[domingo xv do tempo comum ― a ― 2026]
1. Começámos por ouvir Deus a evocar a chuva e a neve.
Por mais hidratante que seja para o pensamento,
poderá constituir uma provocação em meados de julho,
sobretudo depois de termos vivido, há poucos dias,
uma onda de calor extremo, particularmente agressiva,
que, devido ao bloqueio dos ventos marítimos,
nos atingiu com massas de ar quente vindas desde o deserto do Saara.
A promessa de alguns aguaceiros e a suavidade deste dia
não amaciam nem escamoteiam, porém, dados preocupantes
que o Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas
reportou na semana passada: o mês de junho de 2026
foi o mais quente de sempre na Europa Ocidental
e o segundo mês de junho mais quente a nível global.
Procuremos, pois, ao longo do verão, acautelar males maiores,
redobrando os cuidados, em particular, com os idosos e as crianças,
mas também para evitar afogamentos, acidentes e incêndios.

[Paisagem junto ao Santuário do Bom Jesus do Monte, ao nascer do sol. © Fotografia: Joaquim Félix]
2. Começamos por ouvir dois versículos,
que, desde o fim de um livro muito belo,
fecundam a esperança com a garantia de um efeito que não tardará.
Surpreendentemente, este par de pequenos versos
― a leitura é formada por uma frase apenas! ―
constitui-se como uma desejada chave de ouro,
não como aquela do conto de fadas dos Irmãos Grimm,
mas na forma de consolidar a esperança
no final do designado «Livro da Consolação» (Is 40-55).
Neste livro, o profeta Isaías anuncia ao povo de Deus, a sofrer no exílio,
um novo êxodo, semelhante ao da libertação do Egito,
com o regresso à sua terra para reconstruir as suas propriedades,
e, claro, a cidade de Jerusalém, o templo, as casas e as muralhas.
Porém, como demorasse a concretização das profecias deste livro,
começou a aumentar, entre o povo, a desilusão e o ceticismo.

[Consolidar a esperança no final do designado «Livro da Consolação». © Fotografia: Joaquim Félix]
3. Mergulhados em sofrimentos, os exilados impacientavam-se,
tomando por provocações as belas palavras da consolação.
Longe de fazer um exercício de simples equivalências,
poderíamos comparar a sua impaciência à dos alunos
que anseiam ver, quanto antes, os seus exames corrigidos.
Ou à aflição daquelas pessoas que, na semana passada,
viram os incêndios bater à porta das suas casas,
sem que pudessem contar com os bombeiros que tanto esperavam.
Ou, ainda, ao desespero dos ucranianos que, em Kiev e outras cidades,
gostariam de contar, mais rapidamente, com intercetores,
para evitar os danos e as mortes causadas pelos mísseis russos.
Eles que, não esqueçamos,
esperam a devolução de milhares de crianças ucranianas,
que as autoridades da Rússia levaram para um exílio-de-russificação.
Eis porque, no caso dos Judeus, o profeta Isaías lhes dirige
um breve, mas reanimador, oráculo do Senhor,
através do qual Ele se compromete a cumprir a sua palavra,
que, na semelhança da chuva e da neve, produzirá os seus efeitos.

[Palavra, que, na semelhança da chuva e da neve, produzirá os seus efeitos. © Fotografia: Joaquim Félix]
4. «Eu penso que os sofrimentos do tempo presente
não têm comparação com a glória
que se há de manifestar em nós» (Rom 8,18).
O que S. Paulo pensa e escreve aos romanos
também nós pensaremos, segundo a esperança que nos anima.
Para S. Paulo, a natureza destes sofrimentos
não era apenas de ordem espiritual, ou seja,
relativa às ânsias para que a revelação final se concretizasse,
traduzida nas suas palavras:
«Na verdade, as criaturas esperam ansiosamente
a revelação dos filhos de Deus» (Rom 8,19).
Os gemidos interiores a que ele se refere,
por semelhança às dores da maternidade,
são experimentados numa expectativa positiva:
a adoção filial não sucede de forma mágica, sem esforço,
mas através de um processo de libertação (cf. Rom 8,23)
de tudo o que escraviza as criaturas, nas situações mais vãs do mundo.

[Perspetiva do Coliseu, em Roma, desde o Convento di San Bonaventura al Palatino. © Fotografia: Joaquim Félix]
5. Conscientes das difíceis condições de vida dos cristãos em Roma,
naquela altura, devidas à hostilidade das políticas do império,
que poderemos dizer das dificuldades a que estamos sujeitos?
Qualquer um de nós elaboraria rapidamente uma lista de sofrimentos,
que, no nosso meio e por todo lado, atormentam milhões de pessoas.
Nessa lista, creio que muitos registariam:
as desgraças que se vivem na Ucrânia,
invadida e bombardeada pelas tropas russas;
os sofrimentos dos palestinianos na Faixa de Gaza,
que, segundo a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch,
sofrem graves violações de direitos,
incluindo a restrição de bens de primeira necessidade;
os atentados e as destruições de casas e famílias,
perpetrados pelas tropas e colonos israelitas,
quer no Sul do Líbano quer na Cisjordânia;
as gravíssimas violências praticadas por grupos armados
na Província de Cabo Delgado, em Moçambique;
as mortes e as deslocações forçadas no Sudão, cerca de 14 milhões,
e em tantos outros países, sobretudo, africanos;
os milhares de mortos causadas pelo regime teocrático do Irão;
os assassinatos provocados por certas políticas dos EUA,
à margem do direito internacional e dos direitos humanos;
as vítimas dos cataclismos, de terramotos ou incêndios, por exemplo.
Suspendamos a enunciação dos sofrimentos,
porque precisaríamos de um volumoso «Livro da Desolação»,
para os lavrar a todos e as ânsias para deles nos vermos livres.
6. A alegria que, todavia, nos é garantida pela palavra de Deus
jorra, para quem a escuta, como uma fonte de ânimo incomparável.
Atendamos, de seguida, ao que Jesus nos diz na parábola.
Imaginemo-lo, sentado no barco, a falar às multidões.
Por diversas vezes, aprofundei a longa versão do Evangelho,
focando-me nos detalhes da ação do semeador,
das diferentes qualidades do terreno e da produção das sementes.
É algo que Jesus faz, pelo que se torna mais fácil compreendê-lo.
Além disso, no Sermão da Sexagésima, do Pe. António Vieira,
acedemos a demoradas considerações
sobre as qualidades do pregador-semeador e o fruto da palavra.
7. Por conseguinte, gostaria que nos detivéssemos
nos motivos pelos quais Jesus fala em parábolas,
até porque, hoje e nos próximos dois domingos,
as passagens dos Evangelhos apresentam várias parábolas.
Sabemos que não foi Jesus a inventar este género da linguagem,
mas que o assumiu, desde a literatura do Médio Oriente,
com uma capacidade rara, por vezes cinematográfica,
para apresentar o reino dos Céus e muitas outras realidades.
As imagens das parábolas são mais evocativas que os discursos,
mesmo se rigorosos em termos de lógica formal.
De facto, a linguagem parabólica possui uma outra força comunicativa.
Nesse sentido, a parábola exige mais dos interlocutores que, ouvindo-a,
se empenham em considerações não-ditas e insuspeitas,
que ultrapassam inclusive as interpretações individuais,
algumas delas inacessíveis sem a reflexão conjunta.
Mais, despertando a curiosidade, a parábola incita o ouvinte a pensar,
a ultrapassar o óbvio e a comprometer-se com a sua mensagem.

[A linguagem parabólica possui uma outra força comunicativa. «Sky Mirror» de Anish Kapoor, em Roma © Fotografia: Joaquim Félix]
8. A meio da parábola e da sua explicação,
os discípulos, aproximando-se de Jesus, introduziram um interlúdio
com a pergunta: «Porque lhes falas em parábolas?» (Mt 13,10).
A resposta de Jesus sugere algo incompreensível,
pois parece criar um interdito à multidão que o ouvia:
«É por isso que lhes falo em parábolas,
porque veem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender» (Mt, 13,13).
A citação do profeta Isaías (cf. Is 6,9-10),
inscreve-se no contexto da vocação e do envio do profeta.
O que é que poderá retirar alcance aos olhos
e entendimento aos ouvidos?
A resposta parece clara: a dureza do coração;
do coração enquanto raiz dos sentidos.
De facto, Jesus parece ver nos discípulos que o escutam e seguem
a parte que será subtraída à desolação,
vendo-os como as árvores e a semente que permanecem vivas,
mesmo no tempo no qual as folhas caem, mas depois rebentam:
«E, se nela ficar um décimo,
este tornará a ser desbastado como o terebinto e o carvalho,
que, uma vez derrubados, deixam apenas um toco;
esse toco será uma semente santa» (Is 6,13).

[Esse toco será uma semente santa. Rebento de terebinto em flor. © Fotografia: Joaquim Félix]
9. Não estará Jesus a dizer-lhes que, enquanto semeadores,
são também ele sementes santas na seara do Senhor, que é o seu povo,
e que, compreendendo com o coração e por Ele curados,
os ouvintes hão de produzir cem, sessenta ou trinta por um?
Através da explicação da parábola aos discípulos,
Jesus inscreve-os já no «Livro da Consolação»:
«Quanto as vós, felizes os vossos olhos porque veem
e os vossos ouvidos porque ouvem!» (Mt 13,16).
Por conseguinte, constitua esta parábola uma bem-aventurança
para todos aqueles que desejam ver e ouvir
de coração amolecido pelo fogo do Espírito de Jesus.
Que Jesus nos cure a dureza do coração,
e este permaneça como a raiz purificadora dos sentidos.

[O coração permaneça como a raiz purificadora dos sentidos. Particular de vitral na cripta da igreja de Notre-Dame de Toute Grâce, Plateau d’Assy, França. © Fotografia: Joaquim Félix]
10. Cuidemo-nos uns aos outros
para que ninguém nos arrebate o que foi semeado
no nosso coração: a Palavra que sai da boca do Senhor
e cumpre a sua missão, como a chuva e a neve,
dando «semente ao semeador e pão para comer» (Is 55,11).
Evitemos, por isso todo o tipo de inconstância,
os cuidados do mundanismo e a sedução da riqueza.

[Da palavra: dando semente ao semeador. © Fotografia: Joaquim Félix]
11. Na quarta-feira passada, morreu Bonnie Tyler,
no hospital de Faro, uma das vozes mais proeminentes
da passagem do pop rock, a música country
e as baladas dramáticas do género power ballad.
Algumas das suas canções, que tiveram imenso sucesso,
como It’s a Heartche e Total Eclipse os the Heart,
foram associados ao futebol, por claques da Argentina,
de equipas da Europa e até da Argélia.

[Voltemos os ouvidos e os olhos brilhantes para Jesus. © Fotografia: Joaquim Félix]
Serviam para motivar os adeptos e, através das coreografias, os jogadores.
Merecedora da nossa homenagem, mais do que justa,
evoco-a, não só por causa do Mundial de Futebol, ainda a decorrer,
mas sobretudo para parafrasear uma das suas canções:
Voltemos os ouvidos e os olhos brilhantes para Jesus,
para que, com a nossa cura a través de parábolas,
evitemos o eclipse total do coração e produzamos muito fruto.
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 12 de julho,[domingo xv do tempo comum ― a ― 2026], proferida na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.










