Não penses!
Se pensares, não digas.
Se disseres, não escrevas.
Se escreveres, não publiques.
Se publicares… não te admires.
A liberdade
Certamente que muitos se recordarão desta piada: um conselho amargo e irónico que, nas últimas décadas do século passado, era dirigido aos teólogos. Em especial aos que se ocupavam da Teologia Moral. Sobre a questão do pluralismo em teologia moral e da possibilidade de dissensões, vale a pena recordar o processo conduzido pela Congregação da Doutrina da Fé suspendendo do ensino (em 1986), interrogando e condenando Charles Curran. Uma boa apresentação deste dossier é feita por Richard McCormick (R.A. McCormick, «L’Affaire Curran» in Id., The Critical Calling. Reflections on Moral Dilemmas Since Vatican II, Washington DC 2006, Georgetown University Press, 111-130). Não deixa de nos impressionar que o P. Häring, numa entrevista (B. Häring, Fede, storia, morale. Intervista di Gianni Licheri, Roma 1989, Edizioni Borla), reconheça que dos dois interrogatórios a que foi submetido – durante o período nazi e no Santo Ofício – o mais duro tenha sido o da Doutrina da Fé.
Em 2022 a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa realizou um curso de Formação Avançada intitulado “O Papa Francisco e a Questão Moral” e, em 2024, um curso de Formação Contínua de Professores: “O Papa Francisco, a questão moral e o espaço público global”. Não que o Papa Francisco tenha escrito uma encíclica sobre a moral. Mas porque o seu pontificado apresentava, desde o início, novas condições para se desenvolver, com liberdade, a reflexão teológico-moral. Logo desde a programática exortação apostólica Evangelii Gaudium. Mas sobretudo nas suas encíclicas Laudato si’, Fratelli tutti e Dilexit nos. Falta ainda referir a particular relevância da Amoris laeticia, na sequência dos sínodos sobre a família, e do Documento Final do sínodo sobre a Sinodalidade (disse Francisco: «faz parte do Magistério ordinário do Sucessor de Pedro e, como tal, peço que seja acolhido»).
Tive a alegria de participar no Congresso Internacional de Teologia Moral (maio de 2022) e no Congresso Internacional sobre o Futuro da Teologia (dezembro de 2024). O Papa Francisco falou-nos nestas duas ocasiões, sublinhando a função crítica da teologia, a relação íntima com o sentido da fé dos fiéis, da importância do discernimento, da pluralidade das culturas, e do perigo de um “voltar para trás” que corresponde à busca de falsas seguranças e é contrário ao dinamismo do Evangelho.
Sabemos que o Papa Leão XIV se quer situar perante a mudança de época que vivemos nesta nova revolução tecnológica (tal como Leão XIII na revolução industrial). Não vai “voltar para trás”. Não pode. E (creio que) não quer: «Ainda conservamos nos nossos ouvidos aquela voz fraca mas sempre corajosa do Papa Francisco que abençoava Roma. [e] o mundo inteiro, naquela manhã de Páscoa. Deixem-me continuar essa bênção. Deus ama-nos, Deus ama a todos, o mal não vai prevalecer. Estamos todos nas mãos de Deus. Por isso, sem medo, […] vamos avançar», afirmou o Papa Leão no seu primeiro discurso, na varanda de S. Pedro.
Tenho mesmo a esperança de que o clima em que vivem as novas gerações de teólogos que se ocupam das questões éticas no tempo presente lhes permita refletir e aprofundar uma consciente liberdade que se torna responsabilidade pela vida do outro. Em todas as circunstâncias. Sem prévias condições. Sem excluir ninguém. Procurando o bem concretamente possível e rasgando horizontes de liberdade. Para todos.
José Manuel Pereira de Almeida é padre católico, pároco de Santa Isabel (Lisboa) e Vice-Reitor da Universidade Católica Portuguesa.










