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Gaza, Khan Yunis

Guerra Israel-Palestina

Suspensão das doações é “sentença de morte” para muitos milhares em Gaza

| 01/02/2024

Gaza

Em Khan Yunis, distrito de Huzaa, os palestinianos, com recursos muito limitados e enfrentando condições climáticas severas, vivem circunstâncias dramáticas. Foto © Mohamad Zaanoun / Middle East Images/AFP via Getty Images. (Gaza 2023/11/26)

 

“Nós não podemos abandonar a população de Gaza”, afirmam, de forma veemente, as várias agências das Nações Unidas e algumas organizações não governamentais que estão presentes no terreno, diante da calamidade humanitária que se vive naquele território, desde outubro passado.

A posição emerge do agravamento das dificuldades de ajuda a mais de dois milhões de habitantes de Gaza, prestada localmente pela ONU, depois de 16 países doadores terem decidido, no final da última semana, suspender o financiamento, devido ao facto de terem sido identificados 12 funcionários daquela estrutura que terão estado envolvidos no ataque terrorista do Hamas em Israel, em 7 de outubro do ano findo.

Segundo a agência de ajuda da ONU (UNRWA, na sigla em inglês), o agravamento da situação humanitária decorre do facto de “dezenas de milhares de pessoas” terem sido “forçadas a fugir para o sul devido aos bombardeamentos e combates em Khan Younis durante a última semana, somando-se a mais de 1,4 milhão de pessoas já amontoadas na província de Rafah, no sul”. “A maioria vive em estruturas improvisadas, tendas ou ao ar livre, e agora também teme não receber mais alimentos ou outra assistência humanitária da UNRWA”, refere a agência numa declaração.

Dezenas de milhares de pessoas foram forçadas a fugir para o sul devido aos bombardeamentos e combates em Khan Younis durante a última semana, somando-se a mais de 1,4 milhão de pessoas já amontoadas na província de Rafah, no sul. A maioria vive em estruturas improvisadas, tendas ou ao ar livre, e agora também teme não receber mais alimentos ou outra assistência humanitária da UNRWA.

Segundo um responsável pela coordenação humanitária, Thomas White, a cidade de Rafah, no extremo sul da Faixa, “tornou-se um mar de pessoas que fogem dos bombardeamentos” e essas pessoas já foram deslocados várias vezes, desde que as tropas invasoras iniciaram essa política de concentração dos habitantes.

A agência – que intervém no campo da saúde, da alimentação e da educação, nomeadamente, tinha mais de 12.000 funcionários, calculando em mais de 3.000 os que continuam a trabalhar, sendo “a espinha dorsal das operações de ajuda humanitária”.  Para White, “é difícil imaginar que os habitantes de Gaza irão sobreviver a esta crise sem a [ajuda da] UNRWA”.

Quando foram conhecidas as alegações de que alguns funcionários da ONU estariam implicados nos ataques do Hamas, foi de imediato tomada a decisão de cancelar-lhes o contrato e solicitada uma investigação ao Gabinete de Serviços de Supervisão Interna em Nova York. Ainda assim, a consequência, de acordo com o comunicado da agência, foi a imediata suspensão de financiamentos dos doadores, no montante de 440 milhões de dólares.

O secretário geral da ONU, António Guterres, tem-se desmultiplicado em iniciativas, para fazer reverter a suspensão do apoio financeiro à ajuda humanitária em Gaza, especialmente mulheres e crianças. Chamando a atenção para o facto de a UNRWA ser crucial nas operações de ajuda a Gaza, afirmou que as Nações Unidas tomaram medidas imediatas na sequência das alegações apresentadas por Israel contra os 12 funcionários. Na última terça-feira, reuniu presencialmente com delegações dos países doadores, para ouvir as respetivas preocupações e delinear medidas complementares.
“Apelo a todos os estados-membros para que garantam a continuidade do trabalho vital da UNRWA”, disse Guterres, apelando, uma vez mais, ao estabelecimento em toda a Faixa de Gaza do acesso humanitário “rápido, seguro, sem entraves, amplo e sustentado” e a um cessar-fogo imediato.

Entretanto o operador global de televisão Sky News afirma ter tido acesso a documentos israelitas com as alegações contra funcionários da ONU, os quais terão sido partilhados com governos de vários países. Segundo esses documentos, os funcionários seriam não 12, mas seis que se terão infiltrado em Israel a partir de Gaza e quatro deles poderiam ter estado envolvidos no sequestro de israelitas, tendo um quinto dado apoio logístico.

Israel afirma nessa documentação que “dos aproximadamente 12.000 funcionários da UNRWA na Faixa de Gaza, cerca de 10 por cento são agentes do Hamas/ Jihad Islâmica Palestiniana e cerca de 50 por cento são parentes de primeiro grau de um agente do Hamas “.

É, contudo, de sublinhar o que diz a notícia do operador televisivo: os documentos dos serviços secretos israelitas fazem várias afirmações das quais a Sky News não viu provas e muitas das afirmações, mesmo que verdadeiras, não implicam diretamente a UNRWA.

Os críticos do massacre que Israel tem vindo a fazer na Faixa de Gaza alertam para o facto de ser reduzido o número de funcionários alegadamente implicados e consideram a medida de suspensão das doações para a ajuda humanitária “cruel e desproporcional”.

A título de exemplo, o Conselho Norueguês para os Refugiados afirmou-se “indignado” com os governos estrangeiros por interromperem as doações. “Estamos chocados com a decisão imprudente de cortar a tábua de salvação de toda uma população por parte de alguns dos mesmos países que apelaram ao aumento da ajuda em Gaza e à proteção dos [trabalhadores] humanitários enquanto realizam o seu trabalho”, disse aquela instituição em comunicado citado pela Sky News.

Por sua vez, uma outra ONG, a Action Aid, disse que a suspensão das doações “significa uma sentença de morte para milhões de palestinianos em Gaza e nas regiões vizinhas”.

Também a Amnistia Internacional, num comunicado que fez chegar ao 7MARGENS através do seu escritório em Lisboa, considera ser “profundamente chocante – na verdade, desumano – que vários governos tenham tomado decisões suscetíveis de causar mais sofrimento a dois milhões de palestinianos”.  Tanto mais que, acrescenta a organização, “estas pessoas já enfrentam o risco de genocídio e de uma fome provocada, e poucos dias depois de o Tribunal Internacional de Justiça ter concluído que a sua sobrevivência na Faixa de Gaza está em risco”.

Repudiando o alegado envolvimento de funcionários da ONU em atos condenáveis do Hamas, a Amnistia sustenta que “alegadas ações de alguns indivíduos não podem ser utilizadas como pretexto para cortar um tipo de assistência que pode salvar vidas, já que isto pode equivaler a um ataque coletivo”.

Para se fazer uma ideia da envergadura da ação da UNRWA da Palestina, refira-se que ela existe desde 1949, tendo sido criada para dar assistência aos milhares de palestinianos expulsos das suas terras, na altura da criação do estado de Israel. Fornece educação a mais de 544.000 crianças em 706 escolas, apoia financeiramente o lançamento de pequenas empresas e a criação de emprego, assim como assegura serviços de apoio de saúde para mais de sete milhões de consultas de pacientes todos os anos.

Com uma tal presença no terreno e dado o tipo de agressão praticada por Israel, não é de estranhar que a agência da ONU tenha sido profundamente afetada pela guerra, nestes perto de quatro meses. Segundo os dados disponíveis, 152 dos seus funcionários foram mortos em Gaza e 145 das suas instalações foram danificadas.

 

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