
Mais de dois terços dos portugueses desenvolvem algum tipo de desporto ou atividade física, segundo dados de um estudo publicados em 2022. Os ginásios, as ecovias e os trilhos de caminhadas ganharam praticantes regulares. E não é invulgar ver gente de todas as idades a caminhar ao fim de semana, num contraste notório com a diminuição da prática religiosa dominical. Os Jogos Olímpicos, que decorrem em França, apresentam, ao seu mais alto nível, a diversidade de modalidades e o resultado de um trabalho de treino e de superação que leva anos a preparar. Que relação poderá estabelecer-se entre o campo religioso e espiritual e o campo do exercício físico e do desporto?
Um contributo para responder e, sobretudo, refletir sobre esta interrogação é dado por Alessandra Maigre, a propósito de uma tese de doutoramento em teologia, que defendeu em 2023, na Universidade de Friburgo, na Suíça, intitulada Les défis de la spiritualité dans le sport: limite, jeu et identité [Os desafios da espiritualidade no desporto: limite, jogo e identidade], que está em vias de publicação naquele país.
Apresentando a investigação que fez para esta tese, ela explica que o seu ponto de vista não é tanto saber se no desporto há elementos de natureza religiosa, como alguns sugerem, e sim que “o desporto é um facto cultural que tem fins religiosos”.
E explora essa perspetiva de três ângulos: a questão do corpo (“como pode a visão cristã do corpo apoiar uma visão mais ampla do desporto?”, questiona ela; a questão da vocação (“o que é que o atleta é chamado a fazer: como se enquadra a ‘vocação desportiva’ na vocação humana?”); e, por fim, a dimensão do jogo (“o desporto, faz notar a teóloga, se visa o desempenho, também tem esta dimensão do ‘jogo’, que não deve ser negligenciada, inclusive na vida cristã”).
A par da dimensão física e da saúde mental no desporto, Alessandra Maigre preocupa-se também com o que designa por “saúde espiritual”.
Numa entrevista publicada na última quinta-feira, 1 de agosto, pelo site católico cath.ch, ela desenvolve um pouco mais este ponto, ao ser-lhe perguntado como se conjuga a dimensão competitiva do desporto com a dimensão da fragilidade e dos falhanços.
“A priori, [isso] não tem lugar aí. Temos de atuar, ser os melhores. Mas se um atleta se define apenas através desta função, o que lhe resta quando já não puder praticar o seu desporto devido a uma lesão? Há uma questão de identidade aí. Como integrar a fragilidade num todo maior, na totalidade da vida de uma pessoa. Se [a pessoa] não se define apenas pelo seu desporto, pela sua lesão, o que mais é? A preparação dos atletas deve integrar este questionamento e uma concepção holística da pessoa. E isto pode implicar um acompanhamento espiritual a montante”.
Por fim, e pegando no facto de a sua tese ter tido como objetivo delinear “fundamentos teológicos para uma ação pastoral em ambientes desportivos na Suíça”, Alessandra Maigre considera que esta é uma área que pode ser desenvolvida e definida no âmbito de “capelanias desportivas”, as quais, mais do que o desempenho do atleta, podem dar um contributo relevante da dimensão da formação humana.
A teóloga, que foi até muito recentemente jogadora de uma equipa de nível nacional de hóquei no gelo que ascendeu à primeira divisão, mas que, pelas exigências daí decorrentes, desistiu e passou a jogar numa da terceira divisão, acumula ainda, entre outras atividades com as funções de capelã do exército.
Quando lhe perguntam se não estaria disponível para exercer essa função num clube desportivo, ela alude às dificuldades que esse desafio comportaria e ao estado fragmentário e pontual daquilo que se poderia chamar uma pastoral do desporto, no seu país. Mas vai adiantando que, inspirada pela parte introdutória da Gaudium et Spes, os valores do desporto que se aproximam dos valores evangélicos são “perseverança, rigor de treino” e, nos desportos coletivos, “a solidariedade, a atenção ao próximo”.









