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Quem é o meu próximo?

| 23/02/2025

 

Foi com grande surpresa que li a suposta justificação teológica da deportação massiva de imigrantes que está a desencadear-se atualmente nos Estados Unidos, por parte do seu vice-presidente, J. D. Vance, um católico convertido. Colocou-se este dessa forma contra a posição do Papa Francisco e dos bispos desse país, que já então haviam manifestado a sua clara oposição a essa deportação. Verdade seja dita que isso também me fez lembrar a posição do anterior presidente Joe Biden, também católico, que se opôs claramente à doutrina católica a respeito da legalização do aborto.

J.D. Vance, invocando Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, aludiu à doutrina tradicional sobre a ordo amoris, segundo a qual existe uma hierarquia de prioridades dos destinatários da caridade cristã: primeiro a família, depois os membros da comunidade nacional e só depois os estrangeiros e a humanidade em geral. Daí que seja legítimo que os governos sobreponham os interesses dos nacionais aos dos estrangeiros imigrantes, que poderão ser discriminados e deportados (nos termos em que o estão a ser) em nome desses interesses.

Donald Trump e JD Vance Foto The White House

“Na verdade, trata-se de uma distorção doutrinal que põe em causa a universalidade do amor cristão e que se aproxima mais de uma espécie de tribalismo pagão (“nós primeiro”, “os nossos contra os outros”).” Foto: Trump e JD Vance © The White House

A esta tese respondeu o Papa numa mais recente carta dirigida aos bispos norte-americanos (ver 7MARGENS).

Na verdade, trata-se de uma distorção doutrinal que põe em causa a universalidade do amor cristão e que se aproxima mais de uma espécie de tribalismo pagão (“nós primeiro”, “os nossos contra os outros”). O amor cristão, mesmo que no respeito da referida ordem de preferência, nunca exclui ninguém, é sempre inclusivo, nunca excludente. Amar preferencialmente os nossos pais, os nossos filhos ou o nosso cônjuge não nos coloca contra ninguém. Amar preferencialmente os nossos compatriotas não implica qualquer forma de ódio, ou sequer hostilidade, para com os estrangeiros (é isso que distingue o são patriotismo do chamado “nacionalismo de exclusão”). Do mesmo modo, e numa outra perspetiva também relevante, o amor preferencial para com os pobres não implica o ódio ou a luta de classes. Pois se Jesus nos pede até o amor ao inimigo (que já alguém considerou a mais caracteristicamente cristã e mais inovadora e radical revolução ética da história) …

É verdade que por vezes se invoca um amor à humanidade em abstrato e no plano político esquecendo um amor mais concreto (e, por isso, por vezes mais exigente) para com quem está ao nosso lado ou nos bate à porta (e está, por isso, no primeiro círculo da “ordo amoris”). Mas uma e outra dessas dimensões do amor (a interpessoal e a social e política) não são incompatíveis, completam-se.

No âmbito específico da imigração, não é sequer adequado contrapor os interesses dos nativos aos interesses dos estrangeiros. Eles não são incompatíveis. Demonstra-o a história, dos Estados Unidos, de Portugal e de muitos outros países: as migrações podem beneficiar países de origem e países de acolhimento.

Esta dimensão inclusiva e universal do amor cristão, que implica a renúncia à hostilidade para com o estrangeiro, já se pré-anuncia no Antigo Testamento: «O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque fostes estrangeiros na terra do Egito» (Lv 19, 33-34)

No Evangelho, para responder à pergunta sobre quem é o “próximo” que devemos amar, Jesus dá o exemplo da ação de um samaritano, uma figura alvo da hostilidade dos judeus daquele tempo (um pouco como são hoje, em muitos ambientes, alvo de hostilidade migrantes de outras etnias ou ciganos). Isso mesmo salientou o Papa Francisco na referida carta aos bispos norte-americanos, como já havia salientado na sua encíclica Fratelli tutti (cujo tema é, precisamente, o da fraternidade universal).

Nessa encíclica também podemos encontrar esclarecedoras afirmações sobre a harmonia e complementaridade entre o amor de proximidade (familiar e patriótico) e o amor universal.

Se é verdade que:
«Tal como não há diálogo com o outro sem identidade pessoal, assim também não há abertura entre povos senão a partir do amor à terra, ao povo, aos próprios traços culturais. Não me encontro com o outro, se não possuo um substrato onde estou firme e enraizado, pois é a partir dele que posso acolher o dom do outro e oferecer-lhe algo de autêntico. Só posso acolher quem é diferente e perceber a sua contribuição original, se estiver firmemente ancorado ao meu povo com a sua cultura. Cada qual ama e cuida, com particular responsabilidade, da sua terra e preocupa-se com o seu país, assim como deve amar e cuidar da própria casa para que não caia, ciente de que não o virão fazer os vizinhos.» (n. 143).

Também é verdade que:
«Há narcisismos bairristas que não expressam um amor sadio pelo próprio povo e a sua cultura. Escondem um espírito fechado que, devido a uma certa insegurança e medo do outro, prefere criar muralhas defensivas para sua salvaguarda. Mas não é possível ser saudavelmente local sem uma sincera e cordial abertura ao universal, sem se deixar interpelar pelo que acontece noutras partes, sem se deixar enriquecer por outras culturas, nem se solidarizar com os dramas dos outros povos. Este “localismo” encerra-se obsessivamente numas poucas ideias, costumes e seguranças, revelando-se incapaz de admirar as múltiplas possibilidades e belezas que oferece o mundo inteiro, e carecendo duma solidariedade autêntica e generosa. Deste modo, a vida local deixa de ser verdadeiramente recetiva, já não se deixa completar pelo outro; consequentemente, fica limitada nas suas possibilidades de desenvolvimento, torna-se estática e adoece. Na realidade, toda a cultura saudável é, por natureza, aberta e acolhedora, pelo que “uma cultura sem valores universais não é uma verdadeira cultura” (n. 146).

O amor cristão é assim: dirigido a cada um e a todos, e nunca contra ninguém.

 

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica. 

 

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