“Sou Eu” – a voz de Jesus ergue-se acima do tumulto da turba dos soldados romanos e dos criados dos sumos sacerdotes. O Justo, o Servo do Senhor, entrega-se às mãos da violência assassina que vem até Ele.
E, sim, aquele “Sou Eu” ressoa em nós como a certeza de que Deus se identifica com todos os homens e mulheres injustamente presos, com as vítimas da guerra e de toda a violência, os humilhados e esbofeteados, os desconsiderados e desprezados, os que vivem sufocados pela dor e pela angústia. Todos os que, antes e depois Dele, viveram e viverão essa condição.
Jesus preso, torturado e crucificado é um escândalo trágico para os seus amigos. Eles esperavam outro Deus. Também para nós todos os dias nos dava jeito outro Deus. Um Deus que pusesse fim à violência dos homens contra o homem, a mulher e as crianças. Um Deus que não permitisse à humanidade dar cabo da nossa Casa Comum. Um Deus que me pacificasse interiormente, me libertasse de todos os sentimentos de medo, raiva e violência. Um Deus que me livrasse de todos os desejos de poder que me habitam e me abrisse o coração ao alegre acolhimento de todos, os que vivem perto e os que vivem longe e nunca conhecerei.
Mas não é um Deus assim que o Jesus que hoje contemplamos na cruz nos revela. O Deus de Jesus não está na força, está na fragilidade. Para nossa grande surpresa, não foram os fortes, os poderosos e os rostos do sucesso que Ele escolheu para ficar entre nós. Não. Ele escolheu revelar-se e continuar a falar-nos a partir do frágil, do pobre, do fraco. E é nesses irmãos que mais facilmente O encontramos. Assim como O encontramos no silêncio dos nossos corações, meditando sobre as nossas inseguranças, fraquezas, fragilidades e incapacidades de amar.
Jesus na Cruz não nos poupa à dor, ao sofrimento. À dor e ao sofrimento que, como a Ele, nos é infligido por outros, nem à dor e ao sofrimento que, ao contrário Dele, nos infligimos a nós próprios, fruto do nosso esquecimento da bondade do Pai. Jesus Cristo não evita que passemos por essas desordens. Mas pelo sacrifício da Cruz Ele é nosso companheiro em tais caminhos, é a mão que nos mantém de pé, é Aquele que chama e espera por cada um de nós, oferecendo-nos a confiança que sabemos não merecer.
Contudo, o Deus que se nos revela na dor, na fragilidade e no sofrimento, não é um Deus dolorista. Ele não ama nem a dor, nem o sofrimento e muito menos a violência. Ele quer para nós, para cada um de nós, uma vida em abundância alicerçada na Esperança que não engana. As suas últimas palavras indicam-nos como viver e construir o seu Reino: “Disse à mãe: ‘Mulher, eis o teu filho!’ Depois, disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe!’”. O testamento de Jesus, a sua última palavra para nós, é este convite a criarmos novas relações de amor e cuidado uns pelos outros. Nelas vivemos já a salvação que nos está prometida.
Com Jesus na Cruz rezemos para que Ele, que está connosco sempre que comemos juntos, sempre que comungamos, rezemos para que Ele ilumine esta comunidade a ser a ajuda de que cada um de nós necessita para, nos acontecimentos, nas pessoas, nas coisas e no nosso íntimo escutar a voz do Senhor que exclama: “Sou Eu!”
Este texto foi lido na Celebração da Paixão desta Sexta-Feira Santa na paróquia de Santa Isabel, em Lisboa.










