Síria: quatro retratos de Natal
Enfrentar a chuva, reinventar o céu
Damasco (Cidade Velha)

Quando Paulo de Tarso aqui chegou, Damasco já era uma cidade antiga. Como dizia um amigo sírio, Damasco é uma cidade “cansada”. O peso do tempo faz-se sentir nas fachadas descascadas, na vizinhança da ruína. E, no entanto, Damasco tem um encanto particular. O modo descomplexado como uma velha coluna romana serve para apertar a lona de uma loja, ou como um pátio palaciano serve de cenário à venda de tapetes, tâmaras e perfumes, tudo isso acaba por gerar uma atmosfera de comércio com o próprio tempo, com o passado e o presente a discutirem preços.
O bairro (maioritariamente) cristão junto a bab touma [porta de Tomé] cintila com decorações de Natal. Às quatro da tarde, as ruelas forram-se de pessoas. Os alunos aproveitam o feriado cristão para passear na velha Damasco. O cheiro das manaish [uma espécie de pizzas locais] mistura-se com as especiarias e os véus das raparigas eclipsam todas as montras. E é nesse labirinto que, de repente, esbarramos com esta «chuva de cores suspensas». Parece que mesmo numa cidade cansada e enlutada há espaço para reinventar o céu.
Mosteiros que são como jardins
Sidenaya

A poucos quilómetros de Damasco descobre-se um pequeno enxame de aldeias maioritariamente cristãs. Sinal disso mesmo é a multiplicação de mosteiros e igrejas, entre os quais o famoso mosteiro de Sidenaya.
Empoleirado na vertente da montanha, o mosteiro parece uma colina suplementar. O carro deixa-nos junto ao portão, e dali temos de escalar os pequenos degraus que nos conduzem por entre as paredes grossas do edifício. Ao entrar, sentimo-nos como numa colmeia: a arquitectura tem um aspecto orgânico, que mostra que o edifício (o segundo que o imperador Justiniano mandou erguer) foi crescendo ao sabor do tempo.
Ali, numa pequena capela, está um dos três ícones que o evangelista Lucas teria grafado, dedicado à Virgem Maria. Sem surpresas, quando entramos, encontramos duas famílias muçulmanas a rezar, devotamente.
Noutro pátio encontramos a zona da hospedaria, com os aventais repletos de fustan negros (as vestes de senhoras devotas que ali estavam alojadas por uns dias) a secar ao vento. No centro do mosteiro, diante da porta da igreja, uma árvore de Natal colorida, a dar sombra àquela paisagem.
Os passos de uma alma devota
Capela das relíquias de S. João Baptista (Mesquita Omíada)

Bem no miolo da cidade velha, em Damasco, descobrimos a monumental mesquita Omíada. De certo modo, este lugar resume a história da própria cidade. Ali começou por existir um templo a Haddad-Raman (o deus dos trovões), depois transformado pelos romanos num templo a Júpiter, logo convertido em basílica cristã e, finalmente, adoptada pelo califa Umayyad como grande mesquita sunita de Damasco.
Apesar de ser hora de oração comunitária, deixam-nos entrar no enorme espaço. Avançamos discretamente pelo corredor, enquanto homens e mulheres devotas participam na liturgia islâmica, intervalando períodos de silêncio com gestos de prostração e a escuta do canto de alguns versos corânicos.
Descalços, deslizamos pelos tapetes vermelho-e-preto até chegarmos a uma pequena capela onde, segundo a tradição, está preservado parte do corpo de João Baptista. E é ali que somos desconcertados pela presença de peregrinos xiitas. Comovidos, uns, sorridentes, outros, os peregrinos desfazem-se em gestos de afecto pelo santo profeta Yahya.
Christmas Carols com alaúde
Praça Abassida (Damasco)

20 de Dezembro de 2019. Uma praça enche-se com uma multidão de várias dezenas de milhar de pessoas para assistir a um concerto de Natal, onde será também feita a inauguração de um presépio, acompanhada pela bênção de um dos bispos de uma das várias igrejas cristãs presentes na cidade. A anfitriã abre o serão dizendo: “Esta é uma noite histórica. Este local onde tantos sírios, familiares e amigos nossos, foram mortos, é hoje palco de encontro para todos: sunitas, xiitas e cristãos. Este local, hoje, é símbolo de vida e de esperança.” Em seguida, a orquestra filarmónica do exército interpreta alguns clássicos de Natal, mas o grande momento viria depois. Uma diva local canta, em árabe, o Noite Feliz, enquanto uma procissão de jovens, vestidos como num presépio vivo, avança para uma tenda instalada junto ao palco, enquanto todo o público, com ou sem véu, aplaude e tira fotografias.
Estas imagens serão incompletas, certamente. Não captam nem o que se passa no íntimo dos figurantes, nem podem profetizar com certeza sobre as coisas que hão-de vir. Têm, no entanto, a virtude de mostrar a realidade colorida de vários instantes. Na Síria, hoje, o Natal também se faz assim.
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