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À Margem_Jorge Wemans NOVA

Senão parlamento, então o quê?…

| 30/01/2025

A sinodalidade não nos deve levar a entender os encontros de católicos para refletir sobre a vida da Igreja e as prioridades da sua missão como um parlamento democrático. A “escuta do espírito” e a “leitura dos sinais dos tempos” não são processos decalcados da vida parlamentar. Seguindo as repetidas vezes que o Papa Francisco o tem sublinhado, muitos comentadores têm glosado estas afirmações. Mas, por vezes fico perplexo: porquê denegrir a instituição central da democracia?

É óbvio que ninguém de boa-fé e de bom-senso quer trazer para as assembleias católicas os atos e factos mais tristemente caricatos que acontecem em alguns parlamentos. Mas será disso que se trata?

Reduzir a instituição parlamentar aos relatos dos factos inacreditáveis, ridículos ou sombrios que irrompem em algumas delas é deitar fora o bebé com a água do banho. É não dar conta de que, com frequência, é exatamente através dessas violentas paródias da vida parlamentar, que as forças antidemocráticas procuram destruir a imagem das casas da democracia aos olhos dos cidadãos eleitores. É tomar a nuvem por Juno e alimentar a narrativa construída pelas correntes populistas a partir das fraquezas, debilidades e impasses democráticos que desmedidamente acrescentam com muita mentira e imensa violência verbal. É, também, esquecer que a transformação dos parlamentos nacionais em casas de perseguição e terror, de desordem e selvajaria é um dos eixos mais notórios da ação parlamentar das forças de extrema-direita eleitas.

Ajudar, direta ou indiretamente, a obscurecer a imagem dos parlamentos insere-se na mesma corrente que recorre demasiadas vezes à linguagem acusatória de “os políticos”, querendo com ela imprimir um carácter pejorativo a todo o universo dos que se dedicam à coisa pública, através da insinuante generalização a tutti quanti da corrupção, ilegalidades e roubos cometidos por uns poucos.

A facilidade com que em alguns meios católicos se adota esta linguagem e se desconsideram as instâncias democráticas de soberania faz-nos viajar uns séculos para trás até à época em que a Igreja Católica lutava desesperadamente contra a modernidade. E contudo, muitos espaços e grupos eclesiais foram (ainda serão?) escolas de democracia… Será que a longa e numerosa presença de católicos no Parlamento, no Governo e nas autarquias deixa uma memória marcada pela desqualificação dos parlamentos? Nenhum católico viveu no Parlamento experiências gratificantes, mudando de ideias graças ao confronto de posições e opiniões, ou conseguindo atingir consensos alargados que melhoraram leis e decisões? Ou, em plano mais pessoal, cimentando amizades e respeito por quem pensa não apenas diferente, mas mesmo em completa oposição?

Podia prolongar e multiplicar indefinidamente este tipo de interrogações, mas o que faltam são respostas. Infelizmente, o unanimismo em que, a despeito da variedade de vidas, circunstâncias e percursos, largos setores do catolicismo português insistem em permanecer, tem horror à diferença, às oposições, à divergência. Por isso prefere remeter para a estrita esfera individual a intervenção pessoal na política partidária, sem cuidar de construir espaços de partilha que estimulem uma reflexão comunitária sobre tais caminhos.

 

Uma escola de democracia

Parlamento europeu, Bruxelas. Foto Parlamento europeu

Hemiciclo do Parlamento Europeu, em Bruxelas: a consciência católica não pode pôr de lado o capital de diálogo e convergência acumulado pela experiência parlamentar ao longo da história. Foto © Parlamento Europeu.

Impressiona observar como através do silêncio se desconhecem e se desvalorizam as contradições, dificuldades, descobertas e conseguimentos dos católicos que à vida partidária dedicam o melhor do seu tempo. A pouca comunicação e o ainda mais residual debate que sobre tais assuntos existe restringem-se às motivações de cada um – todas concatenáveis, como os princípios gerais em que se fundam, num mesmo e único discurso. E assim se silencia a experiência da densidade das negociações, do enfrentar a derrota, do possível que fica aquém do desejável, da complexidade que exige respeito pelos procedimentos.

Deste modo, a política, a atividade partidária, o compromisso cívico e a participação cidadã tornam-se realidades abstratas sem qualquer densidade humana e, portanto, mais suscetíveis daqueles piedosos lamentos acerca da crise da democracia que são um caminho seguro para os fiéis se identificarem, mais do que a média dos seus concidadãos, com aqueles que, hoje, se propõem acabar com a dita crise, acabando com a democracia.

Se, pelo contrário, a consciência católica maioritária identificasse com clareza a primordial importância de defender, fortalecer e recriar os regimes democráticos para vencer os desafios da guerra, da fome, da desigualdade e da emergência climática, não se poria de lado, de modo tão rápido, o capital de diálogo e convergência acumulado pela experiência parlamentar ao longo da história.

No limite, se a crise da democracia – expressão que perdeu todo o dramatismo, se tornou anódina e deixou de provocar qualquer sobressalto, mas que uso por comodidade de linguagem – ocupasse um lugar central na agenda do pensamento católico, talvez hoje a Igreja se visse obrigada a assumir-se como escola de e para a democracia. Melhor serviço assim faria às nossas sociedades ocidentais (se não a todas as sociedades) do que evocar sem cessar o princípio de autoridade nela vigente como contrário à democracia, ignorando que Tradição, Autoridade e vida democrática não se excluem, antes se complementam, como tão bem mostra e exemplifica a própria Tradição. Basta lembrar aquele primeiro concílio de Jerusalém, em que nada de importante se teria decidido se não tivesse havido franco debate a partir de opiniões contrárias e opostas.

Escola de democracia e lugares de exercício de vida e participação democrática foram, sem dúvida, algumas pequeníssimas bolhas eclesiais em tempos de ditadura. Nelas – movimentos de Ação Católica, alguns grupos paroquiais, agrupamentos de escuteiros, grupos de pastoral juvenil e outros – foi possível experimentar e aprender a exprimir opinião própria, a organizar o debate, participar na decisão e assumir a responsabilidade na ação. Aprendizagens e experiências então impossíveis noutros lugares da sociedade portuguesa. Este é outro tempo e outros são os seus desafios. Mas se é a democracia que empalidece e se enfraquece…

Não basta, porém, pensar o exercício dos princípios democráticos e dos seus procedimentos nas comunidades crentes como modo educativo de serviço ao mundo e às sociedades concretas em que a Igreja Católica exerce a sua missão. Aquele exercício permanente é mais do que isso (embora isso já seja sumamente importante), é condição de sinodalidade. Sem recorrer ao melhor da tradição democrática, nomeadamente à excelência muitas vezes escondida das pacientes práticas parlamentares, não existirão verdadeiras comunidades sinodais. Sem fazer seu o património construído neste campo ao longo dos últimos dois séculos, a Igreja Católica arrisca-se a perpetuar a fusão da autoridade com o poder exclusivo e autoritário, a eternizar a confusão entre o plano das verdades da fé e aquele outro da decisão sobre as prioridades pastorais de cada comunidade, a gestão do património e da vida comum, a responsabilidade pelas obras e serviços. Tudo desordens que perturbam o caminho em direção a uma Igreja mais sinodal.

 

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