
O Papa Francisco e participantes da assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade num momento de oração antes do início dos debates. Foto © António Marujo/7MARGENS
A segunda parte do Sínodo da Igreja Católica Romana, a realizar em outubro próximo, é, do meu ponto de vista, uma reunião que ignora as culturas e as pessoas, porque esquece as culturas e as pessoas. Não se trata de querer impor a determinadas culturas o que é determinante noutras, mas aquelas não podem ser subjugadas por estas. Um ponto de equilíbrio se impõe, o que não acontece ao longo do documento de síntese agora apresentado para a análise sinodal. [ver 7MARGENS]
Se reconhecemos muitos passos andados em algumas matérias, lamentamos que em outras se atirem para as calendas assuntos prioritários. Na nossa cultura, no que somos e representamos muito se coloca a chamada, indevidamente, “questão da mulher”. Não existe nenhuma questão, tenho escrito, a mulher e o homem são iguais na dignidade de filhos e filhas de Deus e não é compreensível que se coloque como “questão”; ela só existe na mente de alguns que devem refletir, com todos e todas, se é ou não verdade ser a mulher um ser com direitos e deveres iguais aos do homem.
Pasmo, como se discute se a mulher terá direito ao acesso ao diaconado; ora, é dececionante a Igreja estar a discutir uma realidade existente em todos os cargos da sociedade civil; é um direito do género humano ser a mulher tão capaz como o homem em todos os aspetos e quem se bate pela igualdade da dignidade humana não pode estar num polo atirando essa dignidade da mulher para as calendas e constituindo uma regressão do esperado para um Sínodo mundial. Aliás, como já se notava no documento da Diocese do Porto, refletido e analisado, não pelo Povo de Deus, mas pelas cúpulas da Igreja, numa verticalidade hierárquica, que o documento apresentado diz querer superar.
Mas não é só isso: os padres poderem ou não casar ou o acolhimento indiferenciado de quem escolhe como viver o amor, no caso das pessoas LGBTQ+. Estas matérias são centrais na reflexão das culturas e dos povos de hoje, como já o foram de antanho. Pedir perdão daqui a uns anos por esta inquisição será uma muito má escolha. O documento nunca faz nenhuma menção ao celibato sacerdotal ou sacerdócio conjugal, assim como ao viver o amor duma forma diferente da chamada “convencional”. A Igreja Católica Romana não é inclusiva, mas assume com clareza o seu caminho excludente. É, lembra-se, o próprio documento que o refere ao escrever: “Essa falta de acolhimento deixa-os rejeitados, dificulta o seu caminho da fé e encontro com o Senhor e priva a Igreja da sua contribuição para a missão.” Ora, se o próprio documento preparatório reconhece esta falta como não pedir ao Senhor perdão por esta falta contra o “direito natural”?
No respeitante às mulheres, elas não estão à espera de qualquer reconhecimento, como faz o documento; elas não só têm direito, vindo de Jesus, aos papeis de liderança, “governança”, como às suas ordenações ao ministério. Já demonstraram os seus “carismas” e “dons”, o que vem do tempo de Jesus, ou não seria a Maria Madalena uma sua confidente, muito mais que Pedro, levando este a ter ciúmes, como se compreende que passados dois mil anos a Igreja, venha “reconhecer” o que já foi “reconhecido” e coarte a sua possibilidade do serviço à Igreja em todas as suas dimensões! Se algumas conferências episcopais o reconheceram e outras não, então respeite-se a vontade daquelas que o reconhecem. Ou não vamos respeitar a culturas dos povos que o reconhecem, para se poder tentar uma unidade na diversidade e não uma unidade na unicidade.
Vamos com estas situações de profundo desprezo, das quais mais tarde se pedirá perdão, como o acontecimento dos “abusos sexuais”. O documento refere sobre tal: “Em nosso tempo, a demanda por transparência e responsabilidade na e pela Igreja surgiu como resultado da perda de credibilidade devido a escândalos financeiros e, mais ainda, abusos sexuais e outros abusos de menores e pessoas vulneráveis.” O clericalismo, transformado em “colonialismo” do nosso tempo, constitui um pesado fardo para todos nós, cristãs e cristãos, tanto mais que a Igreja não assume a sua diversidade, como Pedro e Paulo assumiram, até porque “a dimensão da prestação de contas da autoridade à comunidade deve ser recuperada”, diz o documento.
A proceder assim, a Igreja Católica Romana não possuirá boas relações com Deus, com os Outros e com outras confissões religiosas, ou como diz a introdução citando Isaías 25, 6-8, “Neste monte o Eterno, o Senhor dos Exércitos, preparará um banquete de carnes gordas para todos os povos, uma grande mesa de vinhos velhos, com carnes saborosas, suculentas e muitos vinhos finos. Neste monte ele destruirá o véu que envolve todos os povos, a cortina que cobre todas as nações O Senhor Deus acabará para sempre com a morte. Ele enxugará as lágrimas dos olhos de todos e fará desaparecer do mundo inteiro a vergonha que o seu povo está passando. O Senhor falou.”. O que não será para “todos, todos, todos”, com “tudo, tudo, tudo”, mas só para alguns. Felizmente Jesus não é isso!
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.










