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Ilustração © Aquarela original de Susana Braguês para esta publicação.

[Margem 8]

“’tis but a scratch”

| 30/04/2023

Ilustração © Aquarela original de Susana Braguês para esta publicação.

Ilustração © Aquarela original de Susana Braguês para esta publicação.

 

O tema podia ser o da pastoral dos sacramentos, da catequese da infância e adolescência, dos grupos de jovens, da formação nos seminários, do processo de indicação das lideranças, das nomeações dos bispos, da comunicação para “dentro” e para “fora”, das bizantinices litúrgicas, da desadequação das linguagens, da insensibilidade no modo de gerir a problemática dos abusos, da organização interna, da burocratização das paróquias, etc. 

O tema podia ser um pormenor ou um sistema, um método que simplesmente já não funciona ou uma organização que desgraçadamente se estragou, mas há uma postura eclesial que se repete demasiado: reconhecer muito debilmente que aquilo que fazemos não está bem, mas resistir fortemente em mudar seja o que for. 

Sinto que muitas vezes temos uma atitude de faz-de-conta: faz-de-conta que não somos irrelevantes, faz-de-conta que ainda estamos convencidos que isto assim funciona, faz-de-conta que acreditamos que acreditam em nós, faz-de-conta que está tudo bem, faz-de-conta que não demos conta.

Entre tanto que tem acontecido, andava a caminhar pensando nestas coisas, e nas atitudes e nos discursos em que se manifestam, quando o Cavaleiro Negro me veio oferecer uma imagem que me faltava. Não, não foi uma figura do apocalipse — sossegue quem não se lembra do Black Knight do filme Monty Python and the Holy Grail — mas uma das figuras mais memoráveis do grupo de John Cleese, Graham Chapman, Michael Palin e companhia. 

O Rei Artur percorria uma floresta e encontrou uma ponte guardada por um Cavaleiro Negro que lhe vedou vassalagem e passagem. As espadas desembainharam-se e o Rei Artur cortou o braço esquerdo ao Cavaleiro Negro: “Pronto, arreda-te agora e deixa-me passar, valoroso adversário!” “Não, ’tis but a scratch, é só um arranhão”, disse ele. “Um arranhão?! Ficaste sem braço!” “Não é nada”, disse o outro, e continuou. 

O Rei Artur cortou-lhe então o braço direito e, quando pensava terminada a luta, veio o Cavaleiro Negro com um pontapé. Disse-lhe o quase gentil Rei Artur: “Caro Cavaleiro, és de facto muito bravo, mas esta luta já terminou. Ganhei.” E o Cavaleiro Negro respondeu “Estás com medo, não é? Medricas!” 

Rei Artur: “Olha que eu corto-te uma perna!” E cortou… O Cavaleiro Negro, saltitando ao pé coxinho, dava cabeçadas ao Rei Artur, que lhe cortou a outra perna. E a cena termina com um ridículo tronco humano empinado no chão, sem braços nem pernas, a gritar “Anda cá! Anda cá! Eu sou invencível! Invencível!” enquanto o Rei Artur e o seu escudeiro se afastam dizendo: “Tu és maluco”. 

E o outro continua, ali pousado e desmembrado na caruma: “O Cavaleiro Negro sempre triunfa. Pronto, vamos considerar que desta vez foi um empate…” 

As duas figuras seguem a sua vidinha e o Cavaleiro Negro lá rabeia: “Com que então vais embora, seu medricas? Vem cá que te arranco uma perna à dentada.”

Rui Santiago é missionário redentorista e presbítero católico e foi eleito na última semana como vogal da direcção da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP).  

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