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Marino Mazzacurati, "Os Horrores da Guerra", Sant'Egidio
Marino Mazzacurati, "Os Horrores da Guerra". Obra na igreja de Santa Maria in Trastevere (Comunidade de Santo Egídio, Roma), na sala onde foi assinado o acordo de paz de Moçambique, em 4 de Outubro de 1992. Foto © António Marujo/7MARGENS

Jornadas em Fátima

Temos noção de que a guerra é horrível?

| 17/04/2026

“Temos verdadeira noção de que a guerra é horrível?” A pergunta é do embaixador João Vale de Almeida que, a partir da sua experiência de diplomata, se referiu aos dilemas que hoje se colocam às democracias e aos defensores da paz.

A pergunta foi feita em Fátima, “lugar de paz”, como referiu o padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário, no debate que abriu as quintas Jornadas de Comunicação, dedicadas ao tema “A comunicação como instrumento para a paz”. A paz é um tema desde “sempre presente em Fátima” a partir dos acontecimentos de 1917, disse o reitor.

“Hoje, infelizmente, a paz recuperou a actualidade”, afirmou, porque “a guerra é um tema omnipresente”. Por isso, “Fátima fala de paz”, recordando que “a fé e a oração são forças que podem influir na história”, como dizia o então cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, no seu comentário teológico ao designado “segredo de Fátima”. A mensagem de Fátima, acrescentou, “não exorta apenas à oração: exorta a vencer a indiferença diante do drama das vítimas e dos sofrimentos dos mais frágeis, dos que são agredidos e atacados”.

“O lugar onde se reza pela paz pode ser também o lugar onde se pensa e se debate a paz”, referiu ainda Patrícia Duarte, responsável pela comunicação do Santuário, referindo-se ao tema das Jornadas.

Leão XIV “tem sido incansável a sublinhar a solidariedade com as vítimas”, acrescentou o reitor de Fátima, introduzindo a questão do papel do actual Papa, que foi sublinhado muito positivamente durante o debate.

O debate, moderado pela jornalista Rosário Lira, da Antena 1, começou escutando uma crónica gravada do jornalista Francisco Sena Santos ao jeito do programa que mantém diariamente na rádio pública. Nela, o autor de Um Dia no Mundo destacava o papel de Leão XIV na afirmação de que “basta de guerra, o mundo tem sede de paz”. “Mais: o coração de Deus não está com os malvados, com os prepotentes, com os corruptos”, como se pode escutar no áudio a seguir:

 

Apresentando-se como não crente, Vale de Almeida, que foi embaixador da União Europeia nos Estados Unidos, nas Nações Unidas e no Reino Unido, sublinhou a oportunidade do debate de Fátima e das tomadas de posição do Papa.

A polémica dos últimos dias, vinda dos Estados Unidos, contra Leão XIV, levou o embaixador a afirmar que as discussões não podem estar focalizadas no Presidente americano: “O mais perigoso neste momento para a Europa é Putin”, afirmou. Partindo dos 15 encontros pessoais que teve com o Presidente russo, João Vale de Almeida recordou uma afirmação que ouvir daquele líder e que conta no seu livro mais recente, O Divórcio das Nações. Putin afirmava ser “o representante do cristianismo na Ásia”, papel que o Ocidente não lhe reconheceria. É importante entender a “relação do senhor Putin com a Igreja Ortodoxa Russa”, uma questão que também não é valorizada na Europa.

Sobre o actual Presidente dos Estados Unidos, João Vale de Almeida afirmou que o caracteriza “a falta de decência” e de responsabilidade, bem como a “falta de inteligência política”, já que está a alienar a “magnitude da comunidade católica nos EUA”, reagindo mais “a instintos. Mas “há mais América para lá de Trump, ele é transitório”, afirmou.

No final, em declarações ao 7MARGENS, o diplomata disse que há “dilemas fundamentais que vêm dedse a Segunda Guerra Mundial: como se mantêm os equilíbrios e como se controlam os armamentos”. A situação deteriorou-se desde 2001, com os atentados às Torres Gémeas, em Nova Iorque, e as sucessivas acções militares dos Estados Unidos no Iraque e Afeganistão, e da Rússia na Geórgia, Crimeia e Ucrânia e ainda com os atentados do Hamas em Israel e da destruição de Gaza.

“O objectivo tem de ser a paz e o desarmamento”, considera o embaixador, mas neste momento “para ter a paz é preciso preparar a guerra: os russos concluíram que a Europa não está preparada para responder e por isso não podemos ser ingénuos, porque a noção de que a força faz o poder está a tornar-se o modelo”. Por outro lado, Vale de Almeida admite que a educação para a não-violência “é fundamental: temos de voltar a personalizar a guerra, contar histórias humanas da destruição e morte que ela causa”.

Já o Papa Leão não faz mais do que o que tem sido feito pelos últimos líderes da Igreja Católica, acrescentaria no debate o núncio (embaixador) da Santa Sé em Lisboa, Andrés Carrascosa. O núncio esteve já em realidades tão diversas quanto a Libéria, Dinamarca, Secretaria de Estado do Vaticano, Nações Unidas, Brasil, Canadá, ou República do Congo.

“A diferença é o estilo”, porque a posição de Leão XIV “é a mesma de João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI ou Francisco”. E o Papa Leão é o mesmo de há muito: o núncio referiu um episódio em que o actual Papa, ainda seminarista, foi fotografado em 1981 numa manifestação anti-militarista em Itália. E recordou ainda a afirmação do arcebispo americano Timothy Broglio, responsável pelo serviço pastoral dos militares dos Estados Unidos: em Janeiro, a propósito da Gronelândia, o responsável dizia que os militares católicos do país poderiam, em consciência, desobedecer a ordens superiores.

 

“Leão dá muita coragem a todos os artesãos de paz “

Papa Leão, pomba, Paz, Ângelus

Uma pomba sobrevoa a Praça de São Pedro, durante a oração do Ângelus do Papa Leão, em 14 de Dezembro de 2025. Foto © António Marujo/7MARGENS

“O mundo mudou com o conceito de guerra preventiva”, disse o núncio. “Como acho que me vais atacar, eu ataco; perdemos a força do direito para passar a ter o direito da força.” E referindo a actual viagem do Papa a África, o bispo Carrascosa sublinhou que os senhores da guerra não são só Putin ou Trump ou Xi. “Também nos Camarões há senhores de guerra, há um nível terrível de despesas militares”.

“A força da mensagem do Papa Leão dá muita coragem a todos os artesãos de paz”, disse o padre Angelo Romano, da Comunidade de Santo Egídio, que esteve já envolvido em iniciativas de paz em Moçambique, Argélia, Libéria, Guiné-Conacri, República Centro-Africana e Líbia.

Seria importante, disse o padre mediador, revisitar artigos de políticos, intelectuais, jornalistas e outras pessoas que, em 2002-2003, defendiam que a invasão do Iraque pelos Estados Unidos e aliados iria trazer um mundo mais pacífico. João Paulo II alertou para a inevitável deterioração da situação e para o crescimento do êxodo dos cristãos do Iraque e dos países da região. Duas décadas depois, o Papa tinha razão: a guerra foi mesmo uma “derrota da humanidade”.

Vale de Almeida trouxe ao debate também a questão do papel da ONU, que tem sido desvalorizada desde logo por dois dos Estados que integram o Conselho de Segurança – Rússia e Estados Unidos. “Quando não há alternativa melhor [às Nações Unidas], o melhor é tentar preservar o que existe”, afirmou.

O diplomata introduziu, depois, cinco princípios que considera importantes na discussão sobre estes temas: “Para garantir a paz, não basta falar dela, nem condenar a guerra, é preciso construir uma cultura de paz e prevenir a guerra”; tal como é importante também “desenvolver a capacidade de fazer a guerra para dissuadir a guerra dos que nos querem destruir”, acrescentou, referindo-se às ameaças de países como a Rússia e a China e admitindo que esta ideia pode não ser consensual, mas que deve ser debatida. “Devemos convencê-los de que não é boa ideia atacar-nos.”

Nessa perspectiva, apontou para a ideia de a Europa aceitar debater a questão do eventual aumento das despesas com armamento.

 

Privilegiar diálogo e concertação

Comunicação, Fátima, Rosário Lira, João Vale de Almeida, Angelo Romano, Andrés Carrascosa

Momento do debate em Fátima, “lugar de paz”. Foto © Luís Oliveira/Santuário de Fátima.

Um quarto princípio é o de que “para garantir a paz, temos de privilegiar sempre uma cultura de diálogo e concertação, bilateral e multilateral”, privilegiando as “instituições internacionais, o melhor quadro para resolver problemas comuns”. A guerra, acrescentou, não vai resolver qualquer problema, “como estamos a ver em Gaza, Líbano, Irão ou Ucrânia”.

Finalmente, o embaixador destacou a importância de “todas as instituições da sociedade civil, no sentido da criação e desenvolvimento de uma cultura de paz”.

O padre Angelo Romano lamentou ainda que “o pior do que está a acontecer na guerra do Irão é que se matam os mediadores, os diplomatas”. Quem “gosta de fazer a guerra é uma minoria muito reduzida” e acrescentou: “Temos poderes obscuros que podem ter um peso enorme: por exemplo, está documentado que todas as insurgências islamistas recebem muito dinheiro.” É preciso ir às raízes dos conflitos – não para justificar a violência, mas para resolver as tensões e as guerras a partir do que está na sua origem.

Noutro tema do debate, João Vale de Almeida referiu que se deve reflectir sobre questões como a dos comentários televisivos em que, durante horas, se fala de armas ou estratégias militares como se de um jogo se tratasse, ou dos videojogos, em que “os miúdos vivem em ambientes em que os conceitos de violência e morte estão banalizados”.

O núncio Carrascosa considerou entretanto que “estamos a perder a capacidade de nos confrontarmos com aquele que é diferente”; criticou os enormes gastos de armamento (em 2024, as vendas de armas das 100 maiores empresas da área no mundo atingiram o valor recorde de 679 mil milhões de dólares americanos, dados do Instituto Internacional de Investigação sobre a Paz, de Estocolmo).

Com uma pequena parte deste dinheiro, acabava-se com a pobreza no mundo, lamentou. “Acabamos com o direito internacional e voltamos à lei da selva.”

As jornadas incluíram ainda um painel sobre a comunicação como instrumento para a paz nos ambientes familiar e digital, nos locais de trabalho e em contextos de crise; e várias oficinas práticas. No final, o Santuário de Fátima apresentou um novo podcast de entrevistas sobre religião a políticos de diferentes quadrantes, sempre num registo mais pessoal. O primeiro episódio tem como entrevistado o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, que entre outras coisas fala dos “dilemas morais” que diz enfrentar no lugar que ocupa.

A entrevista está já disponível na página oficial da instituição, e os entrevistados seguintes incluem Marta temido, ministra da Saúde na pandemia; José Manuel Pureza, professor e coordenador do Bloco de Esquerda; João Costa, ex-ministro da Educação; Sebastião Bugalho, eurodeputado pelo PSD; Marçal Grilo, ex-ministro da Educação; e Paula Teixeira da Cruz ex-ministra da Justiça.

 

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