Na véspera da reunião da Assembleia-Geral do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade, o 7MARGENS convida os seus leitores a dizerem o que esperam deste importante acontecimento. Todos são chamados a expressarem-se. Divulgamos hoje o quarto texto recebido (ver textos já publicados) e publicaremos as respostas àquela interrogação à medida que nos forem chegando.

Que espero eu da Assembleia-Geral do Sínodo dos Bispos deste outubro?
Da pergunta, feita pelo 7MARGENS, aos seus leitores, deduzem-se duas questões distintas: desejo pessoal e antecipação independente que possa ser feita sobre debates e conclusões.
Quanto ao desejo pessoal.
Gostava que, diariamente, dos trabalhos da assembleia saíssem ecos e informação suscetíveis de captar a atenção de católicos e pessoas de boa vontade do mundo inteiro, que os atraíssem a terem o gosto de se deixarem envolver nesse caminho sinodal.
Desejaria que conteúdos da reflexão da Assembleia-Geral do Sínodo fossem assumidos pela linguagem das eucaristias dominicais, em espaço próprio, convocando e comprometendo o povo cristão com a dinâmica sinodal.
Ficaria feliz se grupos de católicos em Portugal considerassem a oportunidade para se reunirem, com o especial propósito de acompanhar e debater o desenrolar dos trabalhos da assembleia sinodal e, mais tarde, prosseguirem a reflexão sobre indicações que possam transitar para a assembleia de 2024.
A assembleia sinodal reunida em Roma, não diz respeito, apenas, aos delegados que a integram. Se, de facto, reflete contributos de milhares de cristãos, recolhidos na “fase de escuta”, então, necessariamente, deveria comprometer e envolver os batizados responsabilizados no propósito de prosseguir o discernimento.
Aspiraria, pois, que assim se procedesse.
Não desejaria, sobretudo, que a assembleia sinodal em Roma passasse ao lado dos católicos, tal como, para a esmagadora maioria das comunidades locais, o sínodo do Patriarcado de Lisboa se tornou irrelevante.
Evidentemente, ficaria imensamente feliz se o “sopro do Espírito” fizesse brotar a consciência da assembleia sinodal para a emergência de grandes questões atuais: do “cuidado da casa comum” aos assuntos internos continuamente adiados.
Desde logo, a questão dos pobres que hoje têm vários nomes: não são já, apenas, os sem abrigo, iletrados, desempregados, doentes isolados, pessoas sem teto nem chão, tantos deserdados da sorte, famílias de parcos recursos; a legião de pobres é, agora, multiplicada por milhares de membros de minorias étnicas, escorraçados dos territórios naturais, e por tantos outros milhares de migrantes que fogem à procura de sobrevivência.
Diz-se que ninguém pode ser deixado para trás.
Olhe-se com atenção a cidade, vejam-se assembleias, desvendem-se diferentes comunidades, indaguem-se ambientes e formas de relacionamento, e não será difícil descobrir muitas pessoas desirmanadas, desajustadas em modelos que as excluem. No terreno sagrado da Igreja, em múltiplas e diferentes estruturas, encontram-se pessoas concretas, com nome e história de vida, batizados, mas sem voz. Podem ser pobres materiais ou de espírito, de orientação sexual fora do “padrão”, casados ou recasados, separados, pessoas com igual dignidade batismal, mas votadas pela disciplina interna, diria, condenados pela “norma”, a viver à parte.
Como seria agradável reconhecer o “sopro do Espírito” a insuflar a consciência dos participantes da assembleia sinodal, ao ponto de os conduzir a novo discernimento e inspirador entendimento sobre a sexualidade humana?
Como seria agradável receber da assembleia sinodal novas linhas orientadoras relativamente ao ministério ordenado na relação com os ministérios batismais?
Quanta alegria emergia se o “sopro do Espírito” tocasse a consciência dos membros da assembleia sinodal e os levasse ao discernimento de reclamarem “tolerância zero” ao clericalismo, em favor do serviço e de uma presença mais ativa, empenhada, e consentida aos leigos e pessoas consagradas, portadores de inúmeros dons, ao serviço de uma igreja missionária?
Como seria mobilizador recolher da assembleia sinodal fecundos sinais de promoção da dignidade batismal das mulheres e de edificação do papel que possam assumir nessa mesma igreja missionária?
Podem milhares de batizados permanecer arredados do banquete eucarístico por normativo de pena perpétua, acentuando o enorme sofrimento causado por famílias destruídas e castigando outras que, renovando votos sinceros de amor, se reconstituiram? Como seria exultante sentir os efeitos do “sopro do Espírito” a interpelar a consciência da assembleia sinodal e a pedir que rasguem novos caminhos a fazerem-se luz!
Devem estruturas eclesiais continuar intocáveis? A instituição paróquia, por exemplo, parcela mais visível e próxima do povo crente, pode continuar a correr o risco de se traduzir, simplesmente, em dispensário de serviços religiosos?
Como se revelará o “sopro do Espírito” aos participantes da assembleia sinodal se chamados a refletir sobre dinâmicas de paróquias e de comunidades que a edifiquem?
A meu ver, entre outros, dois desafios proféticos que atualmente se colocam à Igreja, têm nome próprio: jovens e catecumenato adulto. Como chegar a uns e mobilizar outros, ou dito de outra forma, nestes campos, como deverá manifestar-se a igreja missionária? Qual o entendimento que os membros da assembleia sinodal de Roma farão do “sopro do Espírito” relativamente a estas matérias?
Como privilegiar dinâmicas de novas comunidades preocupadas com problemas candentes deste tempo que é o nosso, da precariedade do emprego e demais questões do trabalho ao uso da inteligência artificial, de modo a fazer crescer na Igreja o desejo ardente de, com todos os seus membros, desbravar esses terrenos e neles avançar, fazendo-o em caminho sinodal? Será que o “sopro do Espírito” irá abrasar o coração dos participantes da assembleia sinodal e conduzi-los a tal discernimento?
As expetativas podem ser muitas e variadas. Situar-se entre teses próximas da Igreja Católica da Alemanha ou resvalar para outros níveis de entendimento, mais retrógrado, como, por exemplo, os assumidos por bispos dos Estados Unidos da América. Os alemães mais próximos do Papa Francisco, mas, ainda assim, em choque com orientações da Santa Sé, enquanto a poderosa hierarquia estadunidense, sempre que pode, não se exime de hostilizar o Santo Padre.
Neste quadro, será interessante aguardar pelas posições de delegados de outras geografias, nomeadamente, África, América Latina e Ásia.
Talvez por recordar o desfecho do Sínodo para a Amazónia (2019), ou o lapidar pensamento de Lampedusa (1896-1957) “algo deve mudar para que tudo continue na mesma”, sinto-me inclinado a não esperar grandes conclusões dos trabalhos sinodais, suscetíveis de conduzir a alterações significativas no modo de pensar e agir da Igreja Católica. Se tais previsões se revelaram acertadas, faltará saber se tal ficou a dever-se a desígnios do “sopro do Espírito” ou a qualquer distração dos membros da assembleia sinodal, reunida ao Roma.
Fala o Papa Francisco de uma igreja para “todos, todos, todos”!
Os que cá andamos sabemos, infelizmente, que ainda não é bem assim!
Por mim, acredito no genuíno interesse, talvez até, em alguma intuição divina do Papa Francisco para conduzir a Igreja por luminosos caminhos sinodais. Consciente de que está a trilhar um caminho de pedras, tremendo de dificuldades e incompreensões, o Papa manifesta não ter pressa, deseja que todos o acompanhem neste tempo de discernimento. Compreende-se, assim, que tenha marcado, antecipadamente, a continuidade dos trabalhos da assembleia sinodal para outubro de 2024.
O caminho faz-se caminhando…
Seja como for, e apesar de intimamente até desejar o contrário, a verdade é que, não me vejo com altas expetativas, quanto aos resultados do sínodo.
Não obstante, sinto uma réstia de Esperança.
José António Santos é jornalista.










