A Maria era uma mulher que vivia numa casa de lavradores, trabalhadores da terra e donos de terras. Nesse espaço, a Maria não era a criada, era uma faz-tudo de pés descalços e pele grossa, curvada, retesada pelas variações do tempo, a Maria podia com qualquer volume, qualquer encargo, qualquer trabalho.
Quando a Maria tinha os ataques, até levantava o soalho do chão! Não se sabe se seria caso de hospital ou para chamar o exorcista. “Onde é que está a Maria? A Maria não come?” “Não te preocupes. Come depois.” Os restos, o que sobrar.
A Maria vinha sempre com o artigo definido agarrado, que apenas a indefinia, dizer “a Maria” era o mesmo do que a “a rapariga”, a sem idade, a que servia para servir, numa casa rural de cristãos católicos portugueses, em meados do século XX.
Em 11 de abril de 1963 foi publicada a carta encíclica Pacem in Terris, na qual o Papa João XIII indica como sinal dos tempos «o facto por demais conhecido, isto é, o ingresso da mulher na vida pública: mais acentuado talvez em povos de civilização cristã; mais tardio, mas já em escala considerável, em povos de outras tradições e culturas. Torna-se a mulher cada vez mais cônscia da própria dignidade humana, não sofre mais ser tratada como um objeto ou um instrumento, reivindica direitos e deveres consentâneos com sua dignidade de pessoa, tanto na vida familiar como na vida social.»
«Vieram ter com Ele os fariseus e saduceus para o porem à prova e pediram-lhe que lhes mostrasse um sinal do céu. Ele respondeu-lhes: «Ao cair da tarde dizeis: “Vai estar bom tempo, porque o céu está avermelhado”; e de manhã cedo dizeis: “Hoje vai haver temporal, porque o céu está vermelho-escuro”. Sabeis distinguir o aspeto do céu, mas não sois capazes de distinguir os sinais dos tempos? (Mateus 16, 1-3).
Talvez os sinais dos tempos devessem ser evidentes para nós, um conhecimento comum e partilhado, semelhante à natural convivência com os ritmos cósmicos e meteorológicos.
Olhando-nos ao espelho sabemos que o tempo existe ou que, pelo menos, é real na dimensão de oxidação que vai imprimindo na pele e nos cabelos. Mas se o abordamos pelo ângulo da memória afetiva, a linearidade cronológica é imediatamente afetada. No tempo dos afetos, o que se passou há muito pode parecer que foi ontem, e eventos relativamente recentes ficam distantes à medida que tanta coisa relevante se passa pelo meio – veja-se, por exemplo, os primeiros meses de um bebé.
O amor esburaca a noção de linearidade cronológica (permanece, existe!) e simultaneamente, é fruto da cronologia (vai sendo, vai-se formando, num aglomerar de memórias).
E o corpo tem dias que nos obriga a encarar o tempo de uma maneira diferente, muitas vezes contra a nossa vontade, tão empenhadas que estamos em manter a farsa da existência de um tempo uno e linear.
A amamentação (que pode durar dias, meses ou anos) é um desses tempos, onde o circuito temporal passa a fazer-se em torno de bebés com ritmos próprios, que exigem a adaptação a esses ritmos e não querem saber dos termos do mercado de trabalho. Os horários ficam baralhados, as horas misturam-se, muda o eixo.
São muitas as mulheres que se debatem com a fúria com que o regresso ao mercado laboral as quer fazer crer que nada se passou, tudo continua como dantes, em linha reta, esquecendo a obviedade de que continuarão a ser cuidadoras e as marcas que essa função vital deixa nos corpos.
O ciclo menstrual, que metade da população vive entre algures no tempo de escola até bem antes da reforma, é outra vivência que nos obriga a lembrar que o tempo se desdobra em gatafunhos. Os ciclos hormonais são lembretes ruidosos do corpo nos seus diferentes ritmos e (contra)tempos – tornam evidente, ciclicamente, a necessidade de abrandamento, por exemplo. O corpo usa as hormonas como megafone para sinalizar necessidades que são partilhadas por toda a humanidade, mas que podem apenas, para alguns, não ser tão evidentes.
A tentação de viver desligado do corpo agudiza-se na era da inteligência artificial. E com a internet é possível fingir que o tempo não tem dia, nem tem noite, o que existe é uma linha contínua de estímulo – o tempo segue _____________________________________________________________________.
Não creio num “feminino que é natureza”, por oposição a um “masculino que é razão”. Quem crê, anda distraído. Observa pouco. Os sinais. Natureza somos todos, e racionais vamos tentando sê-lo (alguns!).
Pensar-nos como natureza não é um regresso ao passado, mas uma recuperação de um tipo de inteligência que parece fugir-nos entre os dedos quando concebemos o futuro como algo desencarnado. Sobretudo para os cristãos do Deus trino e incarnado. Alguns povos indígenas carregam ainda a memória de saber olhar o meio, e os outros, com um foco integrado, na continuação dessa literacia contida em “porque o céu está avermelhado” ou “porque o céu está vermelho-escuro”. Uma inteligência cromática, uma capacidade de ver as gradações da realidade com lucidez.
Por alguma razão, a humanidade daquela Maria não era óbvia, a sua dignidade não era evidente – eram poucos os que se perguntavam “Por que é que a Maria não come connosco à mesa?”
A Maria não casou – teriam medo da sua força imprevisível? Talvez esse tenha sido um arroubo de liberdade da Maria, mas fica difícil entender como é que ela se entendia.
A Maria que só sabia trabalhar e calcorreava quilómetros sem sapatos, partilhava o nome com a(s) outra(s), a(s) do tempo em que tudo se transforma. Marias. Nelas, ecos de sol, de nuvens e de tempestades. Sinais dos tempos.

“A Maria que só sabia trabalhar e calcorreava quilómetros sem sapatos, partilhava o nome com a(s) outra(s), a(s) do tempo em que tudo se transforma. Marias. Nelas, ecos de sol, de nuvens e de tempestades.” Foto: Direitos reservados.
Sara Leão é mediadora educativa e formadora de Português Língua Estrangeira.










