AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

João Aguiar Campos, Clero, padre, Braga, jornalismo, Média

Testemunho de sofrimento e de esperança

Sobre a paixão e morte do padre João, jornalista e cónego da Sé de Braga

| 27/04/2023

João Aguiar Campos, Clero, padre, Braga, jornalismo, Média

Padre João Aguiar Campos, antigo director do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja Católica e ex-presidente do Conselho de Gerência da Rádio Renascença. Foto © Agência Ecclesia.

 

Faleceu esta quinta-feira, 27 de abril, no Hospital de Braga, aos 73 anos, um homem de Terras de Bouro que foi, sobretudo nos anos da dura doença oncológica, “um místico de cada dia” e, em grande parte da vida, um grande comunicador, de seu nome João Aguiar Campos, singelamente conhecido por padre João.

Todos os que o conheciam e estimavam – e são muitos – puderam acompanhar o seu calvário, mas sobretudo a luta que travou e o sentido que procurou dar a essa luta, através das partilhas que foi fazendo na sua página do Facebook.

O corpo deste que era também cónego do Cabido bracarense foi recebido na Sé de Braga ao som dos sinos grandes da catedral, nos seus tons lentos e graves. Ali ficará em câmara ardente, até às 15h desta sexta-feira, quando será celebrada a missa de corpo presente, seguindo o cortejo fúnebre para Campo do Gerês, a sua terra natal que tanto lhe estava no modo de ser e de ver a vida.

Nos altos e baixos do penoso percurso que fez nos últimos anos, João Aguiar Campos foi um testemunho de fé e de esperança, com uma capacidade notável de humor e de atenção aos outros, até nos fortuitos encontros das salas de espera do hospital.

Em março, mês em que celebrou os 50 anos da ordenação presbiteral, começou a dar sinais de que a doença se agravava. Em 31 desse mês suspendeu as suas publicações “por tempo indeterminado”, deixando os leitores com as palavras da sua amiga Ana Du: “Tudo me deste, meu Senhor, tudo me deste: a água, o pão e a sede! Mais as flores na areia e o olhar de sal… Lanço-me no teu colo, faminto de um abraço. E que mais posso querer senão um abraço?”

Fez-se um silêncio pesado, até que no último dia 10 deste mês, deixou esta curta prece:

“Meu Pai, encurtam-se os dias. Sou, no teu colo, uma espera serena. Tanto me tens dado que muito me sobra…. Abraça-me, que tudo o mais é demasia!…”

Três dias depois, deixou a nota de que “no silêncio orante” do seu quarto, recebeu o sacramento da Santa Unção, até que chegou a notícia da partida.

O padre João, como gostava que lhe chamassem, nasceu em 1949, em S. João do Campo, em plena serra do Gerês e aí vivenciou os trabalhos do campo, numa família e numa comunidade onde podia não haver elevado nível de instrução, mas havia por certo muita sabedoria, que ele bebeu e incorporou nas circunstâncias que a vida lhe proporcionou.

 

Uma vida dedicada ao jornalismo e à Igreja

Ordenado em 1973, partiu, no ano seguinte, para a Universidade de Navarra, no Norte de Espanha, para frequentar o curso de Ciências de Informação, área que só surgiria uns anos depois nas universidades portuguesas, depois de instaurada a democracia, em 25 de Abril de 1974.

Em 1976 entrou como jornalista para o Diário do Minho, jornal da Arquidiocese de Braga, fundado em 1919, do qual viria a ser diretor entre 1997 e 2005. Começou também a colaborar com a Rádio Renascença no início dos anos 80, vindo a ser presidente do Conselho de Gerência do grupo, de 2005 a 2016. Entre 2011 e 2016, o episcopado português nomeou-o diretor do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais (SNCS), cargo que ocupou até abril de 2016.

A dedicação competente ao trabalho que desenvolveu nas várias funções e o bom humor e otimismo que transmitia trouxeram-lhe um generalizado reconhecimento que extravasou os meios eclesiásticos. Foi reconhecido com o Prémio de Jornalismo D. Manuel Falcão, instituído pelo Secretariado Nacional das Comunicações Sociais (SNCS) da Igreja. Foi também condecorado com a Medalha de Ouro pelo Município de Terras do Bouro, onde nasceu e cresceu, e com a Medalha de Grau Ouro pelo Município de Braga, no qual residiu a maior parte da sua vida. Foi igualmente condecorado duas vezes com a Ordem de Mérito, uma com o título de membro honorário e outra com o grau de comendador.

 

“Um místico de cada dia”

João Aguiar Campos, Clero, padre, Braga, jornalismo, Média

Padre João Aguiar: “um mestre da palavra e da grande comunicação”, disse sobre ele o arcebispo de Braga, José Cordeiro. Foto © Agência Ecclesia.

 

O padre João não recusava, mas também não sobrevalorizava estes reconhecimentos. Numa recente entrevista à Ecclesia, aquando do 50º aniversário da sua ordenação observou: “Se me quiserem fazer algum elogio – ainda não o mereço – seria dizer-me: o padre João, sendo um padre secular, tornou-se num místico de cada dia. Um espantado místico de cada dia”.

Mal a notícia da morte deste cónego da Sé de Braga se espalhou, multiplicaram-se as reações. O arcebispo José Cordeiro, que visitou João Aguiar Campos há alguns dias, considerou-o, em declarações à Renascença, “um mestre da palavra e da grande comunicação” e “um lutador até ao fim do fim e mesmo aí foi evangelizador”.

Por sua vez, o bispo de Viana do Castelo, João Lavrador, que teve o ‘pelouro’ da Comissão Episcopal da Comunicação Social, sublinhou à Ecclesia “a verticalidade sacerdotal, na sua sabedoria e inteligência, na maneira como era capaz de expressar a fé, numa interligação com a realidade do mundo, e a serenidade que tinha, sintoma de uma perspicácia interior que brotava da sua íntima relação com Deus”

Um jornalista hoje a trabalhar no setor da comunicação da Jornada Mundial da Juventude, Ricardo Perna, que foi amigo de João Aguiar Campos, enalteceu, na sua página no Facebook, “a tenacidade em lutar contra a doença, mas aceitando ao mesmo tempo a sua evolução sem frustração ou agonia”, bem como o “exemplo claro de como podemos evangelizar através da nossa presença nas redes sociais”. “As suas publicações, ponderadas, incisivas, belas, iam desde a oração e contemplação à crítica social ou eclesial, sem nunca deixar de ser equilibrado e justo”, agregou.

 

“Sei que, por sua graça, o amor vai comigo!…”

As suas reflexões, primeiro num programa que teve na Renascença e, depois, na sua conta no Facebook, deram origem a oito livros de prosa e alguma poesia. Foi a propósito de Morri Ontem (2019), sobre o tema da morte, da amizade e do desejo de viver, que o padre João contradisse a ideia de que se tratava de um título deprimente. “É alegre – contrapôs – porque quando termina o tempo que temos de vida, o que está para a frente nunca mais acaba.”

Nessa linha, nada como voltar a um post que publicou em 26 de março último:
“‘E agora?’ – perguntei hoje. E o amor respondeu: ‘agora, vamos por aí!’.
Deu-me a mão e um sorriso puxou-me para o primeiro passo.
Não sei bem aonde o amor me leva nem o que cada passo vai custar. Sei que, por sua graça, o amor vai comigo!… Comigo vão também os que me ensinaram a amar o mesmo amor.”

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Perseu declara-se vítima

Testemunho

Perseu declara-se vítima novidade

Escrevo como sobrevivente de abuso sexual na Igreja. Estive calado trinta e seis anos. Sou acompanhado há mais de oito. Não escrevo para defender a instituição, e nada lhe devo. Defendo duas coisas apenas: os sobreviventes e a Graça. [Testemunho de um sobrevivente de abuso sexual na Igreja Católica].

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

Padre da Obra da Rua morreu

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

O padre Telmo Ferraz, da Obra da Rua, celebra cem anos de vida e missão. Membro do clero da Diocese de Bragança-Miranda, nasceu no Mogadouro a 25 de novembro de 1925 e começou cedo o seu sacerdócio de rebeldia e compromisso social. Denunciava a tragédia humanitária provocada pelas condições péssimas em que viviam quantos davam a vida na construção de barragens naquele Trás-os-Montes longínquo e abandonado dos anos 1950. [Texto de Tony Neves]

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.