[domingo xviii do tempo comum ― c ― 2025]
1. Vivemos dias escaldantes, abrasivos em várias dimensões.
O sol não dá tréguas; queima até ressequir os ossos e as palhas.
É urgente todo o cuidado para evitar malefícios maiores
como o aumento da mortalidade, sobretudo entre os idosos,
e o perigo dos incêndios que, danosamente, têm assolado o país.
Levemos a sério o pedido de «alerta geral» emitido pelas autoridades,
para hoje e os próximos dias, devido à onda de calor extremo.
Vigiemos os nossos montes densamente florestados,
lembrando-nos que, em 2006, sem o apoio dos meios aéreos,
ficaram reduzidos a cinzas no grande incêndio.
Atendamos, também, às crianças e aos idosos,
que correm mais perigos com as temperaturas elevadas.

[Helicóptero de combate a incêndios sobre Braga © fotografia: Joaquim Félix]
2. Por sinal, esta semana, visitei com minha mãe
três pessoas anciãs: a Ti Marinhas, com 98 anos,
e o Ti Bernardo e sua esposa Lurdes, de 82 e 83 anos, respetivamente.
Dos diálogos com eles, pareceu-me ouvir ressonâncias,
não de exames hospitalares,
mas das palavras de Coelet.
Conscientes de que têm de deixar tudo a outros, filhos ou sobrinhos,
sentiam ser mais relevante o sentido dos trabalhos durante a vida.
Em eco de fundo, expandia-se no vale do seu pensamento a questão:
«Mas então, que aproveita ao Homem todo o seu trabalho
e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol?» (Co 2,22).
Nenhum deles disse: «Vaidade das vaidades: tudo é vaidade» (Co1,2).
Antes, agradecidos, reconheciam que a vida entrou na outunalidade,
misturando dores difusas à redução das memórias e forças.
De dores, sim, como a Ti Iracema que, do alto da varanda, me acenou;
ela que anda a recuperar de uma ferida no pé sem pressa em cicatrizar.

[Desde o seu nascer, o sol não dá tréguas © fotografia: Joaquim Félix]
3. Levamos-lhes duas bacias de nectarinas vermelhas.
Que fazer com a abundância dos frutos nos pomares?
Uma solução poderia ser semelhante à do «homem rico» (Lc 12,16)
referido por Jesus na parábola que nos contou:
desfazer-se das antigas arcas frigoríficas para adquirir outras maiores.
Não seria esta uma via avarenta?
Acumular no tempo-das-partilhas é uma insensatez.
E dizer a si mesmo:
«Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos.
Descansa, come, bebe, regala-te» (Lc 12,19)
constitui um crime-de-indiferença contra a humanidade.
As árvores libertam-se dos seus frutos,
não se importando que até as aves e as abelhas os comam.
Generosas, elas testemunham o cuidado com o desejo dos famintos.

[Cuidado com o desejo dos famintos © fotografia: Joaquim Félix]
4. Por vezes, Deus proporciona a abundância,
não com o fim de acumular, desperdiçar ou prender o coração,
mas para que possamos ser ricos a distribuir?
Seremos nós, no mundo e nas relações de fraternidade,
administradores de bens que, no fundo, não nos pertencem?
Santo Ambrósio e vários outros padres da Igreja
desenvolveram longamente este pensamento
a partir do ensino e da prática de Jesus.
É pela generosidade e no espírito de magnanimidade
que mais poderemos ser sinal da imagem e semelhança de Deus.
Demos com alegria e seremos mais humanos, isto é, mais divinos.
A riqueza, «aos olhos de Deus» (Lc 12,21), é uma distribuição.

[Jovens de Portugal, Cabo Verde e Moçambique distribuindo a água do rio Vizela © fotografia: Joaquim Félix]
5. Este repto constitui um dos princípios da Doutrina Social da Igreja
que ficou bem vincado na constituição «Alegria e Esperança»
(a Gaudium et Spes) do II Concílio do Vaticano:
«Deus destinou a Terra, com tudo o que ela contém,
para uso de todos os homens e povos;
de modo que os bens criados devem chegar equitativamente a todos,
segundo a justiça, inseparável da caridade.
Sejam quais forem as formas de propriedade,
conforme as legítimas instituições dos povos
e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias,
deve-se sempre atender a este destino universal dos bens.
Por esta razão, quem usa desses bens,
não deve considerar as coisas exteriores
que legitimamente possui só como próprias,
mas também como comuns,
no sentido de que possam beneficiar não só a si,
mas também aos outros» (GS 69).

[Benefícios comuns de uma fonte, na Piazza del Popolo, Roma © fotografia: Joaquim Félix]
6. Subindo para Jerusalém, Jesus é confrontado
por alguém, do meio da multidão, a propósito das suas partilhas.
Ele, porém, não é ― como por vezes faz falta,
para compor os herdeiros em desavenças ―
solicitador, juiz, árbitro ou avaliador nos processos de heranças.
S. Lucas constrói a narrativa evangélica
de modo a salientar como Jesus instrui os verdadeiros discípulos.
Tudo aquilo que Ele lhe diz, em tom amical,
vale para todos nós, seus discípulos:
«Vede bem, guardai-vos de toda a avareza:
a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens» (Lc 12,14).
Efetivamente, a avareza é uma insensatez,
ou, como referia S. Paulo aos Colossenses, «uma idolatria» (Col 3,5).
Se devemos esforçar-nos por dar a morte a algo vivo,
não pensemos em pessoas para degolar e entregar as cabeças à polícia,
mas na avareza, nos maus desejos e em tudo o mais da lista paulina.
7. Quem, de verdade e por justiça, não esperaria a morte
são os milhares de vítimas inocentes,
assassinadas inclusivamente dentro da sua igreja
― enquanto, notemos, celebravam o jubileu ―,
como sucedeu, há dias, na República Democrática do Congo,
ou, nas suas casas, em Kiev e noutros lugares atacados.
Mais, neste «capítulo dos horrores»,
nos dias escaldantes que são também nossos,
permiti que fira a nossa memória
com o que se está a passar em Gaza e na Cisjordânia.
8. No dia 30 de julho, o jornal norte americano The Washington Post
publicou os nomes de todas as crianças assassinadas em Gaza,
nem mais, 18 500 ― sim, repitamos, 18 500 ―,
correspondendo a 31% de um total de quase 60 000 vítimas.
Arrepia ler tantos nomes, na lista quase infinda, em inglês e árabe.
Também arrepia a forma como o jornal começa a sua reportagem,
dando nota de uma constatação da Unicef:
a Faixa de Gaza é o lugar mais perigoso para se ser criança.
Há expressões que nos deixarão a pensar:
«Alguns foram mortos na sua cama» (…)
outros enquanto brincavam.
Muitos foram enterrados antes de aprenderem a andar».
9. Ontem mesmo, foi divulgada uma Nota
da Comissão Justiça e Paz da arquidiocese de Braga
sobre a guerra em Gaza.
Breve, talvez para ser mais acutilante nos seus gumes,
nela se dá conhecimento da publicação do The Washington Post,
mas com um detalhe que vai para além dos nomes:
«É uma lista impressionante,
assaz eloquente sobre o genocídio em curso,
que dizimou 953 crianças antes de fazerem um ano,
943 com um ano, 972 com dois anos, 899 com três anos,
868 com quatro anos, 985 com cinco anos, 924 com seis anos».
Convidando a lê-la na íntegra e a nela nos demorarmos,
a Nota prossegue, para nos desafiar a um grito:
«Mesmo quem, em vez de ler devagar,
percorrer com um olhar apressado a extensa lista
com o nome destas crianças assassinadas premeditadamente
não deixará de sentir uma dor pungente que impõe o dever de um grito:
“Basta!”».

[Impõe-se o dever de um grito: “Basta!” © fotografia: Joaquim Félix]
10. Por estes dias, não têm faltado vozes de denúncia,
inclusive de duas ONG de Israel,
ou de subscrições, que também podemos assinar ― é uma sugestão ―,
contra o genocídio que Israel está a praticar.
Além disso, mais de 1000 rabinos escreveram uma Carta Aberta
na qual denunciam Israel por usar a fome como «arma de guerra».
As imagens não carecem de legendas;
elas falam ultrapassando milhares de palavras, são gritos lancinantes!
Os corpos das crianças com a pele colada aos ossos constituem
um apelo à partilha de alimentos, não à avareza estratégica.
Para termos noção do cenário dos preços,
bastará considerar que, em Gaza, neste momento,
1 kg de cebola custa 30 euros
e 1 kg de açúcar ronda os 92 euros;
antes do conflito, custavam 50 e 80 cêntimos.
Outro preço injustificado é a subnutrição infantil: aumentou 180%.

[Mais de 1000 rabinos escreveram uma Carta Aberta na qual denunciam Israel por usar a fome como «arma de guerra» © fotografia: Joaquim Félix]
11. Deus não lança alimentos desde aviões em paraquedas.
Antes, fez com que o seu filho, Jesus, tomasse a nossa carne,
a fim de dar-se, sem avareza nem inveja, como nutriente da vida.
Parafraseando o salmo 89,
podemos até ser como as ervas dos telhados no estio,
mas, com a sabedoria com que Ele nos ensina a contar os dias,
havemos de aprender, como discípulos seus, a praticar uma fé
que glosará quanto escreveu Jorge de Sena
no poema «Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya»:
«Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
Vale mais do que uma vida ou a alegria de tê-la».

[Deus não lança alimentos desde aviões em paraquedas © fotografia: Joaquim Félix]

[Podemos até ser como as ervas dos telhados no estio. Convento Franciscano, Monte Palatino, Roma © fotografia: Joaquim Félix]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 3 de agosto, domingo xviii do tempo comum ― c, proferida pelo padre Joaquim Félix na Capela de Nossa Senhora do Pilar, em Aldreu (São Tiago), Barcelos.











