’, ainda que recebidas com resistência por parte de setores mais conservadores da Igreja, são sinais de esperança para muitos e muitas que há tanto tempo se sentem à margem e, esperamos, plantaram sementes importantes para um futuro de maior empatia, esperança e respeito”, pode ler-se na nota à imprensa da Rumos Novos, enviada ao 7MARGENS.
A associação reconhece que, embora tenha tido “divergências em relação a algumas das suas posições sobre questões LGBTQIA+”, apreciou os esforços do Papa Francisco “na promoção de uma Igreja mais inclusiva, acolhedora e misericordiosa, inclusive no que diz respeito à comunidade LGBTQIA+”.
Referindo-se à publicação da declaração Fiducia supplicans ou ao esclarecimento de que “pessoas transexuais podem ser batizadas e atuar como padrinhos ou madrinhas” como “iniciativas de uma inclusão não integral”, a organização lamenta ainda outras iniciativas como a aprovação da declaração Dignitas Infinita, “que classifica as cirurgias de redesignação sexual e a teoria de género como graves violações à dignidade humana”.
“O Papa Francisco procurou equilibrar, através de uma linguagem nova e não de uma reforma doutrinária, o acolhimento pastoral com a doutrina católica, infelizmente, não conseguiu alterar os ensinamentos tradicionais da Igreja Católica respeitantes às pessoas LGBTQIA+ de fé”, conclui a declaração da Rumos Novos, afirmando esperar “que a memória de Francisco seja uma bênção e fonte de esperança para as profundas mudanças de que a Igreja necessita”.
Na mesma linha, o diretor executivo do New Ways Ministry (grupo católico sediado nos EUA que defende a equidade, inclusão e justiça para pessoas LGBTQ+) afirmou na passada segunda-feira, 21 de abril, que “com palavras simples e gestos gentis, o Papa Francisco conduziu poderosamente a Igreja Católica a tornar-se um lar mais acolhedor para pessoas LGBTQ+”.
“Francisco não foi apenas o primeiro papa a usar a palavra ‘gay’ ao referir-se às pessoas LGBTQ+, como também foi o primeiro papa a falar com elas com amor e ternura. As suas gentis palavras de boas-vindas a essa comunidade, tradicionalmente marginalizada na Igreja, repercutiram-se em todo o mundo. A sua recomendação aos ministros pastorais e líderes eclesiásticos para que acompanhassem, ouvissem e dialogassem com as pessoas LGBTQ+ abriu portas que haviam sido seladas pela homofobia e transfobia de pontífices anteriores”, sublinha Francis DeBernardo.

Francis DeBernardo (à esquerda do Papa) foi recebido no Vaticano em outubro de 2023. Foto © New Ways Ministry
O líder da organização norte-americana, que teve oportunidade de se encontrar pessoalmente com o Papa Francisco, lembra também que houve áreas “em que o seu acolhimento não foi tão amplo como poderia ter sido”, nomeadamente a da identidade de género e das questões transgénero, em que “o pontífice aderiu estritamente ao binário de género masculino-feminino, referindo-se a qualquer nova compreensão da identidade de género como ‘ideologia de género’ ou ‘colonização ideológica’”. No entanto, destaca, “a sua incompreensão e caracterização errónea da identidade de género não impediram o Papa Francisco de estender a mão com compaixão às pessoas transgénero, pedindo continuamente que as pessoas respeitem a dignidade humana inerente destas minorias”.
Já Joe Stanley, presidente do Conselho Pastoral dos Católicos LGBT+ de Westminster (Inglaterra), também fez questão de recordar as palavras de Francisco durante o voo de regresso do Brasil em julho de 2013: “Se uma pessoa é homossexual, busca o Senhor e é de boa vontade, quem sou eu para julgar?”. Reconhecendo que “a humildade, a compaixão e o respeito expressos nesta frase não alteraram, é claro, os ensinamentos da Igreja”, o representante da organização não tem, no entanto, dúvidas: “marcaram uma importante mudança de tom em relação aos seus predecessores. Dessas palavras, extraímos grande encorajamento no nosso compromisso de vivenciar plenamente o nosso lugar no corpo de Cristo”.










