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Siena: viagem à Idade Média

| 17/09/2024

 

Cheguei a Siena no dia 29 de junho de 2016. Ia por três meses. Fiquei seis. Fui fazer um curso intensivo de italiano e descobri uma joia pela qual me apaixonei. Deixei-me conquistar pela atmosfera medieval, pelo encanto das ruelas e dos becos, pelo esplendor dos palácios e da catedral, pelo fim de tarde sentada na Piazza del Campo a contemplar o Palazzo Pubblico.

Entrar em Siena por qualquer uma das portas monumentais que recortam os seus muros é viajar no tempo até à Idade Média, a época do esplendor da república da cidade. Todos os dias cruzava a Porta Camollia, lia a inscrição Cor magis tibi Sena pandit (Siena abre-te um coração maior [do que a porta que estás a atravessar]) e sentia-me entrar noutra dimensão. Não me sentia fora do tempo, numa época que não existe, mas sentia-me, isso mesmo, acolhida, aconchegada num ambiente de família, contagiada pela paixão profunda que os seneses sentem pela sua cidade, pelas suas tradições e pela sua História. Depois somos envolvidos por um labirinto de ruas e becos de pedra, palácios renascentistas, mas, de repente, a paisagem abre-se e o ar é-nos sugado dos pulmões: estamos na Piazza del Campo, o coração pulsante da cidade. É aqui que toda a gente vem parar (ci vediamo in piazza!): sentados no chão, conversa-se, bebe-se uma cerveja, come-se uma fatia de pizza, canta-se.

Os turistas vão por um dia ou dois, fazem os pontos «obrigatórios»: palácio e torre, catedral, miradouro da segunda catedral que nunca foi terminada porque a peste negra ceifou a população. Só a biblioteca dos Piccolomini dentro da catedral bastaria para convencer qualquer um a ir já, com os seus livros cobertos de iluminuras e as suas paredes revestidas de frescos. O mesmo para o fresco do Bom Governo no Palazzo Pubblico. Mas a minha Siena preferida é aquela em que caminho pelas ruas de olhos bem abertos, de cabeça erguida, porque a qualquer instante surge uma argola de ferro onde se amarrava os cavalos, uma inscrição com séculos a proibir a prostituição, uma janela falsa esculpida com uma mulher a espreitar com o seio despido, uma placa com uma citação da Divina Comédia. Sim, há várias espalhadas, porque a cidade é referida na suma obra de Dante. Tudo aqui respira História, tradição, cultura.

Contrada da Lupa (a minha, porque foi lá que vivi em 2016) no cortejo histórico do Palio de agosto de 2015. Foto © Il Tesoro di Siena

 

E depois há o Palio, o grande acontecimento de Siena, a festa agregadora dos seneses. É uma corrida de cavalos que dura um minuto e meio, mas é muito mais do que uma corrida de cavalos. Em torno do Palio há dinâmicas complexas, tradições curiosas e até todo um vocabulário próprio. É apaixonante. Louco, mas arrebatador. Nos três dias anteriores ao Palio, de manhã e à noite, há provas na praça, e todas as contradas (bairros) fazem o percurso desde a sede até lá pelas ruas, com o cavalo à frente e depois o povo, a entoar cânticos cuja letra anda sempre à volta de «a nossa contrada é a melhor, Siena é maravilhosa, a contrada rival mete nojo à cidade». No dia do Palio, faz-se a bênção do cavalo, que é a figura mais importante da festa. Entra na capela da contrada e, sob um silêncio sepulcral, é benzido por um padre que lhe diz: «Vai e volta vencedor.» Tudo pela glória de ganhar… um estandarte. O Palio, precisamente.

O Palio começa com o cortejo histórico pelas ruas até à praça, composto por figurantes vestidos com trajes medievais, levando bandeiras das corporações e profissões antigas, bem como dos lugares que outrora faziam parte da República de Siena. É um espetáculo de pompa, de elegância, de orgulho, porque aquela gente não esquece quem foi e sabe muito bem quem é. Há quem diga que vivem no passado. Eu digo que fazem memória. Vi os dois Palios na praça, debaixo de muito calor, e nunca senti emoção igual. Ouvir os cânticos dos contradaioli nas bancadas a ressoar pelas paredes dos palácios circundantes é uma sensação eletrizante. Acho que foi aí que me senti pela primeira vez em casa.

Fora do frenesim do Palio, Siena vive-se melhor devagar. Não tenho um lugar preferido, mas um dos que me transmite mais paz é o Orto dei Tolomei, um pequeno jardim para onde costumava ir com os meus colegas fazer aperitivos ao fim do dia, com petiscos e vinhos levados de casa. Gosto de ir até lá e ficar sentada na relva a ler, ou simplesmente a deixar-me inundar pela vista do Palazzo Pubblico e da zona mais antiga. Não consigo explicar, só sei que não me sinto assim em mais nenhum lugar, tão completa, tão certa de estar no sítio certo. Se fosse possível sentirmo-nos amados por um lugar, eu sentir-me-ia amada por Siena e por todas as histórias e História que as suas pedras me sussurram.

Em Siena nunca senti saudades de Portugal. Chorei no dia em que a deixei, ao fim daqueles seis meses. Graças a ela reencontrei-me, graças a ela redescobri quem sou. Siena mudou a minha vida, e por isso será para sempre a minha casa.

Vista de Siena. Foto © Marta Pinto.

Marta Pinho vive em Lisboa e é tradutora. Lê menos do que gostaria, faz crossfit e canta num coro de música clássica. Um dia há de mudar-se para Itália.

 

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