O 7MARGENS acompanha os trabalhos da Assembleia-Geral do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade, divulgando as expectativas dos seus leitores sobre este importante acontecimento (ver textos já publicados aqui).

No dia 5 de outubro de 2023 participei na Assembleia Diocesana da minha diocese do Algarve destinada à apresentação do plano pastoral para este ano. O tema “Renovar pela transformação do Espírito (Ef. 4,23)” enquadrava-se perfeitamente no tema desenvolvido pelo orador principal, o P. Sérgio Leal, do Porto, sobre a “Sinodalidade e co-responsabilidade pastoral”, bem como na temática a decorrer em Roma no Sínodo convocado pelo Papa Francisco.
Em pleno ambiente sinodal na Igreja Católica, houve nesta assembleia muito pouco de sinodal, como aliás reconheceu o próprio pastor diocesano ao dizer no final: “Esta assembleia foi pouco sinodal”. Só o clero falou. Ao contrário de outras assembleias diocesanas do passado, não se escutaram as propostas dos outros baptizados presentes, não houve grupos de trabalho, não houve perguntas, não houve diálogo nem partilha.
O orador foi brilhante, pois está a realizar em Romauma tese de doutoramento exactamente sobre este tema. Falou da sinodalidade como uma dimensão constitutiva da missão da Igreja. Disse que Igreja e Sínodo são praticamente sinónimos (S. João Crisóstomo), que não há sinodalidade sem co-responsabilidade e que a sinodalidade é, em si mesma, fundamentalmente operativa. O seu sujeito operativo é o povo de Deus. Esta operacionalidade da sinodalidade vem refectida na sua própria etimologia que é caminhar em conjunto. Ora caminhar é, em si mesmo, dinâmico, o caminho faz-se caminhando, e é o modo de ser da própria Igreja no seu processo de conversão permanente, pessoal e colectivamente, quer a nível socio-cultural, quer a nível eclesial com todos os seus carismas e serviços em conjunto.
Acrescentou ainda que a sinodalidade é sempre obra do Espírito Santo que se reflecte na nossa capacidade de falar, de pensar juntos e agir em liberdade e co-responsabilidade. Disse ainda que o objectivo da sinodalidade não é defender a opinião de cada um mas ouvir a de todos e elaborar um consenso comum.
Deste modo, a sinodalidade não é a secularização dos clérigos nem a clericalização dos leigos, mas a síntese do Espírito Santo reflectida na comunidade dos baptizados.
Finalmente, referiu alguns fundamentos da sinodalidade tais como a igual dignidade e co-responsabilidade de todos os baptizados, a unidade na missão da Igreja, o governo pastoral em comunhão e a fraternidade na Fé.
Mas qual não é o meu espanto, quando a terminar a sua apresentação e depois de referir tudo isto, diz que o poder de decisão é sempre ministerial (do clero ordenado). A elaboração da decisão é pastoral e sinodal, em comunhão e consenso por discernimento do Espírito e não por maiorias/minorias, mas a decisão é sempre ministerial.
Caiu-me o pano no final da sua apresentação, face a alguma incoerência e paradoxo na exposição. De facto só uma visão clerical arreigada pode chegar a esta conclusão paradoxal.
Se “Todo o ponto de vista é a vista a partir de um ponto” como alguém disse, pergunto:
- Como é possível a um leigo ou religioso/a sentir-se livre e co-responsável por uma decisão que não é sua mas sempre ministerial? Por uma decisão em que apenas participou na elaboração consultiva, embora em diálogo discernimento e comunhão no Espírito?
- Porque não pode a decisão ser colegial (todos os baptizados)?
Sabemos que o Povo de Deus anseia por uma participação maior de todos os baptizados nas decisões da Igreja local e universal, tal como nas primeiras comunidades cristãs primitivas.
Sabemos que o clero (ministério ordenado) se apropriou ao longo da história da Igreja dos três carismas fundamentais e constitutivos do Povo de Deus: Sacerdote, Profeta e Rei. Só um deveria pertencer ao clero—o sacerdotal. Ao concentrar no ministério ordenado todos os três carismas, o Povo de Deus perdeu a autonomia da sua consciência crítica e pneumática (o profetismo) e a autonomia do poder político, social e civil (a realeza).
É tempo de o sacerdote deixar também aos outros baptizados a autonomia dos carismas (profetismo e realeza) que lhe são próprios e para os quais têm uma competência que o sacerdote, por vezes, não possui. Competências de gestão social, política e familiar, ciência, fé, contabilidade, recursos humanos, logística, etc..etc…É tempo do ministro ordenado exercer a sua competência a tempo inteiro—o sacerdócio pastoral e espiritual.
É tempo de aproveitar a onda sinodal para iniciar com coragem e discernimento a desclericalização no Povo de Deus. Conheço muitas comunidades paroquiais em que não existe Conselho Pastoral, nem Conselho Económico. Todas as decisões são tomadas pelo pastor. Não existe apresentação de contas comunitárias transparentes, não existem alunos inscritos na disciplina de Religião e Moral nas escolas da paróquia (com milhares de alunos). O pastor nunca visitou uma escola, um movimento eclesial (bíblico, caritativo, juvenil, litúrgico, coral, carismático, ou outro), um lar de idosos. Nunca organizou qualquer formação permanente, nunca… nunca…Limita-se à gestão e ao culto. É pouco. Conheço pastores cheios de problemas afectivo-emocionais-relacionais mal resolvidos, em completo desequilíbrio social, inadaptados na sociedade e que não foram sujeitos a quaisquer testes psicotécnicos para despiste de eventuais distúrbios emocionais e relacionais. Muito mal preparados para uma liderança pastoral que se quer aberta, dialogante e sinodal, mas face à carência de clero nos tempos que correm a Igreja aproveita todos…. Fazem mais mal que bem à Igreja do futuro.
Que este Sínodo, a decorrer em Roma, venha iluminar uma nova forma de ser Igreja e de ser pastor. Venha introduzir uma nova formação do clero que faça do ministro ordenado um discípulo de Jesus, um homem de fé, homem de Deus, homem da missão da Igreja e não apenas funcionários administrativos de uma qualquer ONG eclesial.
Victor Coelho é mestre em Filosofia do Ambiente, 7º ano do Curso de Teologia da UCP e professor aposentado de Filosofia e Teologia










